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11 Dez 2004

Governo: Mau Patrão

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Concluindo, se a igualdade dos marxistas utópicos é impossível, aproximar os contrastes não o é. Mas para obter isso seria necessário que o mau patrão nos deixasse um pouco em paz.

Nada tenho contra o luxo que certas mulheres ostentam através de suas jóias deslumbrantes e de seus vestidos caros. Digo também que viajar a Paris para descortinar a visão luminosa do Natal deve ser delicioso. E o que dizer da recente reinauguração do Scala de Milão, quando foi apresentada a ópera “Europa Riconosciutta, de Antonio Salieri? Certamente foi um momento mágico para quantos tiveram o privilégio de lá estar.

Essas coisas não estão ao alcance da maioria dos brasileiros, mas pertencem à chamada elite. A classe média, da qual faço parte, e que é a que paga mais impostos; sacrifica-se para dar educação, inclusive, superior aos filhos; padece de forma mais acentuada com o desemprego e teme com mais razão o pesadelo da inflação não tem acesso a tais requintes. Nem por isso invejo as pessoas bem-sucedidas. Até admiro aquelas que, ao contrário dos detestáveis novos-ricos, possuem o charme e o bom gosto discreto dos verdadeiramente ricos. Desse modo destôo da mentalidade vigente no Brasil através da qual simula-se odiar a riqueza “pecaminosa” que, na verdade, cada um tanto deseja para si. Aliás, a famosa “luta de classes” baseia-se na inveja e deveria ser estudada não apenas através do fator econômico, mas de elementos psicológicos.

Confesso, porém, que fiquei chocada ao ver estampadas nos jornais do dia oito deste, certas fotos da prefeita Marta (PT-SP), cujo sobrenome devia ser Favre. Trajando riquíssimo vestido dourado, adornada com magníficas jóias, ela é seu marido estavam indo à reinauguração do Scala, onde iriam se juntar ao ministro Furlan e a celebridades mundiais.

Tivesse a prefeita petista já terminado seu mandato não haveria nada demais nisso. Mas sua ausência num momento em que a capital paulista esteve submersa em águas e afoga-se na herança maldita das dívidas municipais, pareceu refletir descaso e inconformismo de quem não sabe perder. Ao mesmo tempo, a prefeita era o contraste gritante com os moradores da periferia, seus eleitores segundo o mito criado pela propaganda.

Mas por que será que somos o país de contrastes sociais tão drásticos? Uma das causas desta distorção, sem dúvida, reside no tipo de Estado que temos, e que se manifesta em seu elemento político, o governo cuja fome de tributos e taxas nunca é saciada, que não cumpre com seus deveres fundamentais, entre eles, a segurança, que atormenta aos cidadãos com sua burocracia e sua ineficiência.

Nesse momento recrudesce a propaganda com vistas à reeleição do presidente da República e a situação da economia brasileira é cantada em verso e prosa. Mas será que certos índices apresentados são mérito do governo? Na realidade o crescimento que se propala é devido ao agronegócio (o inimigo dos sem-terra, segundo seu mentor Stédile) e às grandes empresas que se autofinanciam através de capital de giro, o que lhes garante uma boa taxa bancária. Acrescente-se a calmaria internacional que tem favorecido o mundo inteiro e não só o Brasil, e se compreenderá que do governo apenas se deve esperar que não atrapalhe, o que talvez seja pedir o impossível.

Ao mesmo tempo, em que pese a arrecadação recorde de impostos, aprimoram-se formas de sonegação e cresce a economia informal. São maneiras, tanto de ricos quanto de pobres, de se livrarem dos tributos exorbitantes (que o ministro Palocci disse que não existir). Tal situação significa que o próprio governo estimula a sonegação por conta dos seus exageros arrecadadores.

Entretanto, apesar do propalado crescimento não houve atenuação das diferenças sociais. A classe média encolheu e se o grande empresário prospera, o assalariado perdeu renda. Já o decantado e ligeiro aumento do emprego trouxe salários ainda mais baixos.

Observe-se ainda, que a iniciativa particular paga mal para poder livrar seu lucro que o governo teima em engolir, e os salários baixos refletem a mão-de-obra de pouca qualidade porque a maioria dos empregos no Brasil se obtém com bons relacionamentos e não por mérito ou qualificação profissional.

Ainda com relação à prefeita Marta e seu vestido dourado, é bom que se diga que na riqueza não há nenhum mal, pelo contrário, lembrando, contudo, que a pobreza é o grande peso do atraso sob o qual verga a nação.

Concluindo, se a igualdade dos marxistas utópicos é impossível, aproximar os contrastes não o é. Mas para obter isso seria necessário que o mau patrão nos deixasse um pouco em paz.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:39
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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