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04 Fev 2005

Ações Inócuas

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O Estado brasileiro, em várias instâncias, tem empreendido amiúde ações revestidas da mais absoluta inocuidade, consumindo recursos humanos, financeiros e energia, sem qualquer resultado prático.

O Estado brasileiro, em várias instâncias, tem empreendido amiúde ações revestidas da mais absoluta inocuidade, consumindo recursos humanos, financeiros e energia, sem qualquer resultado prático.

Há vários exemplos destas atitudes vazias, como a recente decisão da justiça de reduzir em dez anos a pena de 124 anos imposta ao pediatra Eugênio Chipkevich, condenado por pedofilia; uma inutilidade que envolveu juízes, advogados, promotores e toda a máquina do judiciário, como se 114 ou 124 anos fizessem alguma diferença; e não fazem, porque ninguém pode ficar preso por mais de trinta anos no Brasil.

Na mesma linha, vem o CADE e multa a VASP, falida, em setecentos e tantos milhões de reais, incobráveis, quando há imensas dívidas de impostos, trabalhistas e de fornecedores na frente.

A reforma do ensino superior, que não é prioritária - pois muito mais urgente é a melhora e  a ampliação do ensino básico - vem lançar uma tremenda confusão no meio acadêmico, sumaria e veementemente rejeitada por todos que não o ministro Tarso Genro, que em artigo no jornal O Estado de S. Paulo, foi incapaz de se pautar pela clareza, parecia estar falando sânscrito, ou melhor, esperanto.

A proibição, melhor dizendo, a censura ao IBGE também só serviu para gerar uma tremenda onda de protestos, inclusive de servidores do próprio instituto, deixando o governo, que vem sendo condenado pela opinião pública por suas várias iniciativas no sentido de restringir a liberdade de informação – e informação é exatamente o produto do respeitado IBGE – numa situação ainda mais desconfortável, muito embora estes pretensos algozes da liberdade de expressão não pareçam sentir-se lá muito constrangidos com isto, pelo contrário.

Faz parte das inutilidades que atrasam o país, que emperram as coisas, mais não seja pelo mau exemplo da falta de ética e cortesia nas declarações, os freqüentes arroubos verbais como este último do deputado Luiz Carlos Silva, mais conhecido pelo apelido de professor Luizinho; que insulta o Ministério Público, porque este, numa ação igualmente inútil, porque vai dar em nada, resolveu ressuscitar o caso Lubeca, que envolve o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, que deseja avidamente eleger-se presidente da Câmara. Não admitem o contraditório, não contemplam alternativas. Trazer o caso à tona realmente não é uma medida prática, pois todos os envolvidos foram acometidos de um surto de amnésia; a tal fita que não está no processo cita uma viagem a Angra, com o poderoso ministro Gushiken, que diz não se recordar da ida àquela cidade, muito menos do objetivo de tal deslocamento, ocorrido há coisa de quinze anos.

E já que se fala de Greenhalgh, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que pertence à doce oposição, fez um trato, uma barganha – e não se imaginava que um político tido como tão sério fosse afeito a estas negociações; também inúteis para a sociedade, mas não para os seus patrocinadores – , dando seu apoio a Greenhalgh agora, em troca da recíproca, quando for a ocasião das eleições na Assembléia Legislativa do Estado.

Nosso caríssimo presidente da república retoma as inutilidades verbais, voltando a falar do passado, de heranças, lançando mão de metáforas já manjadíssimas, por falta de coisa melhor para dizer, esquecendo-se que o respeitável público certamente já sabe de cor e salteado todo o seu repertório de frases feitas e lugares-comuns.

Não por último, porque haveria muitas outras inutilidades a enumerar aqui, mas para encerrar o artigo, cujo espaço é limitado, cabe dizer que talvez a campeã das inocuidades seja a teimosia em levar adiante a estupidez da transposição do rio São Francisco, obra megalômana, dispensável e rejeitada pela maioria da população e pelos ecologistas; vejamos se o IBAMA de dona Marina Silva irá ser rigoroso como de costume no quesito Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), ou se concederá a permissão de pronto, posto que seu chefe quer o início das obras para Abril. Urgência urgentíssima, a obra faraônica coloca de lado outras necessidades básicas, como a manutenção e ampliação de nossa infra-estrutura, de há muito largada ao Deus-dará.

É de dimensões amazônicas o desperdício de tempo e recursos, não só pelas inutilidades aqui citadas, mas também pela  inacreditável capacidade governamental de inverter prioridades.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:23
Luiz Leitão

Luiz Leitão da Cunha é administrador e consultor de investimentos, sendo articulista e colunista internacional, especialmente para países lusófonos. É colaborador do Jornal de Brasília, Folha do Tocantisn, Jornal da Amazônia, Diário de Cuiabá, Publico (Portugal), entre outros.

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