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17 Jun 2015

VEM AÍ O CASAMENTO INTERESPÉCIES

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Mas o grande culpado dessa coisa é mesmo o STF. Após ter reconhecido a união estável de homem com homem e de mulher com mulher, deixou Maria do Rosário à vontade para reivindicar isonomia, estendo essa união às bestas.

 

Que bicho é este, sô! Simples assim: casamento entre um indivíduo de uma espécie e outro de outra.

“Mas isto é bestialidade!”, dirão espíritos religiosos, “um grave pecado condenado pelas três religiões abraâmicas, a saber: judaísmo, cristianismo e islamismo, na ordem da Revelação”.

“Isto é zoofilia, uma aberração sexual”, diriam os seguidores da Psiquiatria Clássica, de Havelock Ellis, Kraft-Ebbing e outros.

Mas, como se sabe,  a religião é uma fonte infindável de preconceitos e superstições e a Psiquiatria Clássica já foi refutada pela Psiquiatria Pós-Moderna dos doutores Laing e Cooper, bem como do bem pensante Michel Fou Cault!

Que mal pode haver no conúbio de um homem com uma porquinha maneira? E que mal há nas núpcias de uma mulher com um ardente pit-bull?

Foi pensando assim que a deputada Maria do Rosário (PT-RS), gaúcha de 14 costados, lançou na Câmara um projeto de união estável entre o homem (ou mulher) e o animal de ambos os sexos, (mamífero, réptil, ave und so weiter).

Ela alega estar sendo fiel a uma antiga tradição dos Pampas: o barranquemento e além disso poderia a alegar a seu favor a autoridade terapêutica do Analista de Bagé, que nos garantiu que barranquear faz muito bem para desenvolver o membro viril.

Mas se esse projeto entrar na pauta, passando por cima do cadáver do Presidente da Câmara, o pudico Eduardo Cunha?

Bem, se eu fosse um representante do povo, e não um representante de mim mesmo, votaria contra esse projeto. Mas não por razões religiosas, psiquiátricas nem jurídicas. Mas por razões relativas à Ética dos Animais, do filósofo australiano Peter Singer.

Caracteriza-se o casamento, seja ele religioso e/ou civil, um ato em que tem que estar presente o consentimento mútuo. É por isso que o oficiante do ato: padre, pastor, rabino, sheik, juiz-de-paz e/ou pai-de-santo pergunta para os nubentes se é por sua livre e espontânea vontade que desejam contrair núpcias.

Pode-se perguntar ao Sr. Zé das Coves se é por sua livre e espontânea vontade que ele deseja o matrimônio com a porquinha Mimosa, pode-se perguntar para Mimosa se é por sua livre e espontânea vontade que ele deseja se unir em casamento ao Sr. Zé das Coves.

Perguntar a ela pode, responder é que ela não pode, ainda que seja seu ardente desejo, coisa muito pouco provável...

Como até o Lula sabe, porcos não falam. A não ser os suínos Stalin e Trotsky, perdão: os suínos Napoleon e Snowball daquela fábula de George Orwell...

Não podemos dizer que há um consentimento mútuo, mas podemos suspeitar que Mimosa queria mesmo é casar com Big Pig, aquele grande pegador dos chiqueiros do Brasil.

Tenho certeza absoluta – por acaso há certeza “relativa”? – de  que o intrépido Protetor de Todas as Bestas, Peter Singer – conhecido em Portugal como Pedro Cantor – rejeitaria esse projeto de Maria do Rosário como um inominável atentado à liberdade de escolha dos animais.

Mas o grande culpado dessa coisa é mesmo o STF. Após ter reconhecido a união estável de homem com homem e de mulher com mulher, deixou Maria do Rosário à vontade para reivindicar isonomia, estendo essa união às bestas.

Afinal de contas, racionais ou irracionais, somos todos animais...

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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