Seg10192020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

03 Fev 2005

O Erro de Kanitz

Escrito por 

Em geral, gosto dos textos de Stephen Kanitz publicados na revista Veja. Nem sempre estamos de acordo, não obstante.

Em geral, gosto dos textos de Stephen Kanitz publicados na revista Veja. Nem sempre estamos de acordo, não obstante. No ano passado, por exemplo, fiz-lhe uma crítica à sua teoria da inflação, muito centrada numa concepção contabilista do fenômeno, que ele me dignou com uma tréplica. Continuamos pensando de forma diferente sobre o tema e o debate se encerrou por aí.

Na revista que chegou às bancas no último final de semana Kanitz excursiona pela área da psicologia social e coloca nos ombros da Inquisição parte considerável da responsabilidade pela nossa forma de ser, mesmo contrariando a opinião de alguns profissionais ouvidos por ele mesmo, das áreas pertinentes de psicologia e sociologia. Preferiu seguir sua própria intuição, manifestando um engano que me parece ser extensivo a uma parcela considerável da intelectualidade brasileira. Essas pessoas atribuem quase tudo que há de errado com os brasileiros, de traços de personalidade a vícios públicos e privados, ao fim e ao cabo, àquele organismo da Igreja Católica. Ou seja, seria nossa herança católica que nos denigre e deforma, com o que não posso concordar, em homenagem à verdade dos fatos.

Tomemos o seu artigo como exemplo. O fato de sermos “cordiais” é mais uma tese proposta por Sérgio Buarque de Holanda que ainda precisaria ser comprovada. Não pode ser tomada como verdade axiomática. A violenta sociedade brasileira, em todos os tempos, conspicuamente na atualidade, nunca endossou esse ponto de vista. A realidade nega a teoria. Formas de falar que tentam suavizar as expressões diretas são um jeito de ser legítimo, uma peculiaridade nacional, o que não nos torna nem melhores e nem piores. Apenas, enquanto brasileiros, somos assim.

Kanitz deveria buscar na nossa história recente os determinantes de alguns cacoetes óbvios, como os do PSDB, citados por ele, de ficar sempre em cima do muro. Ora, boa parte dos quadros do PSDB originou-se da militância nas agremiações de esquerda, com forte influência do Partido Comunista (PCB), notoriamente de linha leninista. Todo mundo sabe que a discordância dos dirigentes nesse meio poderia significar a desgraça e, em alguns períodos históricos, a eliminação física. Mesmo não militantes, como o cantor Wilson Simonal, poderiam ser alvos de difamação implacável se assim fosse o desejo do poderoso do dia, a ponto de inviabilizar sua vida pessoal. Então esse medo, que corretamente Kanitz observa nos militantes políticos em geral, deriva não da Inquisição – já morta nas dobras do tempo e tão fraca em nosso meio –  mas é oriundo dessa militância perigosíssima, que mais temia os chefes tiranos do partido do que mesmo as forças da ordem que lhe davam combate.

Na mesma senda, a implantação do método gramsciano de domínio dos aparelhos de Estado e dos meios culturais gerou uma casta de intelectuais infiltrados que praticaram e praticam intencionalmente o duplo pensar, pregando mentiras contra a sua própria consciência, manifestando opiniões confusas e contrárias ao senso comum, buscando por todos os meios minar a ordem moral da sociedade e, em última análise, a nossa formação judaico-cristã.

A Inquisição aqui tem outra origem e outro propósito: era (é) a caça aos que não atendiam à voz de comando do “centralismo democrático” dos comunistas e a prática continuada da dissimulação dos intelectuais que se tornaram voluntariamente mentirosos profissionais. O Tribunal do Santo Ofício aqui teve seus manuais nos livros O Capital e Os Cadernos do Cárcere. A operação desses mal intencionados foi tão bem sucedida que até homens de inteligência excepcional, como Kanitz, passaram a usar a mesma linguagem e a fazer a mesma falsa pregação de forma voluntária e inconsciente. Poderíamos aqui repetir o Cristo: “Pai, perdoa, eles não sabem o que fazem”.

Kanitz atribui à Constituição vigente um múltiplo caráter, por força desse suposto traço coletivo de personalidade. Seria ela de esquerda, de direita e liberal (sic) ao mesmo tempo. Nada mais falso. Essa Constituição nada tem de liberal e muito menos é de direita: é, toda ela, uma promessa populista de esquerda, um ataque à propriedade privada, um negar dos valores liberais, um eixo jurídico que tornou sacrossanto o assalto aos cofres públicos, as “conquistas” dos aproveitadores de sempre, os falsos direitos adquiridos que impedem objetivamente o alcance do equilíbrio fiscal do Estado. O mal da Previdência Social tem nesse monstrengo jurídico o seu pilar de sustentação, que jogará o País, mais dia, menos dia, no caos inflacionário, inviabilizando a normalidade econômica.

O autor encerra o artigo citando um diálogo em Portugal, com um empregado do hotel em que se hospedara. Atribui ao pobre português a fato de ser vítima tardia da Inquisição, quando na verdade ficou patente apenas a existência de duas formas de falar coloquial. A pergunta formulada por Kanitz  estava perfeita para um brasileiro, que percebe facilmente o que está implícito: “A que horas escurece por aqui?” Ora, implícito estava que se tratava da luz solar. Kanitz, a um estrangeiro, deveria ter perguntado: “A que horas o Sol se põe?”, que teria uma resposta direta. O pobre homem respondeu corretamente à pergunta, ao dizer que lá não escurecia porque havia luz elétrica. Uma piada de brasileiro e não de português, como se vê, ao contrário do que pensa o articulista.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:23
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.