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18 Jan 2005

Dogmas Científicos

Escrito por 

A revista Galileu tem se empenhado em divulgar conhecimento científico através de simplificações grosseiras. E, como está na moda, de tabela, estabelecer uma crítica a religião. Além de ser estranho que isto só valha para o Cristianismo (não me lembro de nenhuma crítica explícita ao Islamismo ou ao Hinduísmo, por exemplo), o modo como fazem defender a ciência é, no mínimo, dogmático.

... the life of religion as a whole is mankind’s most important function.
- William James
The essence of education is that it be religious.
- Alfred North Whitehead
We need the courage as well as the inclination to consult, and profit from, the “wisdom traditions of mankind.”
- E. F. Schumacher
In 1970 I wrote of a “post-traditional world.” Today I believe that only living traditions make it possible to have a world at all.
- Robert N. Bellah

 

(The World’s Religions. Huston Smith.)

 

 

A revista Galileu tem se empenhado em divulgar conhecimento científico através de simplificações grosseiras. E, como está na moda, de tabela, estabelecer uma crítica a religião. Além de ser estranho que isto só valha para o Cristianismo (não me lembro de nenhuma crítica explícita ao Islamismo ou ao Hinduísmo, por exemplo), o modo como fazem defender a ciência é, no mínimo, dogmático.
A revista Galileu traz uma entrevista com Kurt Gottfried, físico militante da União dos Cientistas Preocupados (UCS) já comentada por Olavo de Carvalho. Como bem notado em seu artigo, o que pode haver de científico numa organização que se posiciona contra a admissão a priori de militares nas escolas? Ou, esta é a melhor, a Coréia do Norte não estava construindo artefatos nucleares? Talvez, o “excesso de ciência” explique esta curiosa tomada de decisão: “não estava construindo” por que, provavelmente, já os tinha concluído.
Na verdade, a UCS não passa de mais uma agremiação de marxistas e socialistas reciclados.[1] E, cá entre nós, o que pode haver de “científico” no marxismo? Na maioria dos casos, quando “cientistas” tomam certas posições sociais, muitas vezes se deixam atrair pelo canto da sereia da aparente cientificidade do marxismo. Isto já foi mais forte, mas ainda é uma tendência majoritária nos meios acadêmicos de “ciências sociais” brasileiras e de países pobres em geral. A pobreza é, antes de tudo, intelectual.
Como nos ensinou Karl Popper[2], o marxismo é uma forma de historicismo. As ciências sociais, diferentemente da economia e mesmo da psicologia que tem um relativo sucesso procuram distinguir-se da Física em seus métodos. O que parece uma prova de corporativismo acadêmico é também um meio de autodefesa, para ocultar a própria incapacidade de se fazer ciência de verdade. Os modelos historicistas procurariam sempre endossar uma certa previsibilidade dos acontecimentos sociais baseados em “leis históricas”, mas que, paradoxalmente, não poderiam se repetir de uma realidade social à outra. O elemento “novidade” portanto, isentaria as ciências sociais de qualquer compromisso com relação às causas e seus efeitos.
Segundo a revista Galileu, as críticas do cientista minaram o projeto científico Guerra nas Estrelas de Ronald Reagan. Além de ser muita pretensão que um cientista consiga barrar um projeto de Estado naquele país, há uma peça que simplesmente não se encaixa neste quebra-cabeças retórico: se o programa militar era “cientificamente” bizarro por que lutar contra o mesmo? Se não dava certo, não era preciso se esforçar muito para impedi-lo sem que o próprio não conseguisse se concretizar.
Há um outro elemento interessante e desconhecido da crítica tupiniquim: nos EUA, um cientista é, antes de tudo, um trabalhador. Julían Marías, filósofo espanhol, que esteve no país nos anos 60 escreveu um belíssimo livro contando sua experiência.[3] Trata-se do país, com maior número de cientistas e prêmios Nobel do mundo, no entanto, lá esta espécie de profissional não tem o impacto e badalação na sociedade como na Europa. Dessa forma, a sociedade americana é menos afeita a modismos como do outro lado do Atlântico e, devido ao grau de humildade a que são forçosamente submetidos, há um maior debate e divergência internos à própria Academia. Até mesmo uma bizarrice intelectual como Noam Chomsky tem seu espaço.
Quanto a Chomsky, relativizemos: se a prostituição é permitida, por que não a intelectual?
A incompreensão da sociedade americana tem a ver, necessariamente, com o culto a personalidade que fazemos dos cientistas no Brasil e, até mesmo na Europa. Pouco se entende do que fazem, mas o que importa parece ser cultuar, estabelecendo uma verdadeira idolatria. Quantas pessoas não conhecemos que compraram o best-seller de Stephen Hawking, O Universo Numa Casca de Noz e disseram ter “achado tudo muito simples”? Realmente, devemos ter “físicos amadores” melhor qualificados que Hawking, pois o mesmo acaba de descartar parte substancial de sua teoria. Embora, a teoria corresponda à fase anterior ao livro em si, ela ajudou a formata-lo.
A Galileu critica também a administração Bush por incentivar a abstinência sexual. Mas, não há nada e anticientífico nisto. Sua eficácia pode ser debatida, mas não o caráter científico. A questão que se põe aí é cultural, afinal vivemos em uma época não só de promiscuidade, mas de apologia a esta – basta ver como a Globo ou a MTV banalizam a sexualidade... Trata-se, isto sim, de uma política que questiona a decadência moral e é interessante nos questionarmos para onde vamos com a perda de nossos valores.
Para o articulista da Galileu, o negócio é retratar tudo que fizeram os EUA como anticientífico. Até a estratégia internacional: Gottfried – físico da UCS entrevistado pela Galileu – reclama que houve superestimação do poderio soviético durante a Guerra Fria. Mas, já que é para ser “científico” seria bom que dissesse também que se os americanos não tivessem se empenhado nesta competição armamentista, não teriam ganhado a mesma. É como se o alto comando das forças armadas daquele país não soubessem nada do que faziam.
O fato de muita gente nos EUA não ligar para a ciência quer dizer exatamente o quê? Que a Ciência não é levada em consideração? Ora, não sejamos ingênuos. Se, simbolicamente, a ciência não é tomada como valor substantivo para as vidas de muitas pessoas, ou seja, no campo metafísico se abre espaço para outras formas de pensamento. Isto não quer dizer o mesmo que no campo estritamente físico de nossas vidas em sociedade. Exemplificando, poderíamos dizer que diferentemente de muitos tagarelas que endossam a Teoria dos Buracos Negros sem ter a mínima noção do que seja, crentes em um determinado culto podem fazer uso rotineiro do avanço científico com um simples óculos. Há uma diferença gritante em ter fé e não desdenhar da ciência e ter fé rejeitando a própria ciência. Assim como Albert Einstein expressava sua fé em Deus podemos ter psiquiatras evangélicos que tratam de transtorno bipolar com o uso de fármacos e terapia adequados. Uma coisa não contradiz a outra, necessariamente. E, em outra direção, o Papa João Paulo II revelou não haver princípio de contraditoriedade entre fé e teoria evolucionista.[4] Pode-se discordar do Papa, mas acho difícil sustentar que ele não seja um homem de fé.
Eu, particularmente, respeito à posição ateísta como mais uma passível de se adotar em sociedade, mas acho ingênua a idéia de uma sociedade atéia. Coisa que nunca existiu. Não se trata apenas de comprovação empírica, mas de procurar entender, cientificamente, como funcionam as sociedades de modo estrutural, seja uma tribo ou uma nação urbano-industrial. Desafio qualquer um a me mostrar uma sociedade que não tenha religião. É conhecido o fato de como na extinta URSS, o livro mais traficado era a Bíblia.
Por outro lado, será que temos uma visão apropriada de “ciência”? Para os “cientistas sociais” de base historicista (principalmente, os ingênuos que ainda professam o marxismo), a possibilidade de generalização das ciências físicas reside na idéia de uniformidade geral da natureza. Como a sociedade seria algo “antinatural” (por natureza!), tais “cientistas” ficam livres do compromisso com a exatidão. Mas, esta “generalidade” que é atribuída à natureza é, antes de tudo, atribuída por nós mesmos. Generalizar significa “lançar uma rede” no campo do empírico para detectarmos as diferenças que são, por vezes, mais freqüentes do que imaginamos. Os “cientistas sociais” ignoram como funciona o campo do conhecimento natural e criam suas bases metodológicas por contraposição do que, verdadeiramente, ignoram.[5]
Se algo pode ser chamado de “ciência” este rótulo é válido tanto para o conhecimento físico quanto humano. Só há uma ciência, a exata. O resto é balela. E assim, “cientistas sociais”, particularmente, me parecem ideólogos na verdade. Uns mais explícitos, outros mais sutis.
Marx, que ainda inspira muitos sem ter sido compreendido (como farsante que foi) tinha pretensões de ciência. Pretendia criar uma mega-teoria evolucionista social. E aí reside a importância que muitos “cientistas sociais” dão hoje à teoria da evolução procurando nela amparo intelectual. Na verdade, não compreenderam a própria teoria.
Segundo Stephen Jay Gould[6], no início do século passado havia uma verdadeira confusão sobre como se processaria a evolução. Tínhamos a rigidez do darwinismo ortodoxo que sustentava a evolução gradual através da cumulatividade da seleção natural. A visão lamarckista, por sua vez, se contrapunha a esse “gradualismo na construção da evolução”. A transmissão de supostas respostas adaptativas bem sucedidas aos seus descendentes pelo legado adquirido, poderia ser tão rápida quanto brusca. Mendel com sua herança genética trouxe Darwin novamente a proa da visão evolucionista.
No pós-guerra, tais divergências foram suplantadas por um consenso acrítico. As mutações lentas e graduais tinham vencido a idéia de mudanças bruscas. Um século e meio após Darwin, seus seguidores haviam criado uma versão tão mais rigorosa quanto simplificadora e que passou, sistematicamente, a condenar a visão religiosa.
Esta situação não levou em consideração o fato de que o próprio Darwin foi, no início, um estudante clerical, embora tenha depois se tornado um agnóstico.[7] Contradição? Esta posição não é novidade para o avanço da ciência, a qual deve, em grande parte seus trunfos às especulações da própria religião.[8]
Deste mal entendido histórico surge, revitalizado, novo dogma científico apoiado em especulações sobre mudanças climáticas globais. Neste ponto, a UCS é uma das mais sectárias agremiações de cientistas e entre suas teses correntes está a do aquecimento global. Segundo a organização, o clima está mudando no mundo inteiro, conseqüência da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento. Sem precisão alguma, muito menos científica, se afirma que os gases permanecem na atmosfera por décadas ou séculos.[9] Ora, há uma diferença temporal significativa entre essas duas dimensões. O que se quer, definitivamente, dizer com isto? Exceto, pela capacidade de alarme embutida na afirmação?
A melhor maneira de descrever a controvérsia a respeito do aquecimento global é que a climatologia tem passado a ser a “calamitologia”. A imprensa e grupos ambientalistas continuam a triturar o público com novas más notícias sobre o aquecimento global, elevação do nível do mar, tempestades drásticas, derretimento de glaciares e gelos polares e potenciais efeitos a saúde da mudança climática. Nós também temos ouvido muitas vezes sobre a relutância da atual administração americana em assinar o Protocolo de Kyoto, um tratado ambiental, que pretende restringir a produção de gases do efeito estufa e outros poluentes no próximo século. Mas, como amarrar o destino de uma nação a um pressuposto, cientificamente, falho?
Dissidentes socialistas chamavam a atenção para o poder da tecnoburocracia. Pois bem, parece que estamos cursando um período de crescente domínio da “ecocracia”. Os “ecocratas”, como chamou Jack W. Dini.[10] Os ecocratas mostram-se insensíveis a questões que dizem respeito ao sustento de populações nativas em interação com o seu meio ambiente também. Ou seja, a necessidade de grupos étnicos de sobreviverem.
Na verdade, vivemos uma histeria ambientalista que fala em nome da ciência. Os dados sobre aquecimento global com base em 1.000 anos não são precisos, nem abrangentes. A primeira análise que se poderia fazer é que estamos saindo de uma “pequena era glacial”. Outra, é que os dados são obtidos basicamente na América do Norte através de “indicadores substitutos” e não há a mesma pesquisa para outros continentes. Alguns desses dados, como os anéis de crescimento dos troncos das árvores, não estão sujeitos somente às variações de temperatura. Estes não foram obtidos do oceano, no inverno ou à noite que poderiam dar uma dimensão mais ampla da mudança climática.[11]
O Painel Mundial para Mudanças Climáticas (IPCC) de 2000 trabalha com 40 cenários possíveis e nenhum é mais provável que o outro. Por que certos organismos escolhem os piores para trabalhar?
Lomborg propõe algumas questões para dar mais objetividade ao debate:
Em que grau o CO2 afeta a temperatura?
Dentro dos Modelos de Circulação Geral Atmosfera-Oceano (MCGs), a atmosfera é dividida em grades de 250 km de largura e 1 km de altura. As equações calculam a evolução do momento entre calor e umidade dentro de cada uma. Mas, ainda é impossível colocar todos os elementos dos climas do planeta dentro do mesmo modelo. O máximo que se consegue é a estipulação de parâmetros que também são aplicados em modelos econômicos – “tipos ideais”, para usar a feliz terminologia weberiana. Algo que naquele momento específico, sob determinadas condições vigentes se torna válido, mas que pode ser estendido para outras situações levando-se em consideração que se trata de uma inferência. Não de uma regra ou lei (e aí reside o problema metodológico básico na maior parte da “ciência social”)[12]. Há alguns outros processos como a formação e a evolução das nuvens que não entram dentro desses modelos por terem sua dinâmica ainda ignorada em grande parte.
Ao contrário do que nossa mídia noticia (e o mesmo é válido para a internacional que age sob o mesmo princípio alarmista), há indícios que o aumento de aerossóis de sulfato estão parcialmente neutralizando o aquecimento devido a aumentos nos gases-estufa (IPCC 1996).
Também, muitos modelos anteriores erraram. Eles se baseavam no princípio de que partículas de enxofre da queima de combustível fóssil e outras partículas de atividade vulcânica, queima de biomassa etc. só produzissem calor. Mas, não é bem assim. Algumas refletem a radiação solar, podendo levar até a um resfriamento.[13]
As gotículas de água e a precipitação geradas pelos aerossóis na atmosfera podem ter efeitos resfriadores na atmosfera. Existem vários elementos resfriadores. Escolher apenas um dentre todos facilita a não revisão da hipótese do aquecimento global previsto pelo CO2. Nada menos popperiano, nada menos científico, mas uma boa máscara para a realidade. Além disso, o carbono também pode ter seu efeito de aquecimento contrabalançado pelo efeito resfriador de outros aerossóis antropogênicos.
O CO2 ainda interfere no vapor d’água. A maior parte do aquecimento na década de 90 se deve ao El Niño.[14] E, o aquecimento das águas do Pacífico sul pode, inicialmente, levar a um aquecimento atmosférico para depois, devido ao vapor, resfria-la igualmente. Da mesma forma são pouco conhecidos os efeitos das nuvens na atmosfera que podem elevar ou baixar a temperatura. Uma revisão do estudo sobre o aquecimento global baixou a expectativa de aquecimento de 5,2o C para 1,9o C.
Quanto ao desmatamento mundial, outra assertiva tomada como “científica” pelos meios de comunicação e diversas ongs, a análise é, concretamente, mais positiva.
Segundo Lomborg, até julho de 2000, a WWF defendia que a Amazônia era o “pulmão do mundo”, tese amplamente refutada uma vez que a própria floresta consome durante a noite toda a quantidade de oxigênio liberada durante o dia na atmosfera.
Igualmente, as previsões catastrofistas de perda de 50% das espécies vegetais em meio século não são tidas como sérias. Números mais recentes apontam para 0,7%. Mais que argumentos econômicos que não são, por si só, necessariamente prováveis, as justificativas preservacionistas são de ordem moral. Sendo assim, outros argumentos morais deveriam ser levados em consideração, o que não fazem os ambientalistas quanto à sociedade em geral. Dois pesos e duas medidas em se tratando de ciência, pode?
Uma das impressões largamente disseminadas e equivocadas em nossa mídia é que a perda de florestas ocorreu em sua maioria nos últimos 50 anos. Na verdade, a maior parte do desmatamento mundial, especialmente na Europa, ocorreu no fim da Idade Média. Ou seja, estamos nos aperfeiçoando no trato ao meio ambiente. Não se trata de um aperfeiçoamento na simples conservação, mas no uso correto. Acontece que um projeto de exploração sustentável como o Veracel não ganha o mérito e respeito de um Greenpeace. O avanço existente não se dá pela “conscientização” de grupos ambientalistas ou ongs como a UCS, mas pelo trato e uso com manejo adequado por empresas privadas: o consumidor requer mercadorias ecologicamente corretas, o mercado as fornece. Quer mais simples e objetivo que isto?
Outro mito, divulgado amplamente pelo Worldwatch Institute, é de que a demanda crescente de papel e derivados de madeira esteja acabando com as florestas. Na verdade, todo consumo mundial atual pode ser provido por apenas 5% das florestas que corresponde, mais ou menos, ao montante advindo do reflorestamento. Ou seja, não há escassez. A irracionalidade persiste nos países subdesenvolvidos que não são os responsáveis pelo provimento da maior parte dos recursos, ao contrário do que se pensa. Só o Canadá é responsável pelo fornecimento de 50% do papel jornal do mundo e aquele país tem cerca de 60-70% do seu território coberto por florestas.
Mais sofismas divulgados por “organismos científicos” são os incêndios em áreas não florestais tratados como se fossem em florestas. Ou seja, se omite a real proveniência da madeira e do papel por que isto não representa um problema real, mas se deturpa a incidência dos fogos por que isto causa alarme e difunde o terror. Isto, ao mesmo tempo, que a WWF afirmou que os incêndios florestais brasileiros cresceram tanto quanto na Indonésia, país que o organismo não dispõe de dados exatos. O que dizer então do Brasil, onde a WWF não detém quaisquer dados.
O IBAMA já afirmou no passado que mais de 94% dos incêndios brasileiros são reincidentes, mas são nos repassados como novos focos de queimada sendo que outras ongs atentam para 72%. Não há consenso científico sobre o tema, só especulação com fins políticos.
Na verdade, os incêndios de 1983-84 em Bornéu foram menores que na URSS-China em 1987. Mas, qual organização ambientalista brada contra veementemente contra regimes comunistas?
O ano de 1997 também não foi, como dizem, quando mais ocorreram incêndios. E, de mais a mais, se a queima de biomassa cresceu 50% desde 1880 (e a derrubada de florestas primárias[15] uns 20%), isto sugere que a floresta tem, em muitos casos, uma grande capacidade auto-regenerativa. Subestimar a própria (e verdadeira) ecologia (o que é diferente do ecologismo) é atitude científica?
Muitos dos gritos e protestos contra o desmatamento têm interesse direto de países como o Brasil, pois falam em perdão da dívida para a regeneração de sua biomassa. Como se nossa corrupção endêmica destinasse algum recurso para isto... Por sua vez, o sistema de certificação global para o manejo correto da floresta é uma idéia mais interessante, pois é voltada para o mercado. No entanto, é de pouca abrangência já que as florestas usadas para fabricação de papel e uso da madeira, como já dissemos, é pequena e minoritária.
Segundo os “dados científicos” veiculados por grupos e ongs supostamente interessadas no meio ambiente dão conta que desde a II Guerra Mundial, 1/3 das florestas foram desmatadas, enquanto que, segundo a FAO, foram cerca de 0,46%. Não se trata de mera discrepância estatística. Alguém está mentindo.
“A mudança climática não é mais um tema que aceite argumentos contrários.” Foi a frase proferida por John Gummer, ex-secretário do meio ambiente da Inglaterra. Será? Para Martin Keeley, geólogo da Universidade College of London, não é assim, mas revistas como a Terra em sua edição de janeiro de 2005, concluem que “graças a discussões desse tipo, o protocolo permanece engavetado (...)”, ou seja, o mais importante não é o verdadeiro debate científico, mas o encerramento a qualquer custo de toda discussão para a tomada definitiva de medidas que possam cair no populismo.
Graficamente falando, a matéria da Terra é tão pobre quanto uma Caros Amigos: ao invés de um gráfico ou tabela representando o aquecimento global, tudo o que temos é um figura de Tio Sam. Sugestivo...
Na página oposta, na mesma linha de especulação em torno de energia e meio ambiente, temos um comentário de um parágrafo revelando uma “afirmação bombástica” de que a “Lua é a saída”, pois o satélite teria enormes reservas de Hélio 3, gás que, conforme relatado na revista, combinado com Deutério, produz energia. Mas, para se retirar o gás do solo lunar seria necessário aquecer as rochas a 800oC. O próprio articulista, baseado nas informações do geólogo americano que as forneceu, conseguiu entender que não dispomos, da infra-estrutura necessária para as coletas.
A notícia não deixa de ser alvissareira, pois conforme relatado, apenas 25 toneladas desse gás (passíveis de serem transportados em um único ônibus espacial) teriam energia suficiente para abastecer os EUA por um ano.
O que escapa à mente do articulista é que para se obter este salto de qualidade tem que se dispor, inicialmente, de maiores gastos nas matrizes energéticas convencionais que são, na sua maior parte, de combustíveis fósseis que aumentam o efeito estufa. Quer dizer que para gastar menos petróleo em longo prazo tem que se gastar mais a curto e médio prazos.
Ainda, na mesma página, a revista traz uma matéria que estou tentando entender o que faz na seção “meio ambiente”: os americanos estariam comprando um kit “vire canadense” para viajar ao exterior (camisetas, manuais com expressões canadenses etc.). Ou seja, o que isto tem a ver com meio ambiente? Por que esta seção da revista não se chama “antiamericanismo” e “pseudociência”?
Mas, o que esperar de uma revista de aventura, meio ambiente e divulgação (pseudo) científica que, em seu número anterior, nos traz uma matéria sobre americanos anti-Bush que se desculpam pela eleição de Bush? Qual o foco da revista? Isto é radicalmente diferente da postura da National Geographic Brasil que, em sua edição de janeiro publicou em sua seção de cartas protesto de um professor contra a “visão limitada, seletiva e ideológica” do autor da matéria sobre a teoria darwinista na edição de novembro. Além disso, o número de janeiro conta com uma bela reportagem sobre o município de Pancas, no Espírito Santo, que pode ter terras de agricultores desapropriadas para a homologação de um parque nacional. A revista problematiza a tensão entre o preservacionismo strictu sensu e a cultura local. É por estas e outras razões que uma National Geographic Brasil faz jornalismo de primeira qualidade e a Terra faz proselitismo ideológico, é por estas e outra razões que uma Terra nunca será uma National Geographic Brasil.
Como diz Jack W. Dini[16]:
- 91% dos cientistas e 77% dos jornalistas sentem que os jornalistas falham em compreender a natureza da ciência e da tecnologia.
- 88% dos cientistas e 56% dos jornalistas sentem que editores de notícias estão mais interessados em vendas que contar às pessoas o que eles realmente sabem.
- 79% dos cientistas e 67% dos jornalistas dizem que os jornalistas focalizam mais em tendências e idéias correntes do que em fatos.
- 67% dos jornalistas dizem que procuram tópicos sensacionalistas para vender melhor seus produtos.
- Mais que 50% dos cientistas e jornalistas sentem que os jornalistas sentem que os jornalistas não apreciam realmente basear em pesquisas científicas básicas e seu desenvolvimento.
- Os jornalistas dizem que o jargão cientifico e suas especificações terminológicas sem fim que circunscrevem seus objetivos para seu trabalho de comunicação com o público em tudo é impossível de tratar.
Isto nos EUA, onde a classe jornalística apresenta um mínimo de autocrítica. E aqui? Restam dogmas.
Mas, querem saber? Estou me tornando um velho rabugento. De que valem estas considerações quando o chefe de estado do país insinua que o recente maremoto na Ásia é conseqüência de ações humanas? Nem Marx imaginaria que suas “leis inexoráveis da história” pudessem expressar tanta ignorância.


[1] No site Marxmail.org a UCS figura nos “links de ciência” listados. Só para se ter uma idéia daquele, um dos principais articuladores é o picareta mor conhecido como Noam Chomsky.[voltar]
[2] Em La Miseria Del Historicismo (Alianza Editorial), Popper dizia que na sociedade se intervém com facilidade ao fazermos previsões. Se um economista, por exemplo, faz uma declaração que daqui a três dias as ações da bolsa cairão, é bem provável que venham a cair totalmente daqui a dois dias pelo fato de ninguém querer perder dinheiro. O fato conseqüente não invalida a assertiva anterior. Não a prova, por si só, mas também não a desmente. As previsões não são profecias. Certos apologistas da “ciência” tratam-na, paradoxalmente, como dom da clarividência.[voltar]
[3] Um Mundo Novo – Os Estados Unidos. Editora Presença, Estado da Guanabara, 1964.[voltar]
[4] “In a major statement of the Roman Catholic Church's position on the theory of evolution, Pope John Paul II has proclaimed that the theory is ‘more than just a hypothesis’ and that evolution is compatible with Christian faith.
“In a written message to the Pontifical Academy of Sciences, the pope said the theory of evolution has been buttressed by scientific studies and discoveries since Charles Darwin ...” in Stevenson Swanson, Tribune Staff Writer.. Chicago Tribune (pre-1997 Fulltext). Chicago, Ill.: Oct 25, 1996. pg. 1.[voltar]
[5] Para além de Popper, vale a pena confronta-lo com Thomas Kuhn e sua A Estrutura das Revoluções Científicas que fala na mudança e evolução dos paradigmas que norteiam a própria ciência. Ou, de forma menos linear, com Paul Feyerabend em seu Contra o Método que defende um verdadeiro anarquismo nos procedimentos científicos. [voltar]
[6] A Galinha e seus dentes e outras reflexões sobre história natural. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, pp. 12-16.[voltar]
[7] National Geographic Brasil. A teoria em evolução. Novembro de 2004.[voltar]
[8] THOMAS, Keith. O Homem e o Mundo Natural. Companhia das Letras.[voltar]
[9] Climate Choices.[voltar]
[10] Challenging Environmental Mythology: Wrestling Zeus. Sci Tech Publishing Inc., 2003.[voltar]
[11] LOMBORG, BjØrn. O Ambientalista Cético: Revelando a Real Situação do Mundo. Campus, Rio de Janeiro, 2002, pp. 317-326.[voltar]
[12] Novamente é Popper quem ensina: nas ciências físicas, “lei” não é, necessariamente, algo que vai acontecer ou acontece, mas algo que, dentro de determinadas condições muito específicas, não deve acontecer. Quando Marx, por sua vez, fala em “leis inexoráveis da história” cria um mito advindo de sua incompreensão de como a natureza funciona.[voltar]
[13] SHINE; HANSEN apud LOMBORG, op. cit.[voltar]
[14] Diferentemente da maioria das especulações acerca do El Niño que tentam, convenientemente, associa-lo a causas humanas, há a grande possibilidade de que seja um fenômeno natural causador de vários outros como secas no Nordeste brasileiro, outrora (desde o Brasil Império) pouco compreendidas.[voltar]
[15] Vegetação nativa, não alterada.[voltar]
[16] Op. cit., p. 150.[voltar]

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:27
Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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