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24 Mar 2017

NÃO SOMOS "LIBERAIS-NUTELLA"

Escrito por 

 

 

 

Um dia os verdadeiros liberais que construíram a civilização ocidental serão lembrados como liberais-raiz que não se submetem à covardia que já apodreceu as raízes de nossa cultura com sua hegemonia. Aí o jogo vira.

 

(Ali acima, no quadrante direito é exatamente onde nos situamos.)

Amartya Sen conta, logo no início de seu Desenvolvimento como Liberdade algo que o marcou quando criança. A sua cidade era povoada por hindus e muçulmanos, mas que se concentravam em bairros distintos. Pura segregação étnica, mas com certa estabilidade até que as turbulências pela secessão com base religiosa que formavam o antigo Paquistão Oriental (atual Bangladesh) tomassem conta do país provocando um terremoto político-social.

Os indianos de diferentes religiões se evitavam, mas o emprego nem sempre estava onde os fiéis de um mesmo culto se encontravam. Quando pequeno, Amartya viu um homem sangrando e berrando por socorro. Ele e seu pai, hindus carregaram o homem para dentro de casa, um muçulmano para depois levá-lo para o hospital. Tinha sido esfaqueado justamente por ser um muçulmano andando em uma região urbana de maioria hindu. Aquilo o impressionou e iria formar sua visão sobre subdesenvolvimento de um modo distinto da maioria dos economistas de sua época. Vale dizer, keynesianos...

A influência desta percepção ao longo de sua vida recaiu sobre a cultura e desta para a ação humana. É a ação humana que leva indivíduos a serem o que são, os determinantes da sociedade e da economia. Ou seja, se parte de agentes microeconômicos para a macroeconomia e não o contrário, como fazem macroeconomistas. Não é a toa que Amartya Sen é uma das maiores referências no atual pensamento liberal (que a maioria dos liberais brasileiros ainda não descobriu). Mas não é disso que queremos falar aqui e agora...

Quando um filho de jamaicanos é acolhido em um país como a Inglaterra e vive em uma das mais belas e dinâmicas cidades globais, Londres só de replicar seu ódio ao mundo ocidental percebemos que há algo profundamente errado e irracional nesta civilização que amamos: ela aceita e tolera intolerantes. Este é o ponto. Não dá para termos uma civilização segura calcada nos princípios do Iluminismo e na liberdade social e econômica quando ela permite que ovos de serpentes sejam depositados entre seu plantel de aves canoras que não olham para baixo, para seus ninhos.

Quanto tempo deixaremos correr para percebermos que pode ser muito tarde para reagirmos? Não se trata de reagir com o racismo ou alguma forma de etnicismo ou boicotando a liberdade de expressão de quem quer que seja (mesmo que ele a use para destilar veneno de ódio a uma cultura), mas sim de definir, discriminar (legalmente) e detectar quem quer que seja que esteja semeando a violência. Cabe lembrar que o facínora que atropelou 40 e matou 4 antes ser morto dizia o que dizia desde 2006 incentivando o ataque e a submissão religiosa de cidadãos europeus. Já era um sujeito conhecido e pasmem, tratado como “figura secundária” pelos serviço de inteligência britânico! Nossa! Se este era um “secundário”, não quero nem ver o que é uma “figura primária”!!!

Liberalismo realmente existente nunca prescindiu de um estado mínimo e o estado mínimo não significa estado fraco. Significa estado eficaz com leis e procedimentos eficientes. Se a pena capital é por demais polêmica, no mínimo, a prisão perpétua deve ser adotada e observação de perto de todos os passos daqueles que falam aos quatro ventos o que irão fazer. Se alguém parece com um pato, anda como um pato e grasna como um pato, então deve ser um pato. Analogamente, se um fanático religioso declara guerra à civilização que o acolheu, se propõe matar inocentes e diz que seus fiéis devem submeter os infiéis a força, então não é motivo suficiente para tratá-lo como o que diz ser?!

Nós pregamos a paz, mas esta paz deve ser garantida com a eterna vigilância. Não confundam nossa serenidade e hospitalidade com covardia. O braço forte da lei deve estar ao lado de uma sociedade e mercado livres. Se hoje em dia há um discurso covarde de liberais-nutella que creem que só o Princípio de Não-Agressão (PNA) seja suficiente para erigir um mercado autônomo sem estado, sem leis e sem forças de repressão acreditem, isto não passa de um projeto fadado ao fracasso e ridicularizado por bárbaros que tomarão armas, veículos, o que for a força deixando corpos pelo caminho, como aconteceu ontem na ponte e palácio de Westminster.

Um dia os verdadeiros liberais que construíram a civilização ocidental serão lembrados como liberais-raiz que não se submetem à covardia que já apodreceu as raízes de nossa cultura com sua hegemonia. Aí o jogo vira.

 

 

 

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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