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11 Nov 2016

DEU ZEBRA NAS ELEIÇÕES AMERICANAS

Escrito por 

 

 

 

Como eu disse em um artigo anterior a este, os eleitores americanos estavam diante de um dilema destrutivo em que era difícil apontar qual das duas opções era a pior: votar na Hilária ou no Pândego. Caindo no popular: Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega!

 

Como eu disse em um artigo anterior a este, os eleitores americanos estavam diante de um dilema destrutivo em que era difícil apontar qual das duas opções era a pior: votar na Hilária ou no Pândego. Caindo no popular: Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega!

Como o voto nos EEUU é facultativo, um direito do cidadão – diferentemente do Brasil em que ele é obrigatório, um dever imposto ao mesmo – o número de abstenções foi muito alto, principalmente em eleitores cativos da Hilária, enquanto os do Pândego compareceram às urnas em massa - mérito do marquetingue do candidato republicano, que conseguiu persuadir os eleitores a comparecer e a votar nele.

Não sei se totalização dos votos dos eleitores já foi concluída, mas as estimativas são que a Hilária ganhe com uma pequena margem. Quanto aos votos dos delegados dos colégios eleitorais, o Pândego - de agora em diante, Donald Trump - ultrapassou bastante a cota exigida e, por isto mesmo, foi eleito o 45.o Presidente dos Estados Unidos da América.

Neste, bem como em outros quesitos, as pesquisas eleitorais erraram grosseiramente,
Uma vez que apontavam para uma vitória folgada da Hilária, justamente onde ocorreu uma vitória folgada de Trump. E apontavam uma vitória magra de Trump, justamente onde ocorreu uma magra de Hilária.

Toda a grande mídia esquerdista americana- excetuando o Wall Street Journal, a National Review e a Fox News – fez propaganda intensiva para Hiiária, bem como os intelectuais e artistas  de Los Angeles e Nova Iorque, conhecidos antros da esquerda caviar.

No Brasil, no jornal Em Pauta, da Globo News, os jornalistas não conseguiam esconder sua predileção pelo Partido (Social)Democrata. Seus olhinhos brilhavam intensamente quando da simples menção do nome de Hillary (para mim: Hilária) e faziam cara azeda cada vez que o nome do Pândego (para mim: Trump) era pronunciado.

Será que eles sabem que tanto Hillary como Obama foram discípulos prediletos do comunista raivoso Saul Alinsy, que esccreveu um livro que ambos leram e releram: Rules for Radicals (Regras para Radicais)?!

Roberto Campos definia socialdemocrata como um “comunista envergonhado” e Friedrich Hayek, em O Caminho da Servidão, dizia que a socialdemocracia era a antessala do socialismo totalitário.

E justamente agora, com o Brexit, com Angela Merkel abrindo generosamente os braços para mais de um milhão de refugiados muçulmanos e seu partido perdendo as eleições por causa disto, com François Hollande mais perdido do que cego em noite de tiroteio; justamente nessa conjuntura, Obama fez os alicerces e Hilária quer construir uma socialdemocracia nos EEUU! God saves America!!!

Pode-se acusar Trump de isolacionismo, de protecionismo, de xenofobia, etc – não digo que isto seja procedente, mas ao menos conta com alguma plausibilidade – mas acusá-lo de alguma simpatia pela intervencionista, autoritária e decadente socialdemocracia europeia é totalmente desprovido de razoabilidade.

Socialdemocratas são José Serra, FHC e o PSDB e, sendo assim, não é de surpreender que Serra, rompendo o protocolo do Itamaraty, tivesse dito cobras e lagartos de Trump, antes de ele ser leito. Mas depois de ser, recuperado do porre ideológico, Serra adoçou seu discurso.

Acompanhei toda a campanha eleitoral americana. Quando ouvia um discurso da Hilária não acreditava em nada do que ela dizia. Quem mente desavergonhadamente uma vez, porque não mentiria mais uma e mais outra, ad infinitum?! Impossível não compará-la à mentirosa Dilma!

Mas quando ouvia o discurso de Trump, surpreendi três tipos de asserções: (1) absurdos impossíveis de serem postos em prática. Por exemplo: inspirado no caso do muro construído para separar Israel do Estado Terrorista Palestino,Trump dizia que construiria um muro para separar os EEUU do México, para evitar a entrada de milhões de imigrantes ilegais conduzidos pelos coyotes. E faria o México pagar a conta.

Essa é pra rir ou pra chorar?! Não há nenhuma dificuldade técnica nessa obra, mas sim a extensão de um muro talvez comparável  à Muralha da China construída  para deter as invasões dos bárbaros mongóis. Além disso, como obrigar o México a pagar? Lembremos que o México é uma nação soberana e, por isto mesmo, com todo o direito de se recusar a pagar!

(2) Asserções plausíveis, porém desastrosas. Sobretaxar produtos chineses, de modo proteger a indústria nacional. O protecionismo é uma rua de duas mãos. Se os EEUU fizessem isso, os chineses fariam uma retaliação prejudicando empresas americanas estabelecidas na China.

Cerca de 70% das empresas na China são americanas e europeias, que decidiram se estabelecer na terra de Confúcio porque lá o custo dos empregos é muito menor e os impostos muito mais baixos.

(3) Asserções plausíveis que causam espanto. Deportar e impedir a entrada de todos os imigrantes muçulmanos e deportar todos os ilegais no país. São duas coisas diferentes: deportar os imigrantes ilegais está de pleno acordo com a lei de imigração. Seria falso dizer que o governo Obama não a estivesse cumprindo, mas não seria falso dizer que o fazia a contragosto em pequena escala.

Outra coisa é deportar e impedir a entrada de imigrantes muçulmanos. Apesar dos empecilhos jurídicos e as dificuldades operacionais, essa é uma medida que todos os países da civilização ocidental – Israel incluído – deveriam tomar, porque o islamismo atenta contra o mundo judaico-cristão. Imigração de muçulmanos não é imigração propriamente dita, porém ocupação demográfica, de modo a conquistar uma hegemonia islâmica.

Quando repensei asserções do tipo (1), perguntei para mim mesmo: são coisas tão absurdas que qualquer espírito sóbrio não poderia levá-las a sério, mas se é assim, porque raios Trump estariam proferindo essas maluquices? Ora, ele só poderia estar “jogando para a plateia”.

De acordo com o psicólogo e linguista austríaco Karl Bühler, na linguagem humana há dois polos: o polo semântico e o polo expressivo. O primeiro se caracteriza pela expressão de conceitos e raciocínios. O segundo pela expressão de sentimentos, emoções e interjeições.

E é justamente por isso que podemos expressar a mesma mensagem (polo semântico) de maneiras completamente diferentes (polo expressivo). Por exemplo: “Como vai você?” [dito com ar amigável, dito de modo hostil, com uma pontada de sarcasmo, com consternação, etc.].

Os discursos de Hitler só expressavam trivialidades, coisas bombásticas, etc., do ponto de vista dos conceitos e raciocínios, mas do ponto de vista das sugestões, das motivações, do entusiasmo avassalador... Ele era capaz de mobilizar grandes massas, como de fato mobilizou.

Complementam esses dois tipos de polo de Bühler, os dois tipos de palavras do filósofo de Oxford Gilbert Ryle. Segundo ele, existem success-words (palavras-sucesso) e failure-words (palavras-fracasso). Mas o que são palavras-fracasso, para uma platéia específica, podem ser palavras –sucesso para outra platéia específica.

Desse modo, quando eu e todas as pessoas escolarizadas e com consciência política ouvimos Trump falar do “muro”, achamos que era uma besteira colossal. Mas quando a maioria dos americanos, milhões de WASPs (White American Anglosaxonic Protestant), ouviram a mesma coisa, eles nem sequer pensaram, uma vez que a coisa vinha ao encontro de suas aspirações.

Quando um político “fala para a platéia”, ele nunca diz o que ele pensa, mas sim o que ele pensa que a platéia quer ouvir. Suas palavras não pretendem expressar conceitos e raciocínios, mas sim buscar efeitos específicos na platéia. Por isso mesmo, elas têm que ser sempre success-words. Pronunciá-las é como espargir água-benta sobre os fiéis. O significado (polo semântico) pouca importância tem;

Trump não estava dando a mínima para os intelectuais, para os artistas, para os negros do Black Lives Matter e para a esquerda caviar de Nova Iorque e Los Angeles, porque estes eram convertidos, fiéis adeptos do Partido Social(Democrata) de Obama e de Hilária

Trump era um neófito na carreira política, um outsider, a voz dos que não eram ouvidos: pessoas brancas, de classe média baixa que, apesar de serem a maioria dos americanos, estavam depauperadas, sem empregos ou com subempregos,  totalmente descrentes dos membros do establishment, ao passo que Hilária era uma carreirista fria e representante do próprio establishment.

Os adversários de Trump viviam dizendo que ele tinha entrado em falência várias vezes, insinuando que ele era um mau administrador de seus próprios bens, mas o que eles não diziam é que Trump saiu do regime falimentar e se tornou mais rico ainda, e isto é o que caracteriza um empreendedor ousado, disposto a correr riscos e dotado de grande tenacidade.

Com a vitória de Trump, chegamos à conclusão de que ele  não precisava de bons marqueteiros, mas não que os desprezasse como desprezava a esquerda intelectual das universidades e da grande mídia americana, mas sim porque ele próprio era seu marqueteiro, um gênio do marquertingue político merecedor do Nobel, se houvesse um Nobel de marquetingue.

Não devemos nos esquecer que, além de megaempresário, o que lhe confere crédito na arte de administrar empresas, Trump era também um midiático famoso por seu reality show na TV, o que lhe confere crédito como comunicador social.

Foi nesta última faceta que ele soube identificar seu eleitorado e falar diretamente com seus eleitores, por meio de palavras, gestos e caretas, para conquistar seus corações e mentes. Mas tenho ainda uma pergunta que não quer se calar: Trump cumprirá tudo aquilo que prometeu? Ora, mesmo que assim deseje, nenhum político cumpre todas as suas promessas. Muitas não dependem somente de decisões suas. Reformulemos a pergunta: Ele cumprirá boa parte das promessas feitas?

Algumas, ele terá que cumprir, sob pena de cair em total  descrédito, como a mentirosa e desditosa Dilma.  Mas ainda que as cumpra, não serão como as expressões extravagantes e hiperbólicas do discurso para ganhar a eleição. Fiquei, portanto, aguardando ansiosamente o primeiro discurso do Presidente.

Era esperado que um candidato tão enxovalhado pela grande mídia, fizesse um discurso rancoroso, bombástico, com muitos gestos e caretas,etc Nada disso, quem assistiu pela TV o discurso de Trump percebeu um tom conciliador, tranquilo e não dizendo nada implausível e insensato. Ele parecia um político sueco! E isto só reforça nossa hipótese: o Trump da campanha era um, mas o Trump vencedor é outro. Aguardemos, pois, o segundo Trump...

 

 

 

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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