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03 Mar 2017

FAIR TRADE? PARA COM ISSO, MR. TRUMP...

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Em seu primeiro pronunciamento ao Congresso dos Estados Unidos, o Presidente Donald Trump fez questão de ressaltar diversas vezes que seu governo buscará o “justo comércio” (fair trade) e que tal conceito seria mais importante para o progresso de seu país do que o de livre comércio (free trade).

 

Em seu primeiro pronunciamento ao Congresso dos Estados Unidos, o Presidente Donald Trump fez questão de ressaltar diversas vezes que seu governo buscará o “justo comércio” (fair trade) e que tal conceito seria mais importante para o progresso de seu país do que o de livre comércio (free trade).

Duas bofetadas! A primeira na própria história, não apenas na norte-americana, mas na de toda a civilização, desde tempos imemoriais, em que o livre comércio sempre se mostrou superior, comparativamente ao comércio entre países com intervenções do Estado, para promover o bem-estar dos povos que realizam voluntariamente suas trocas. A segunda, na nossa inteligência, por motivos óbvios. E, de lambuja, vários tabefes, catiripapos e sopapos, em Juan de Mariana, David Hume, Adam Smith, Jean Baptiste Say, Anne Robert Turgot, David Ricardo, Frédéric Bastiat, John Stuart Mill, Ludwig von Mises, Milton Friedman, Harry Johnson, Friedrich Hayek e todos os demais economistas e estudiosos de relações internacionais que defenderam e defendem o livre comércio com argumentos sólidos, ao longo dos últimos três séculos e ainda hoje, contra as idéias mercantilistas que, a exemplo das socialistas, têm a incrível capacidade de sobreviver às incontáveis derrotas que lhes infligem os fatos.

A propósito da palração de Trump, vale a pena ler o artigo de Thorsten Polleit, economista-chefe da empresa Degusa, especializada em metais preciosos, e co-fundador da firma de investimentos Polleit & Riechert Investment Management LLP e professor honorário da Frankfurt School of Finance & Management. Publicado na página do Instituto Mises Brasil, tão excelente quanto didático, explica as diferenças entre globalização, uma categoria econômica, em que se insere o contexto de livre comércio e globalismo ou globalização política, uma doutrina internacionalista fabricada para fortalecer a centralização política e burocrática, que advoga ser o mundo inteiro um campo adequado para a influência do intervencionismo. Como escreve Thorsten, “o objetivo do globalismo é determinar, dirigir e controlar todas as relações entre os cidadãos de vários continentes por meio de intervenções e decretos autoritários”. A União Europeia é um exemplo típico de globalismo.

Para mim é extremamente cansativo e aborrecido, em pleno ano de 2017, ainda ter que explicar as vantagens do livre comércio, por isso, prefiro remeter o leitor ao conhecidíssimo vídeo A História de Um Lápis, em que Milton Friedman, em pouco mais de dois minutos de duração, descreve a multiplicidade de elementos que entram na produção de um simples lápis e mostrando claramente como a globalização econômica significa maior divisão do trabalho em nível mundial e, portanto, maior eficiência comparativamente às economias controladas por burocratas e políticos. O próprio Thorsten indica outro excelente artigo, em que diversos autores mostram como a Nova Zelândia e o Chile, utilizando tão somente a liberdade de comércio, transformam vacas, ovelhas, uvas e cobre em automóveis de qualidade, sem que possuam montadoras de carros em seus territórios.

Se não posso dizer que comemorei entusiasticamente a vitória de Trump, posso assegurar que festejei a derrota de Hillary e seu séquito de esquerdistas globalistas. Gosto dele, por exemplo, quando apóia Israel e critica a ONU e sua agenda esquerdista, ou quando diz que vai colocar um fim ao monstrengo Obamacare, ou quando anuncia uma forte desregulamentação e pretende combater a ditadura politicamente correta dos democratas, mas, no entanto, confesso que algumas das suas idéias me assustam, como a do muro na fronteira com o México e o nacionalismo que ameaça levá-lo a cercear o livre comércio nos Estados Unidos, sob o escabeche do "fair trade". É um nacionalismo anacrônico, caquético, comatoso e que só vai prejudicar os pagadores de tributos americanos.

Pela reação da plateia, parece que seu discurso agradou, como geralmente é de se esperar de apelos populistas. Porém, se levá-lo adiante o tiro sairá certamente pela culatra e os Estados Unidos vão se tornar mais ineficientes e seus cidadãos mais pobres.

Mr. Trump, quando um mercado é livre, ele também é justo e quando não é livre não tem como ser justo.

Que Deus abençoe a América.

 

 

 

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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