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27 Abr 2004

Por Que O Socialismo Não Vence Mas O Capitalismo Perde

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A organização internacional permite à esquerda produzir alternadamente, conforme bem lhe convenha, uma impressão de unanimismo global ou um estado de confusionismo universal.

Como já observei em outras ocasiões, a maior vantagem da esquerda internacional é ser internacional, enquanto as direitas são nacionais, regionais, municipais ou – no caso dos liberais brasileiros – menos que distritais. 

Mesmo a aliança entre as direitas americana e israelense é tão tênue que pôde ser posta em risco por uma simples fofoca anti-Gibson (Abraham Foxman já voltou atrás, mas agora a encrenca está armada).

A organização internacional permite à esquerda produzir alternadamente, conforme bem lhe convenha, uma impressão de unanimismo global ou um estado de confusionismo universal. Dominando a grande mídia européia e americana, dispondo ademais de uma vastíssima rede de ONGs e sites de jornalismo eletrônico bem articulados entre si, ela conduz o fluxo de informações no mundo e, segundo a regra historiográfica de que a difusão de notícias produz mais notícias, domina também a sucessão dos acontecimentos.

Seu poder sobre a esfera das relações humanas é incalculável e já ultrapassou de há muito as dimensões de um fenômeno estritamente político, tornando-se um dado antropológico, um momento da história da autoconsciência humana (ou da falta de autoconsciência).

A esse poder não corresponde, no entanto, um domínio equivalente do cenário material. As relações dos homens entre si são determinadas sobretudo por fatores de ordem simbólica e lingüística -- a esfera do imaginário -- que uma boa técnica de propaganda e de guerra psicológica pode controlar e pôr a seu serviço. Nesse campo, nenhuma corrente ou organização jamais mostrou eficiência tão grande quanto a da esquerda internacional. Seu sucesso nessa área vem crescendo ininterruptamente desde o Iluminismo até hoje, acelerando-se em certas etapas bem marcadas historicamente, como as últimas décadas do século XVIII, as revoluções do começo e do meio do século XIX e, no século XX, os anos 30, 60 e 90, prosseguindo nos dias presentes. O domínio sobre o ambiente material, porém, depende da organização racional da economia, e isto não está ao alcance de nenhum movimento esquerdista ou revolucionário, precisamente porque o espírito revolucionário é, em essência, hostil à idéia de uma natureza material objetiva a cujas exigências o homem deva se conformar por meio de uma economia, digamos, “natural” ou “razoável”. Conforme já demonstrei em O Jardim das Aflições, o marxismo não tem noção da natureza como realidade autônoma, apenas como cenário passivo e dúctil da ação humana, tomada a priori como soberana, onipotente e ilimitada. É verdade que o socialismo moderno surge, precisamente, como uma ambição de eliminar aquilo que Karl Marx chamava “a anarquia do mercado” e instaurar em lugar dela o controle central da economia. Mas a crença mesma de que o cenário físico terrestre pode ser “administrado” em sua totalidade é incompatível com a estrutura da realidade. Longe de ser a pura matéria plástica nas mãos do artesão humano, a natureza física é um complexo inabarcável ao qual a “anarquia” do mercado se adapta muito melhor do que qualquer Comitê Central de planejadores iluminados.

O domínio esquerdista sobre o imaginário das multidões contrasta pateticamente com a impotência dos regimes esquerdistas para organizar-se e sobreviver sem a ajuda das nações submetidas à “anarquia do mercado”. Sem a ajuda americana, a URSS teria desaparecido depois da II Guerra e a China teria permanecido na Idade da Pedra à qual fôra devolvida pelo “Grande Salto para a Frente” e pela “Revolução Cultural”.

Mas essa impotência não se verifica só no contraste entre nações. Ao próprio domínio psicológico exercido pela propaganda esquerdista sobre a alma das multidões dentro dos países capitalistas não corresponde, na prática, nenhuma mutação equivalente da estrutura econômica e política. Ao contrário, quanto mais forte se torna a hegemonia esquerdista sobre os meios de comunicação, sobre o establishment cultural, etc., mais parece tornar-se claro que o tipo de atividade capaz de produzir essa hegemonia só pode florescer num sistema democrático-capitalista moderno. Nenhuma economia socialista teria jamais cacife para sustentar uma multidão de “intelectuais” (no sentido amplo e gramciano do termo) como aquela que, nos países capitalistas, tem por única atividade, monstruosamente improdutiva, a propaganda política e a guerra cultural. Instaurada a economia socialista, esses parasitas seriam convocados para cortar cana ou servir no Exército, isto se não fossem fuzilados no primeiro expurgo. Comparem, por exemplo, a produção de livros, teses universitárias, jornais, revistas, filmes, peças de teatro e programas de TV pró-esquerdistas nos EUA com o seu equivalente estatal soviético. A primeira ganha longe, em tamanho, qualidade e eficácia. Só o capitalismo permite liberar das atividades produtivas uma massa tão gigantesca de tagarelas dispendiosos.

Ora, os “intelectuais” são a elite revolucionária por excelência. São o “Novo Príncipe” de que falava Antonio Gramsci. Mas, se todo o fundamento material da sua atividade reside precisamente no estado de coisas que professam destruir, se não podem instaurar a economia socialista sem suprimir ao mesmo tempo sua própria existência como classe, então é claro que essa existência na sociedade atual se baseia numa contradição constitutiva que não pode ser confessada sem que as pretensões da classe a personificar os mais elevados ideais humanos se autodesmascarem por completo. Ao caráter intrinsecamente farsesco do seu modo de existência social os intelectuais esquerdistas devem o tom postiço, declamatório e histriônico da sua retórica. Eles são mentirosos e hipócritas não porque sejam maus enquanto indivíduos, mas porque vivem de uma mentira constitutiva e no fundo sabem que, sem ela, não durariam um dia nas suas posições. Não é verdade o que dizia Karl Marx, que a posição do indivíduo na sociedade econômica determina sua consciência. Isso é falso quando aplicado indistintamente a todos os seres humanos, mas, no caso dos intelectuais marxistas, é a pura e exata verdade: a farsa em que se baseia sua existência material determina o conteúdo farsesco das suas idéias.

Isso explica também um fenômeno ainda mais estranho. Na última metade de século XX, muitas nações caíram sob a hegemonia ideológica do esquerdismo, mas pouquíssimas dentre elas efetuaram para valer a “transição para o socialismo”. O poder adquirido sobre as consciências não se traduziu em transformação social real. A própria constatação desse estado de coisas gera entre os esquerdistas o peculiar enervamento que se traduz num estilo de discurso cada vez mais inflamado, mais radical, mais odiento e, sobretudo, mais pretensioso e autolisonjeiro desde o ponto de vista moral. A urgência de destruir os inimigos a todo preço faz com que os porta-vozes da ambição esquerdista percam os últimos resíduos de escrupulosidade e apelem como nunca à produção de mentiras e intrigas de qualidade cada vez mais baixa, que no fundo não enganam nem a eles próprios. A idéia, por exemplo, de manipular as eleições espanholas por meio da crueldade em massa é um exemplo de ação desesperada a que um grupo só recorre em caso de extrema necessidade. Mas há meio século a esquerda vive em permanente “estado de extrema necessidade”. Quanto mais domina o ambiente psicológico, menos pode operar a sonhada transição para o socialismo e, por isso mesmo, mais odientas e psicóticas se tornam suas palavras e suas ações. Mais ainda, quanto mais sua retórica adquire poder sobre a opinião pública, mais a contradição constitutiva e insolúvel da existência dos intelectuais se expande numa psicose endêmica entre as multidões e mais a vida humana em geral adquire um tom inconfundível de farsa diabólica sem fim nem alívio.

O perigo real que a esquerda hoje oferece ao mundo é menos o de implantar o socialismo propriamente dito que o de transformar num inferno os países capitalistas avançados – e num inferno dos pobres o Terceiro Mundo. Os intelectuais iluminados vivem prometendo “um outro mundo possível” só para que ninguém perceba que o insuportável mundo presente é, em tudo e por tudo, obra de suas mãos.

Aqueles que vêem essa perspectiva com horror devem, portanto, tomar consciência de que o inimigo real não é “o socialismo” enquanto proposta econômico-social, mas a classe dos intelectuais ativistas, criada e sustentada pelo próprio capitalismo numa espécie de rendição ante a chantagem moral em que ela o mantem.

Concentrar a discussão em “propostas de sociedade”, contrastando “concepções do desenvolvimento”, é, portanto, errar o alvo por muitos metros. As correntes esquerdistas e revolucionárias não nos fazem mal pelas suas “propostas”, mas pela sua atuação, aqui e agora, dentro do próprio quadro capitalista que, no fundo, não querem nem podem destruir. O que importa não é provar a superioridade teórica do capitalismo perante o socialismo, mas sanear a própria sociedade capitalista, demolindo o injusto prestígio e o poder que os intelectuais ativistas aí desfrutam. Ou isso, ou a ilusão de que é possível ter uma sociedade capitalista saudável com uma ideologia socialista dominante acabará por infectar da contradição existencial socialista os próprios defensores do capitalismo, transformando sua vida numa farsa igual à dos socialistas e tornando o capitalismo uma prisão infernal na qual não se poderá nem ficar, nem sair.

Fonte: www.midiasemmascara.org

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:32
Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho, nascido em Campinas, estado de São Paulo, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros. A tônica de sua obra é a defesa da interioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escorada numa ideologia "científica". Para Olavo de Carvalho, existe um vínculo indissolúvel entre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual, vínculo este que se perde de vista quando o critério de validade do saber é reduzido a um formulário impessoal e uniforme para uso da classe acadêmica.

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