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28 Out 2016

DO QUE ELES TÊM MEDO?

Escrito por 

Não pretendo neste espaço abrir discussão sobre a legalidade do que ocorreu. Já se viu que há defensores do que foi decidido pelo juiz, ainda que de primeira instância, assim como há os que entendem que a ação não poderia ter sido autorizada.

 

Meus amigos, o Presidente do Senado, para usar uma expressão da minha adolescência, “armou um banzé”, porque a Polícia Federal, cumprindo mandato judicial, realizou operação de busca e apreensão em instalações do Senado Federal e prendeu alguns profissionais integrantes da Polícia Legislativa.

Segundo o que se viu na mídia, a operação pretendia colher informações que confirmariam ações desses policiais legislativos que extrapolariam a missão institucional do órgão ao qual pertencem.

Sob a alegação de que a operação feria o princípio de independência dos poderes da República, o Presidente do Senado se referiu ao Juiz que determinara a execução da operação e ao Ministro da Justiça que se manifestou endossando-a, de forma propositalmente grosseira, visando desqualificá-los publicamente.

A justificativa do Presidente do Senado para as atividades que estariam sendo alvo de questionamentos e que haviam sido realizadas pelos policiais legislativos, foi de que o que se pretendeu (e ficou claro que essas atividades são corriqueiras naquela instituição) foi preservar a inviolabilidade dos contatos dos senadores, a sua intimidade, enquanto homens públicos, seja enquanto presentes nas instalações do Senado, ou mesmo quando presentes em espaços particulares, fora daquela Casa.

Não pretendo neste espaço abrir discussão sobre a legalidade do que ocorreu.
Já se viu que há defensores do que foi decidido pelo juiz, ainda que de primeira instância, assim como há os que entendem que a ação não poderia ter sido autorizada.

Fica claro, em cada argumentação, o esforço de defender posições que vão muito além da legalidade específica do fato ocorrido.

O que eu gostaria de submeter à reflexão dos que nos honram com suas visitas a esse espaço diz respeito ao que será que se possa estar tratando nos contatos realizados pelos senadores com seus interlocutores, seja nos espaços de seus gabinetes, seja em suas residências, ou mesmo em outros espaços particulares que frequentem, que não possa ser do conhecimento da população, por colocá-los em situação desconfortável, prejudiquem suas posições, interfiram negativamente em suas imagens.

É claro que, pessoalmente, não gostaria de saber que minha vida pessoal possa estar sendo bisbilhotada por quem quer que seja. Imagino que os amigos também pensem assim.

No entanto, fico me perguntando, caso eu fosse “grampeado”, o que poderia se tornar público.

Ah! Alguém ficaria sabendo de ligação de minha esposa, por exemplo, informando que se atrasaria, no cabelereiro.
Talvez uma ligação de minha filha longe de casa, pedindo que fechássemos as janelas de sua casa, vizinha à minha, tendo em vista a aproximação de temporal.
Meu filho contando as mais recentes proezas das minhas netas.
Com certeza, uma infinidade das malditas ligações que nos atormentam diariamente, oferecendo serviços de toda sorte.
Imagino que o mesmo se daria com o amigo que nos lê.

Ora, cabe então que se pergunte: por que a apreensão de que se saiba o que acontece na intimidade dos gabinetes, das residências desses senhores?

Minha inclinação seria a de considerar que, tendo se oferecido vorazmente (gastam fábulas de dinheiro para conseguirem se eleger), para ocupar tais espaços públicos e passarem a ser sustentados pela população que lhes atribuiu a responsabilidade de trabalhar exaustivamente, determinadamente, incansavelmente, obstinadamente, para atender as suas necessidades, para encontrar as melhores soluções para seus problemas, esses senadores deveriam ser os primeiros a desejarem que se desse a maior visibilidade possível a tudo o que fazem e conversam nos seus espaços, púbicos ou não.

Desejariam que todos os que neles votaram e, com isso, lhes asseguraram prestígio e uma situação financeira, absurdamente dispare, quando considerada a daqueles que os elegeram, pudessem constatar o imenso grau de dedicação com que se envolvem nas suas tarefas profissionais; pudessem constatar que só tratam de assuntos referentes aos seus compromissos.

Fico, por isso, me perguntando:
- O que será que acontece nesses gabinetes que não pode ser de conhecimento público?
- Será que esses espaços são utilizados para articulações menos nobres, daí a imperiosa necessidade de blindagem desses espaços, da inviolabilidade absoluta do que neles é tratado?
- Será que por isso se justifica a fúria do Presidente do Senado, ainda que amparada na tese do desrespeito à independência dos poderes?

Admitidas essas hipóteses, que reajo em aceitar como plausíveis, talvez se justificassem as sequentes iniciativas daquela autoridade, que sugerem ameaças de retaliação contra os que pretenderam desejar perscrutar a intimidade de atividades internas do Senado, assim como seus propósitos.

Última modificação em Terça, 01 Novembro 2016 14:18
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP.

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