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12 Set 2016

SOLENIDADE DE ABERTURA DOS JOGOS PARALÍMPICOS - REFLEXÕES

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No Brasil, temos experimentado, particularmente nos últimos duzentos anos, meias soluções: uma independência que não independenciou; uma abolição que não aboliu; uma república que não republicou; uma revolução que não revolucionou.

 

Meus amigos, não acredito que alguém que tenha assistido a solenidade de abertura do Jogos Paralímpicos Rio 2016 possa não ter se emocionado, tendo, mesmo, ido às lágrimas.

Evento de tal relevância não deve deixar de nos levar a reflexões mais profundas a respeito do significado da vida, seja em um contexto mais amplo, seja no que concerne à realidade em que o ser humano vive no mundo hoje, particularmente no nosso país.

Antes de qualquer análise, caberia perguntar, tentar entender, porque os canais abertos de televisão não realizaram a cobertura do evento, praticamente impedindo que a maioria da população brasileira, pudesse experimentar os momentos de deslumbramento, beleza e, especialmente, de respeito, fraternidade, compreensão e tolerância com as desigualdades de toda sorte.

As Redes, que na sua programação não perdem oportunidade de pregar a necessidade de aceitação e convivência com as desigualdades, decidiram desperdiçar oportunidade única de materializar seu discurso?

Obrigaram seus expectadores a se circunscreverem a assistir sua programação diária? Por que? Falta de patrocinadores?

Seria válido concluir que não há empresas que admitam que humanos que experimentam qualquer tipo de deficiência não são consumidores de seus produtos? Muito triste.

Outro aspecto que merece consideração é a constatação de como hoje, todos nós tendemos a ser egoístas ou egocêntricos, mesquinhos mesmo, nos permitindo indignar, encolerizar por vezes, diante de qualquer, dificuldade encontrada; incapacidade de ver atendidas as mais insignificantes necessidades, desejos.

Assistir aqueles atletas experimentando as mais diversas formas de limitação física, sorrindo, felizes, como se nos dissessem que essas dificuldades se restringem aos limites físicos, não os afetando na dimensão psicológica, deveria nos levar a pensar em até que ponto, cada um de nós é pequeno, se os tomarmos como referência.

A reflexão consequente e imediata, para que não permitamos que essa constatação se encerre com a emoção do momento e o fim da solenidade, seria que nos perguntemos:

“E aí, como vou me empenhar para crescer como pessoa? No que tenho errado? O que fazer para promover uma autotransformação para melhor?

Cabe, ainda que nos perguntemos por que o senhor Nuzman, no transcurso de sua fala fez menção a um agradecimento aos governos federal, estadual e municipal, se qualquer cidadão brasileiro, por menos informado que fosse, saberia que essa referência deflagraria uma estrepitosa manifestação de reprovação.

Por que, após a citação o senhor Nuzman permaneceu calado por cerca de minutos, permitindo que o mundo se desse conta da incapacidade dos brasileiros de se comportarem de forma educada no transcurso de evento de dimensão internacional, deixando para “lavar a roupa suja em casa”?

Por que não atropelou a manifestação, prosseguindo com sua fala e, com isso, tendendo a encurtá-la?

Não sabia o senhor Nuzman que a mídia, em todas as suas reportagens subsequentes, coerente com sua prática contumaz de dar o maior destaque possível a tudo que é negativo na realidade da nossa sociedade, ao invés de dar visibilidade aos aspectos lindos e de admirável sensibilidade do evento, se refastelaria na exploração desse momento triste da solenidade?

Por que fez isso? Não é um adolescente inexperiente, desinformado da realidade do país.

Terá imaginado mais importante, para ele, com a citação agradecimento, obter algum benefício pessoal?

Terá sido proposital, essa incrível manifestação de inocência?

Por fim, não há como se deixar de registrar que, por mais desagradável que tenha sido, para qualquer brasileiro, saber que o mundo, pela segunda vez em menos de um mês, se deu conta da falta de educação, de urbanidade do nosso povo, do despreparo para tomar parte de eventos públicos esportivos, que, em tese, devem ser matizados pela polidez, pelo cavalheirismo, tenhamos que nos lembrar que essa demonstração de incapacidade de conviver com o diferente, exatamente em um evento que buscava exaltar a tolerância, a convivência com as diferenças, se deveu à inconformidade, à indignação, à insatisfação generalizada da população brasileira com aqueles indivíduos que receberam, dessa população, delegação para, em seu nome, se dedicarem totalmente à busca da satisfação de suas necessidade, à solução de seus problemas, à superação de suas dificuldades.

Indivíduos que, nojentamente, inescrupulosamente, levianamente, irresponsavelmente, utilizam seus cargos para se locupletarem, ainda que, para isso, necessitem cometer irregularidades, ou mesmo crimes.

Indivíduos que não demonstram o mínimo pejo, para deixar claro àqueles que os sustentam (lhes pagam salários e mantêm os órgãos nos quais ocupam seus cargos) inquestionável desrespeito, ao, escancaradamente, adotar posturas e tomar decisões na contramão do anseio da população.

O triste é que a maioria esmagadora de nossa população é desinformada, carece de referências, está susceptível a todo tipo de manipulação e, com isso, a par de manifestações carnavalescas episódicas, não deverá reagir da forma contundente que poderia reverter esse estado de coisas.

O pior é que essa corja sabe disso. Daí, não se sentirem pressionados, ameaçados de perderem suas regalias.

Se analisarmos as realidades das nações que hoje ocupam posições de maior relevância no cenário mundial, veremos que todas elas, nos últimos cem, duzentos anos, experimentaram terríveis guerras externas e/ou intestinas; assistiram gerações e gerações dos seus serem dizimadas. Parece que o sofrimento, a dor, os mostrou caminhos novos, os levou a compreender os direitos e os deveres que cada cidadão e toda a sociedade deve conhecer e respeitar, para o bem de todos.

No Brasil, temos experimentado, particularmente nos últimos duzentos anos, meias soluções: uma independência que não independenciou; uma abolição que não aboliu; uma república que não republicou; uma revolução que não revolucionou.

Queira Deus que não tenhamos que experimentar o caos social, para que aprendamos o caminho certo.

 

 

 

Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP.

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