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04 Fev 2005

O Bestialógico Presidencial

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Muito se tem escrito sobre o que chamam na mídia, delicada e respeitosamente, de gafes do presidente. Tal delicadeza se deve naturalmente ao fato de que ele ocupa o cargo mais alto da República, o que se por um lado induz à bajulação que o poder desperta, por outro, contém o temor de enfrentar esferas mais altas.

Muito se tem escrito sobre o que chamam na mídia, delicada e respeitosamente, de gafes do presidente. Tal delicadeza se deve naturalmente ao fato de que ele ocupa o cargo mais alto da República, o que se por um lado induz à bajulação que o poder desperta, por outro, contém o temor de enfrentar esferas mais altas. Claro que existe também a questão da autocensura praticada na imprensa por várias razões. Mas imagine-se o que aconteceria se um prefeito do interior falasse a metade do bestialógico do presidente. Naturalmente seria crucificado por seus oponentes locais. Aliás, existe uma série de piadas ou estórias reais sobre políticos que não dominam minimamente a linguagem ou fazem confusões de idéias.

Conta-se, por exemplo, a estória do prefeito que, tendo sido prevenido para não se arriscar a falar de improviso, lia tudo que punham no discurso cuidadosamente preparado para ele. Certa vez disse com entonação e entusiasmo de orador: “senhores e senhoras, bom dia, boa tarde, boa noite, conforme a ocasião e eteque, e eteque, e eteque”.

Há também a versão de um daqueles tiranetes latino-americanos que, ornamentado com o cargo de presidente depois de um golpe, certa vez levantou-se para discursar e disse: “eu penso...” Foi intensamente aplaudido.

Quanto ao presidente Luiz Inácio, na sua espontaneidade ensaiada de homem comum, associada a erros de português, às parábolas futebolísticas, aos gracejos de cunho populista, aos dados inventados, às frases sem nexo que desfere quando se empolga e larga o discurso, conduz conscientemente a retórica na busca de identificação com a maioria dos brasileiros, ou seja, com os mais pobres para os quais sempre dirigiu seu discurso nos tempos de radical de esquerda. Se os projetos sociais do governo até agora ficaram apenas nos lançamentos espetaculares é preciso convencer pela palavra e pela propaganda o que falha na ação. Mais que os pobres, porém, Sua Excelência impressiona as classes médias sempre piegas, que se comovem com esse pai amantíssimo e preocupado com seus filhos desvalidos. E classe alta se deslumbra mais ainda, e se encanta porque não poderia deixar de aplaudir o “carisma” do presidente que tantos e altos lucros lhe dá.

Naturalmente o presidente Luiz Inácio fala sobre o que o povo gosta e entende, como futebol. O presidente Médici, que nada tinha de populista, gostava de ir ao Maracanã onde ficava ouvindo a partida num radinho de pilha. Tinha um ar sério, de certo modo carrancudo, não fazia gracejos, entretanto, foi o mais popular dos generais do governo militar por conta das partidas no Maracanã. O presidente Luiz Inácio sabe disso e Duda Mendonça, também.

Alem do mais, sempre em campanha desde que tomou posse, tendo tido antes um longo treinamento em três campanhas presidências, sem falar na sua tarimba de anos de porta de fábrica, o presidente sabe, e Duda Mendonça também, que o povo gosta de oposição. Sua Excelência, então, não podendo ir contra seu próprio governo, usa duas estratégias infalíveis: fala como se fosse separado do governo e bate continuamente no presidente anterior de tal modo que parece que este ainda está governando sendo, portanto, culpado de tudo de mau que acontece. Desse modo, o presidente Luiz Inácio não assume nenhuma responsabilidade, nenhuma culpa pelos impostos abusivos, pelas taxas escorchantes, pelo fracasso até agora dos projetos sociais do seu governo. Ele paira acima do comum dos mortais, é um bom companheiro cheio de auto-estima porque só é pessimista quem quer, é um humilde operário voando em seu avião de R$ 150 mi de reais e, sem dúvida, executa bem o que Hitler sabia e Duda Mendonça também sabe, ou seja, que o discurso de um líder deve ser compreendido desde o homem mais culto até aquele menos instruído.

Entretanto, é significativo que o presidente tenha deixado os braços do povo e discurse quase sempre em auditórios fechados onde se encontra uma platéia selecionada. Como no último Fórum Social de Porto Alegre onde toda uma estratégia foi concebida para se evitar que vaias ultrapassassem as palmas dos militantes petistas, há sempre uma claque preparada para aplaudir o bestialógico presidencial. Alguém poderá me contestar com as pesquisas de opinião sempre favoráveis ao presidente. Claro que pesquisas usam métodos científicos, mas depois da portaria que visa censurar até o IBGE, fica difícil acreditar em certos resultados de pesquisas de opinião. De todo modo, se nosso povo gosta da fala presidencial porque é seu reflexo, levaremos um tempo imprevisível para progredir. Como dizia Nélson Rodrigues, “subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:23
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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