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05 Dez 2016

CUSPIRAM NA NOSSA CARA DE NOVO

Escrito por 

Parece que esses indivíduos ainda não entenderam o recado que a população lhes passou nas inúmeras manifestações levadas às ruas do país. Ou estão se fazendo de bestas, não acreditando que elas perdurem.

 

Meus amigos, numa democracia representativa, como, se acredita, deveria ser o caso do Brasil, a população elege seus “representantes”, na expectativa (ou ilusão) de que esses eleitos estarão obstinadamente devotados a se empenharem na busca de solução dos problemas da coletividade que representam e no atendimento das necessidades daqueles que lhes conferiram as responsabilidades dos cargos que irão ocupar.

Particularmente no Brasil de hoje, essa “contratação” feita pela população ganha significado especial.

Na atual conjuntura, nesse país, aqueles que, desafortunadamente, por obra do destino (para os não crentes), vêm ao mundo em lares humildes, se verão, no futuro, na contingência de enfrentar vicissitudes de toda sorte, experimentar uma qualidade de vida, para si e para os integrantes da família que vierem a constituir, absolutamente contrastante com os anseios de qualquer ser vivente minimamente informado.

Esse universo de brasileiros, que, na verdade, constitui a inquestionável maioria da população, está fadado a uma rotina que se caracteriza por se ver obrigado a acordar muito cedo; deslocar-se por alguns quilômetros até o local mais próximo de acesso a transporte público, no qual será conduzido como sardinha em lata; outro deslocamento do destino até o local de trabalho, de onde sairá ao fim da tarde, para percorrer todo o trajeto de volta à sua residência, onde chegará no início da noite, para tomar banho, comer mal e dormir, sabedor de que, no dia seguinte, tudo se repetirá.

Não há alternativa, razão pela qual esse cidadão “contrata” alguns de seus semelhantes para, ocupando cargos de relevância no poder público, se empenharem em reverter esse quadro dramático e indesejável a que está submetido.

É indispensável que se destaque a expressão contratar.
É isso que ocorre. Seus representantes no poder público são, na verdade, seus empregados. São duplamente sustentados pelo cidadão comum a que me refiro nos parágrafos anteriores. Primeiro, porque seus quase indecentes salários são obtidos das contribuições daqueles que lhes permitiram ocupar os cargos. Segundo, porque as instituições nas quais ocupam esses cargos só podem existir porque dispõem de recursos orçamentários gerados pelos contratantes.

Outro aspecto que não pode ser esquecido é o de que aqueles que são contratados, pediram encarecidamente, imploraram para que o fossem. Buscaram de todas as formas convencer os contratantes de que se dedicariam integralmente a trabalhar por eles.

Chega a ser paradoxal que aquele cidadão comum que percebe um salário que pode não chegar a mil reais, tenha como empregados, concidadãos, escolhidos por ele, ocupando espaços na sociedade nos quais receberão, mensalmente, salários que correspondem a alguns anos do seu.

Por que isso ocorre? Porque se supõe que aquele que foi escolhido, que foi contratado, consciente do privilégio a que é guindado, da absurda discrepância entre a qualidade de vida da qual irá desfrutar, quando considerada a daqueles que os contrataram, por dever cívico, ético, moral, irá devotar toda a sua competência, sua energia, seu conhecimento, em suma o poder de que é investido, para minorar as agruras daqueles que imaginaram nele, interesse, compromisso, nesse desafio.

Não se pode perder de vista, também, que, hoje, nesse país, aquele que não possui habilidades, dom, para se tornar um atleta de futebol de destaque (ou mesmo de outro esporte), não tem pendor para se tornar um artista como cantor ou ator, terá pouquíssimas chances de deixar de experimentar a realidade já descrita, a não ser que possa estudar ou, então, que se arrisque na vida política.

A aventura numa inserção no ambiente político talvez seja uma das raras oportunidades de, não tendo as qualificações para despontar na carreira esportiva ou na vida artística, fugir às restrições que os desajustes e injustiças sociais tendem a impor, porque nessa aventura não há imposições, pré-requisitos, de natureza profissional, intelectual, acadêmica e, infelizmente, inclusive, moral.

No entanto, se esse privilegiado, que, por decisão dos seus empregadores (cidadãos comuns), galgou espaços públicos especiais, agraciado com salários polpudos, aos quais jamais faria jus nos espaços que poderia por si só alcançar em outros ambientes, se dedicasse única e exclusivamente a retribuir a confiança que lhe dedicaram seus eleitores, justificar-se-ia o modelo, uma vez que, no tempo, as agruras, vicissitudes, problemas, dificuldades daqueles que nele investiram seriam superadas.

O que se assiste, no entanto, é o mais absoluto, o mais abjeto desrespeito do contratado pelos que o contrataram.

Investidos nos cargos a que se candidataram, passam, na sua grande maioria, a unicamente terem como motivação se manterem nos espaços privilegiados que alcançaram.

Comportam-se como se estivessem absolutamente seguros de que a população é amorfa, idiota. Seu empenho primeiro é desfrutar o mais possível das benesses que os cargos ocupados possam lhes proporcionar, ao mesmo tempo em que se empenham obstinadamente em atuar de forma a assegurar sua reeleição.

Suas atitudes, seus atos parecem sinalizar que estão convencidos de que seus eleitores são tão ignorantes, tão desinformados, tão alheios à realidade em que estão inseridos, que, a despeito do que quer que façam, por mais nojento do ponto de vista ético que seja, irão reelegê-los por todo o sempre. Como não há aposentadoria compulsória para políticos, ficarão nos cargos até caírem de podres, por absoluta complacência daqueles que os elegeram.

No processo de impedimento da ex-presidente, desrespeitaram, na maior desfaçatez a Constituição Federal. Valeram-se de argumentos cínicos que expressaram exatamente o que aqui se põe: “fazemos o que nos for mais apropriado, damos as desculpas mais esfarrapadas e a população que se dane”.

Essa semana, assistimos, novamente, a mesma postura. Após uma farsa de aprovação inicial do Projeto que regularia o procedimento legal de repúdio à corrupção, valendo-se de momento dramático que comovia e concentrava a atenção do povo, em razão da tragédia que acometera cidadãos brasileiros e comovera o mundo inteiro, na calada da noite, desfiguraram a versão inicial, adotando emendas que achincalharam a nação.

Vai ficar assim?
Como contratantes desses maus empregados, vamos fingir que não percebemos seu comportamento em desacordo com o que foi estabelecido em contrato, ou vamos puni-los com demissão por justa causa?

Vamos permitir a continuidade da desfaçatez, do cinismo, do desrespeito, da afronta, do deboche?

Parece que esses indivíduos ainda não entenderam o recado que a população lhes passou nas inúmeras manifestações levadas às ruas do país. Ou estão se fazendo de bestas, não acreditando que elas perdurem.

É preciso que se lhes assegure que comportamentos tais não serão mais aceitos e mais: que serão expurgados da vida pública, que se verão na contingência, em breve, de voltarem a experimentar a realidade daqueles que lhes proporcionaram uma oportunidade de ouro, para fugir da vida sofrida que matiza a verdade do povo brasileiro.

Essa é a única linguagem que entendem.

Não se pode aceitar que continuem a cuspir nas nossas caras.

 

 

 

Última modificação em Sexta, 09 Dezembro 2016 13:04
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP.

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