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25 Jul 2015

O SENSO DO RIDÍCULO: A GERAÇÃO "FACEBOOK" NÃO SE IMPORTA COM SUAS GRITANTES CONTRADIÇÕES

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O monopólio dos fins nobres dispensa o chato debate calcado em argumentos e fatos. A demonização dos adversários ideológicos, tratados como inimigos, é suficiente para a sensação de regozijo pela suposta superioridade moral. A repetição de slogans elimina a necessidade de estudo aprofundado sobre os assuntos.

 

Poser. É esse o nome que se dá aos que usam as redes sociais para posarem de bonzinhos, para mostrarem aos mil “amigos” como são engajados, abnegados, “conscientes”. Só andam de bike pois querem preservar o planeta, seus filhos só pensam em como salvar as baleias ou as crianças africanas, são super esclarecidos e “tolerantes”, pensam 24 horas por dia em “justiça social” e detestam a insensibilidade dos gananciosos, que são sempre os outros. Mas claro que, na prática, não é nada disso.

Em artigo de hoje na Folha, Ricardo Mioto fala desse “duplipensar” orwelliano dos que perderam o senso do ridículo, incapazes de perceber suas gritantes contradições. Pondé os chama de “inteligentinhos”, e eu os dissequei em Esquerda Caviar. Sem eufemismo, o fenômeno lida com a velha e conhecida hipocrisia. Mioto cita alguns exemplos engraçados:

Em tempos de economia na vala, é achar que juros altos da dívida pública são uma desgraça que só favorece uma classe de rentistas, mas não ver problema se governo gasta mais do que arrecada, adiando a conta.

É ligar o mercado financeiro à voz da elite, mas defender generosos subsídios a empresários bilionários via BNDES.

É crer que cabe ao Estado decidir taxas de retorno da iniciativa privada, forçá-la a ser sócia da Petrobras (que parceira!) e depois lamentar que interessados em investir… ué, sumiram.

No campo social, é achar que a mulher que aborta é dona do seu corpo e destino, mas desdenhar a herege que faz cesárea (parto “não humanizado”) ou desacelera a carreira porque é feliz cuidando dos filhos.

É mudar a análise do crime conforme a conveniência ideológica. É dizer, com óbvia razão, que estupradas não podem ser responsabilizadas pelo ocorrido, mas atribuir roubos à ostentação do paulistano, como faz Leonardo Sakamoto.

É atacar o machismo entre nós, mas, por relativismo cultural, calar ante atrocidades contra mulheres por islâmicos.

[...]

É papagaiar sua opção política pelos pobres, mas demonizar o agronegócio, cuja produtividade significa comida mais barata no mercado –quanto menos dinheiro tem uma família, maior o impacto da alimentação no orçamento.

É dizer que a criança deve ser alfabetizada quando se sentir pronta, sem “opressões”, mas saber que isso só vale para os filhos dos outros –os nossos vão ao colégio Bandeirantes, estudar norma culta e tabuada.

[...]

Para ficar na Folha, sei que pega melhor no Facebook compartilhar, digamos, o Gregorio Duvivier do que o Alexandre Schwartsman. Aliás, Alexandre quem? Tem canal de humor no YouTube? Não, é o cara que escreve sobre… superavit. Uau.

O único porém é que botar a carência a serviço da lógica não costuma dar muito certo.

Não costuma dar nada certo. Mas quem liga para os resultados efetivos, não é mesmo? Com certeza essa turma não dá a mínima. O lance é só a aparência, a imagem, tanto aquela para os outros, como aquela refletida de forma deturpada no próprio espelho. Essa gente, só porque repete chavões sensacionalistas e compartilha textos ridículos de Sakamoto e Duvivier, já se sente a alma mais nobre que vagou pelo planeta. Estão contra os “gananciosos”, a “elite”, os “insensíveis”. Como é fácil a vida dos hipócritas!

O monopólio dos fins nobres dispensa o chato debate calcado em argumentos e fatos. A demonização dos adversários ideológicos, tratados como inimigos, é suficiente para a sensação de regozijo pela suposta superioridade moral. A repetição de slogans elimina a necessidade de estudo aprofundado sobre os assuntos. Os aplausos dos pares, todos em busca dos mesmos objetivos, garante o peso da quantidade, e a manada sempre compensou parcialmente a mediocridade individual.

A turminha perdeu mesmo qualquer senso do ridículo. O negócio é ser ganancioso, da elite, insensível e intolerante com qualquer divergência, mas depois acusar os outros de tudo isso, diante de um espelho, e seguir a vida como se Madre Tereza de Calcutá devesse se curvar diante de tanta nobreza e altruísmo, enquanto o papa Francisco deveria logo de uma vez pedir sua canonização urgente. Amém!

Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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