Seg10192020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

09 Fev 2005

Tsunamis e Tiranias

Escrito por 

A vida começa sempre como um milagre e termina inexoravelmente como tragédia.

A vida começa sempre como um milagre e termina inexoravelmente como tragédia. A sociedade pode até ser perene, mas seus atores são meteoros que participam apenas de um fragmento da História num pedaço muito pequeno do Grande Palco. As mais de 200 mil vítimas das tsunamis produziram muita perplexidade. Muitos se perguntaram onde estava Deus que permitiu que a natureza atuasse de forma tão cruel. Os que supõem que Deus dirige a Grande Máquina do Universo não conseguem entender como, sendo Ele onipresente e onipotente, nada fez para evitar que tanta gente perdesse a vida. O desenrolar cruento da História nos faz pensar que Deus criou este planeta e o entregou à administração humana. Se tivesse feito tudo como expressão da mais pura perfeição, tudo pronto e acabado, não haveria a possibilidade de o ser humano se lapidar, aprimorar a consciência de si e o respeito ao outro.

Que tipo de humanidade produziria um Deus que desse tudo de mão beijada às criaturas desde o instante primeiro da criação? Imaginem pais todo-poderosos que atendem a todas as vontades dos filhos, que têm o condão de protegê-los da mais trivial dor de barriga, que conseguem inocular-lhes saber e sabedoria por meio de afagos. Que tipo de identidade poderiam os filhos construir? A Criação, para que fosse pedagogicamente consistente, se limitou a oferecer as condições básicas à (re)produção da vida. Cabe ao homem, no decurso de sua história, construir um mundo segundo suas potencialidades físicas e intelectuais, tentar decifrar parcialmente os enigmas de sua existência e buscar formas cada vez mais sábias e justas de convivência. Um mundo sem dor e sem escassez, sem a possibilidade do erro e do pecado, não seria uma escola da alma. Seria um enfadonho jardim de delícias. A indefinida reprodução da perfeição, de uma perfeição que não foi forjada pelos que a usufruem, não permitiria ao homem se sentir partícipe da criação. E nem autor de sua história –triste e bela - poderia ser.

Diferentemente do que apregoa o ecologismo romântico, a natureza nunca foi o Paraíso que o saber instrumental da modernidade resolveu profanar. A natureza maravilhosa também é habitada por forças que representam ameaças à sobrevivência do homem. Os desastres naturais ocorrem desde tempos imemoriais. O respeito à natureza deve caminhar junto com a imperiosa necessidade de colocar sob controle suas forças cegas. Isto o homem tem conseguido com ciência e tecnologia. O grande desafio continua sendo o de criar mecanismos que protejam o ser humano dos ditadores que levam seus países a guerras e das tiranias que, a pretexto de darem realidade a utopias, promovem matanças. A história mostra que jamais duas democracias entraram em conflito bélico. Sobre as forças da natureza o homem não tem como exercer um perfeito controle. Poderia, no entanto, fazer muito mais para evitar que os despotismos, que ceifam muito mais vidas que as impiedosas tsunamis, fossem instaurados.

Quando vemos o presidente da Venezuela, que já atentou contra a democracia e se prepara para ser o clone de Fidel Castro, sendo ovacionado em Porto Alegre ficamos com a impressão de que o mundo está sujeito ao retorno do mesmo, que não se conseguiu aprender nada com os terríveis sofrimentos causados pelos totalitarismos no século XX. Talvez por ser notória a dificuldade da maioria dos homens de aprender com os erros, muitos clamam pela intervenção de Deus no mundo. É verdade também que se a maioria sente uma irrefreável compulsão a dar muito poder a aprendizes de tirano, a minoria, com medo de ser perseguida pelos neo-autoritarismos e neototalitarismos, pode se sentir compelida a pedir, sabendo que não terá a quem mais recorrer, socorro ao Todo-poderoso.

Há de fato um mecanismo perverso em ação no mundo: enquanto uns erram e pagam o preço por isso, outros, ungidos pelo apoio de ignaros e falsos intelectuais, são investidos de muito poder para cometer atentados contra a vida de minorias desarmadas. Ó Deus, Tu que tudo fizestes para que aprendêssemos com os erros, exercendo o livre-arbítrio, protege-nos ao menos contra os déspotas que matam mais que tsunamis e ainda procuram justificar o que fazem alegando que estão só tentando consertar o homem que o Senhor, por várias razões lógicas e muitos outras insondáveis, deixou em estado bruto, mas cheio de potencialidades, para que pudesse construir uma identidade numa história que os totalitários insistem que deve ter o curso redesenhado para provar que o materialismo está certo e que o Senhor não passa de uma ficção das classes dominantes para iludir o coitado do povo explorado.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:23
Alberto Oliva

Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia".

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.