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23 Jan 2017

A VOLTA DE QUEM NÃO FOI

Escrito por 

Você consegue imaginar o que resultaria da cruza de um chinês com uma gaúcha? A da de um japonês com uma cearense? Não? E a de um americano com uma baiana?

 

Você consegue imaginar o que resultaria da cruza de um chinês com uma gaúcha? A da de um japonês com uma cearense? Não? E a de um americano com uma baiana?

Neste último caso, não é preciso fazer muita aeróbica dos neurônios. A resposta correta é Roberto Mangabeira Unger. Mas quem é ele?

Um brasileiro que foi morar nos EEUU e lá ficou muitos anos. Fala português, porque mamãe lhe ensinou, mas tem um sotaque engraçado por influência da língua de seu pai americano.

Embora esteja há anos radicado nos EEUU, de vez em quando ele faz uma visitinha ao país de sua mãe baiana. Não como turista, mas como participante de um cargo ou outro nos governos de Pindorama.

Sendo doutor em Direito ou Ciência Política - não estou certo – pela melhor universidade do mundo, Harvard, segundo o Times Higher Education, esse baiano-americano pensa que é o melhor Ph.D. do mundo.

Não é um desses pessimistas que pensa que o Brasil não tem jeito. Para ele, não só tem jeito como ele sabe muito bem qual.

E é justamente por isso que ele está de volta para dar sua humilde contribuição para os males do País, que não se limitam a pouca saúde e muita saúva, como dizia Oswald Andrade.

Bernardo Mello Franco escreveu um artigo de boas-vindas na Folha de S.Paulo (em 5/2/2015) intitulado justamente “A Volta do Que Não Foi”. Uma contradição em termos? É, mas para estar de acordo com as contradições do “filósofo” baiano-americano. Diz Bernardo: “A volta de Roberto Mangabeira Unger, com suas caretas enfezadas e seu sotaque de americano de novela, dá um toque de comédia a um ministério que já havia se anunciado como tragédia”.

E eu não estou sempre dizendo  para os estrangeiros: “O que dá pra rir dá pra chorar”?! Se vocês não acreditam nisso,  façam turismo no Brasil e visitem uma chopada na laje da Rocinha.

Trata-se de assumir a chefia da Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Como disse minha querida Maggie Thatcher, “nada mais estratégico do que a comida”. Mas como Roberto Mangabeira Unger certamente detesta a grande estadista britânica, para ele estratégico é o monopólio estatal do petróleo: a Petrobras.

Roberto, com seu ar de zangado de top model em desfile e com seu sotaque hilário, reassumirá uma secretaria que chefiou de 2007 a 2009.

Ainda não foi escolhido alguém para presidente da Petrobras, mas já foi para essa secretária essencial para a governança do País. Se tudo correr como o esperado, mesmo faltando água e luz no Palácio da Alvorada, Roberto tomará posse na quinta-feira em 5 de janeiro do Annus Mirabilis de 2015.

Acho que Bernardo Mello Franco pegou muito pesado ao asseverar que “Mangabeira é o símbolo da incoerência que mina a credibilidade da política brasileira”.

Mas se fosse feito um concurso de incoerência de homens públicos, Mangabeira seria um forte candidato a esse título.

No entanto, Bernardo apresenta suas razões para ter dito o que disse: “Em 2005, defendeu o impeachment de Lula”, atraindo para si o ódio dos petralhas. E ainda escreveu um artigo na Folha de S.Paulo em que disse o que eu e 10% dos eleitores teríamos assinado em baixo: “Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional”. Mas é importante frisar que ele disse isto antes de Dilmandona ter sido eleita e (des)governar o País.

Contudo, após ter feito tão contundente assertiva, um ano e três meses depois aceitou o convite de Lula para chefiar a Secretaria Especial de Assuntos de Longo Prazo.  Ora, como disse J.M. Keynes, “Em longo prazo estaremos todos mortos”.

Essa secretaria, um ninho de variados tipos de aspones, tinha a sigla SEALOPRA. Será que era o verbo se aloprar no modo do imperativo, ou seja “Se alopra!”. Será que era para formar aloprados?

Como sói ocorrer no Brasil, quando uma coisa não funciona ou desagrada à opinião pública, troca-se de nome. E foi justamente isso que aconteceu com a SEALOPRA que passou a se chamar Secretaria de Assuntos Estratégicos. E porque não também de Assuntos Aleatórios?

Antônio Conselheiro que se cuide, pois Roberto Conselheiro já aconselhou muitos políticos. Só para citar alguns:  Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Ciro Gomes, José Alencar et caterva.

E foi Conselheiro de gregos, troianos e soteropolitanos. Entre eles, dos seguintes  partidos:  PT, PMDB, PDT, PPS, PR, PRB, etc  – uma verdadeira sopinha de letrinhas.

Chegou mesmo a se propor como candidato a Presidente do Brasil por um desse partidecos de aluguel: o PHS (Partido dos Homens Sem Sal), mas sua candidatura só foi aceita por outro baiano dos mais festivos: Caetano Veloso.

Apesar de seus percalços, foi finalmente acolhido por um dos vices de Lula: o insosso, incolor e inodoro José Alencar, homem da mesma terra e da mesma cepa de Itamar Franco.

E se você acha que essa breve biografia política está muito ruim, leia o desfecho do mencionado artigo de Bernardo Mello Franco: “Na primeira passagem pela Esplanada, Mangabeira se notabilizou pelas ideias exóticas e sem resultado. Na mais memorável, propôs a construção de aquedutos que transportariam água da Amazônia para o sertão do Nordeste.”

“Numa região, sobra água, inutilmente. Na outra, falta água, calamitosamente, explicou”. E por que não, para estreitar os laços afrobrasileiros, uma ponte do Brasil a Angola?!

Diante de tanta patacoada, Bernardo conclui: “Quem temia a seca do Cantareira já pode tomar banho tranquilo”.

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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