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26 Nov 2015

"MARES DE LAMA"

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Na história de nosso país, vez por outra, surgem referências a um mar de lama, descrição genérica para descalabros praticados por autoridades políticas em diversas ocasiões.

 

Na história de nosso país, vez por outra, surgem referências a um mar de lama, descrição genérica para descalabros praticados por autoridades políticas em diversas ocasiões.

Foi assim no final do governo Vargas. Houve uma série de incidentes “menores”, como importação de automóveis de luxo com isenção fiscal, como se fossem para uso oficial da Presidência, o enriquecimento de cortesãos e nepotes, enfim, crimes graves, mas de pequena expressão em termos numéricos. Ela foi orquestrada pela imprensa e criou uma comoção popular que sufocou o governo. “Mar de lama”, trombeteava a oposição, liderada pela língua brilhante e ferina de Carlos Lacerda, conduzindo a “banda de música” da UDN.

O tema, exagerado e agravado por homicídio que vitimou um oficial da Aeronáutica, o Major Vaz, assassinado em atentado contra Lacerda em que estava inegavelmente implicado Gregório Fortunato, o “Anjo Negro”, chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, cresceu a ponto de gerar grave crise que culminou com o suicídio do Presidente.

Hoje em dia, comparando-se com os escândalos de corrupção que explodem diariamente nas manchetes, tudo aquilo seria um caso a ser tratado por um Juizado de Pequenas Causas.

Os grandes mares de lama, hoje, são dois.

O primeiro, de lama real, resultante do rompimento de uma barragem de rejeitos da mineração de ferro, às margens do Rio Doce, em Minas Gerais, destruiu várias pequenas localidades ao longo de sua passagem, contaminou toda a água a jusante, inclusive colocando em cheque o abastecimento de água de cidades de maior porte em Minas Gerais e no Espírito Santo e, chegando ao mar, polui dezenas de quilômetros do mesmo e de praias adjacentes à foz do rio.

Não se trata apenas de perdas de vidas humanas, felizmente poucas tendo em vista o volume do despejo de lama tóxica, mas de consequências de outra ordem, até agora ignoradas.

Há que determinar o grau de responsabilidade da mineradora – uma sociedade entre as duas maiores mineradoras do mundo – e dos órgãos responsáveis pela fiscalização das condições da barragem, embora nossa presidente, açodadamente, já tenha atribuído o desastre a causas naturais, baseada não se sabe em quê.

Não se trata apenas de indenização financeira, o menor dos problemas para as gigantes da mineração donas da barragem.

A área atingida pela lama é do tamanho de Portugal. Ficará coberta por uma camada de detritos que, depois de seca e solidificada, manterá o solo estéril por décadas.

O Rio Doce também está morto. Toda a fauna, a vegetação ciliar – ou o que restava dela – tudo foi sufocado pelo lodo e pela falta de oxigênio e de alimentos causada pela enxurrada. Quanto tempo levará para revitalizá-lo? Os otimistas falam em trinta anos.

Resta, também, enfrentar o problema da realocação de centenas de famílias de agricultores, pescadores e outros ribeirinhos que tiravam seu sustento da água do Doce e estão definitivamente impedidos de fazê-lo por longo tempo, muitos pelo resto de suas vidas.

Em rápidas palavras, tem-se aqui um resumo deste mar de lama.

O segundo mar de lama, infindável e parcialmente impune, refere-se à quadrilha de políticos que saqueou os cofres nacionais durante muitos anos, dividindo as diretorias e departamentos de grandes empresas nacionais com finalidade não apenas de abrigar em empregos bem remunerados seus cúmplices políticos, mas principalmente de pilhar sua caixa, em manobras escabrosas para enriquecimento próprio e de seus partidos políticos, como se “caixa de campanha” justificasse a roubalheira cometida.

Este mar de lama, que ainda não parou de vazar, nos coloca frente a mais uma década perdida, levando à bancarrota a economia nacional e algumas das maiores empresas brasileiras, a começar pela maior delas, a Petrobras.

Os empresários cúmplices do assalto perpetrado contra a grande empresa já estão acertando suas contas com a Justiça. Vários foram condenados, outros estão sendo julgados e as prisões continuam a ocorrer, na triste e vergonhosa, para nós brasileiros, Operação Lava-Jato.

E os políticos envolvidos e beneficiados pela corrupção desenfreada serão todos julgados? Beneficiados pelo foro privilegiado que nossa legislação lhes assegura, defendidos por bancas milionárias e filigranas regimentais, ainda fazem ares de vestais ofendidas e ameaçam os que ousam desafiar sua santa impunidade. Afinal, não são mortais comuns, são herdeiros por direito divino – e eleições com urnas duvidosas – de gerações de fidalgos, fazendeiros, capitães e governadores gerais, para os quais a lei nunca existiu.

Na lama em que chafurdam, pensam continuar gozando da impunidade que sempre os beneficiou. E esforçam-se, acompanhados por fieis escudeiros e cortesãos, em declarações indignadas de que estão sendo vítimas de perseguição de adversários políticos.

Mas a lama sobe, e ainda há muita lama para escoar.

Clovis Puper Bandeira

Nascido em 28 Fev 45 em Pelotas - RS

General de Divisão da Reserva do Exército Brasileiro

Ex Vice-Presidente e atual Assessor Especial do Presidente do Clube Militar

Principais funções na carreira militar:

- Instrutor da AMAN e da ECEME

- Aluno do US Army War College - EUA

- Comandante do 10º BI - Juiz de Fora - MG

- 1º Subchefe do Estado-Maior do Exército - Brasília - DF

- Comandante da 17ª Brigada de Infantaria de Selva - Porto Velho - RO

- Chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazonia - Manaus - AM

- Diretor de Especialização e Extensão - Rio - RJ

- Comandante da 3ª Região Militar - Porto Alegre - RS

- Chefe do Departamento de Inteligência Estratégica do Ministério da Defesa - Brasília - DF

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