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18 Nov 2016

A POLÍTICA DO MEDO

Escrito por 

 

 

 

Medo do que eles podem fazer, todos nós devemos ter, mas nosso medo sempre será menor do que o medo que eles tem de nossa vontade, que é a semente de nossa liberdade.

 

O medo é mais que algo ancestral, ele é permanente. Faz parte integrante de nossas vidas ao ponto de que quando dizemos “não ter medo” só estamos demonstrando que temos consciência de que ele existe, de que ele faz parte de nós ao ponto de que não seríamos quem somos sem ele. As tentativas de avanço como indivíduo, desde que damos os primeiros passos ainda bebês, quando caímos e depois choramos incluem esta sensação. Sua superação, temporária nos dá dimensão exata de que devemos respeitar, isto é, tomar cautela. E o que é isto senão saber lidar com o medo?

Pois bem, qual foi a grande sacada da humanidade? Trazer o medo para a política. Se um candidato diz que seu rival é incapaz, ou incompetente, que com ele terão mais chances de se desenvolver, o enfoque está menos em suas capacidades como gestor e representante do povo do que na incapacidade alheia. Sem prová-la, no entanto, a mera ameaça de um fracasso se baseia no medo. De modo bem menos sutil, uma turba que intimida seus rivais ideológicos, religiosos ou políticos com berros e palavras de ordem não está sendo diferente daqueles aldeões da idade média carregando suas tochas contra uma mulher indefesa, conhecida como ‘bruxa’. Também não diferem muito de símios e aparentados que se juntavam em torno de um predador para escorraçá-lo da carniça que lhes serviria como manjar.

Agora deixemos os séculos e milênios para trás e migremos em nossa máquina do tempo para o presente. Estamos em uma cidade, na maior parte sitiada em uma ilha, com uma estrutura moderna, porém com sérias lacunas em seus serviços públicos e setor privado. Só para lembrar, uma delas é o transporte público... Jovens estudantes, com a vida toda pela frente, como se diz, acordam às 6 da manhã (quando não, antes mesmo) para iniciar sua labuta diária perante aulas ministradas por uma equipe de excelência em seus mais variados cursos técnicos. Com enormes custos para as famílias que abriram mão de certo conforto para bancar os estudos dos filhos, além do deslocamento, o aluguel em cidades-dormitório, para quem está no interior, a 100, 200 ou 300km da capital parece perto. Tudo é relativo nesta vida, até mesmo o esforço que parece pouco para aqueles com garra e determinação. Mas, para outros, que não quiseram evoluir, preferem a companhia de seus amigos de questionável capacidade cognitiva, uma turba ignara que lhes parece mais promissora, confiável e segura. Em linguagem menos ofensiva, eu os chamaria de um agregado destituído do elemento coragem. E são exatamente estes que na manhã de sexta-feira, dia 11 de novembro de 2016 trancaram os portões do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) impedindo os jovens (na idade e no espírito) de entrar e continuar sua longa saga em busca do conhecimento. Prejudicaram pessoas que pagam caro por este esforço, seja nos aluguéis, seja no transporte por demais moroso, seja em tempo, fundamentalmente, que dispensam para isto tudo. Se eu perguntasse se o prejuízo causado a terceiros lhes causa algum remorso, eu sei que provavelmente me diriam que não, pois tudo foi “em nome de uma causa maior”. De ‘causa’ em “causa maior”, os indivíduos e seus direitos são tratados como ‘menores’, como algo em que a “justiça social” passa por cima como um rolo compressor, triturador da divergência e liberdade alheia.

O dia já amanhece quente e promete ser difícil para aqueles que veem seu direito e liberdade bloqueados por um cadeado, tão trancado quanto o cérebro daqueles que fecharam os portões. Nestas horas, a indignação toma conta de nós e a vontade é de se revoltar. Mesmo em bem menor número, aqueles que tiveram seu espírito e, senso de justiça ultrajados, rumam para frente do centro de ensino. Lá, no front armados com a ignorância e o obscurantismo, uma horda que só faltava carregar tochas para queimar alguém, uma vez que sua inteligência já haviam torrado completamente se arvora e, deliberadamente, procura o confronto. Porque não toleram o livre-arbítrio agem como uma manada de gnus fugindo de algo que ignoram, destroçando com seus cascos tudo que é vivo em sua frente. Ou como bem disse uma de suas ativistas, mais uma das que se deslocou da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), exclusivamente, para o ato insano “democracia, eu queimo”.

Uma coisa temos que reconhecer, ao dizer isto, ela deixou o medo de ser identificada como o pior tipo de gente para admitir o que pensa da pluralidade política e diversidade de opiniões: todas deveriam estar em imensa fogueira. Agora deem uma pausa no que estiverem fazendo e procurem em qualquer buscador na internet quem queimava livros como ameaça política, como política do medo porque tinha medo do que livros e opiniões fizessem com sua política e verão o mais acabado exemplo do que essa gente que toma atitudes a revelia do que os estudantes, professores e servidores decidem, irão se transformar um dia. Não se enganem, apesar do visual descolado e ar de quem não valoriza as aparências, o seu interior se aparenta muito àqueles que usavam bigodinhos abaixo dos narizes e suásticas nos braços.

Medo do que eles podem fazer, todos nós devemos ter, mas nosso medo sempre será menor do que o medo que eles tem de nossa vontade, que é a semente de nossa liberdade.

 

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*Na foto abaixo, um cadeado usado em Sobibor, Polônia em um dos inúmeros campos de concentração nazistas que foram construídos no país durante a II Guerra Mundial. Este foi aberto, mas e os que são fechados diariamente, em escolas ocupadas do Brasil?

(Imagem: scientificamerican.com)

 

 

 

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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