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16 Fev 2015

ENEM QUE A VACA TUSSA!

Escrito por 

Numa época em que cada vez mais o conhecimento é valorizado como um instrumento de desenvolvimento socioeconômico e de consciência política, o Brasil está em condições cada vez piores.

 

Estou ficando cansado de repetir que a educação no Brasil é um caso de calamidade pública. Sinto-me como uma voz pregando no deserto…

Numa época em que cada vez mais o conhecimento é valorizado como um instrumento de desenvolvimento socioeconômico e de consciência política, o Brasil está em condições cada vez piores.

Tanto que não conseguimos imaginar qual o futuro de um país em que a maioria é não só analfabeta como também incompetente para fazer qualquer coisa (coisa honesta e produtiva, é claro!).

Um quarto da juventude brasileira não trabalha nem estuda. São os chamados Nem-Nem. Que vergonha nacional!

Os números não mentem e depõem contra o Brasil: em cerca de 160 países, o Brasil ocupa o 88.o lugar em educação básica e o 66.o lugar em educação superior.

Nossa melhor universidade, a USP, está abaixo do 150º lugar no ranking da Times Higher Education, entidade que avalia a qualidade do ensino universitário em todo mundo.

É de sentar no meio-fio é derramar rios de lágrimas ou então soltar estrepitosas gargalhadas, uma vez que o que dá pra rir dá pra chorar, questão de peso e de medida, problema de hora e de lugar.

Há alguns anos venho colecionando “pérolas” do ENEM. Eis aqui algumas delas do vestibular de 2009 em que o tema era Ecologia.

1) “o problema da Amazônia tem uma percussão mundial. Várias Ongs já se estalaram na floresta.”

2) “A Amazônia é explorada de forma piedosa.”

3) “Vamos nos unir juntos de mãos dadas para salvar a planeta.”

4) “A floresta tá ali paradinha no lugar dela e vem o homem e créu.”

5) “Tem que destruir os destruidores por que o destruimento salva a floresta.”

6) “O grande excesso de desmatamento exagerado é a causa da devastação.”

7) “Espero que o desmatamento seja instinto.”

8) “A floresta está cheia de animais já extintos. Tem que parar de desmatar para que os animais que estão extintos possam se reproduzirem e aumentarem seu número respirando um ar mais limpo.”

9) “A emoção de poluentes atmosféricos aquece a floresta.”

10) “Tem empresas que contribui para a realização de árvores renováveis.”

11) “Animais ficam sem comida e sem dormida por causa das queimadas.”

12) “Precisamos de oxigênio para nossa vida eterna.”

13) “Os desmatadores cortam árvores naturais da natureza.”

14) “A principal vítima do desmatamento é a vida ecológica.”

15) “A amazônia tem valor ambiental ilastimável.”

16) “Explorar sem atingir árvores sedentárias.”

17) “Os estrangeiros já demonstraram diversas fezes enteresse pela amazônia.”

18) “Paremos e reflitemos.”

19) “A floresta amazônica não pode ser destruída por pessoas não autorizadas.”

20) “Retirada claudestina de árvores.”

21) “Temos que criar leis legais contra isso.”

22) “A camada de ozonel.”

23) “a amazônia está sendo devastada por pessoas que não tem senso de humor..”

24) “A cada hora, muitas árvores são derrubadas por mãos poluídas, sem coração.”

25) “A amazônia está sofrendo um grande, enorme e profundíssimo desmatamento devastador, intenso e imperdoável.”

26) “Vamos gritar não à devastação e sim à reflorestação.”

27) “Uma vez que se paga uma punição xis, se ganha depois vários xises.”

28) “A natureza está cobrando uma atitude mais energética dos governantes.”

29) “O povo amazônico está sendo usado como bote expiatório.

30) “O aumento da temperatura na terra está cada vez mais aumentando.”

31) “Na floresta amazônica tem muitos animais: passarinhos, leões, ursos, etc.”

32) “Convivemos com a merchendagem e a politicagem”

33) “Na cama dos deputados foram votadas muitas leis..”

34) “Os dismatamentos é a fonte de inlegalidade e distruição da froresta amazonia.”

35) “O que vamos deixar para nossos antecedentes?”

Confesso que estou mais preocupado com o que vamos deixar para nossos descendentes.

Uma breve análise dessa amostragem de tolices e besteirol generalizado revela:  (1) vocabulário paupérrimo;  (2) desconhecimento de coisas elementares;  (3) erros grosseiros de gramática, etc.

Mas no vestibular de 2015, os alunos conseguiram se superar: mais de 500.000 (Quinhentos mil!) tiraram 0 (zero) em redação. Inferência imediata: 500.000 alunos não sabem escrever. São analfabetos.

Como é que conseguiram chegar ao segundo grau, condição indispensável para fazer o vestibular?!

Em “Vergonha nacional” (Folha de S. Paulo, 22/1/2015), Arnaldo Niskier fez uma avaliação do ENEM de 2015:

“Os resultados do ENEM são catastróficos. Houve uma queda de 7,3 no desempenho médio em matemática. Na redação foi pior ainda: 9,7. Vamos caminhando para o fundo do poço”.

E é importante assinalar que português e matemática são duas disciplinas essenciais do conhecimento: a primeira é indispensável para a área de Ciências Humanas e a segunda, para a área de Ciências Naturais.

Mas Niskier prossegue: “Dos 5,9 milhões de candidatos, 529 mil tiraram nota zero na redação sobre publicidade infantil. Ou seja: são estudantes que concluíram o ensino médio, sabe-se lá Deus como, mas padecem dos males do analfabetismo funcional. São incapazes de raciocínios elementares. O que esperar dessa geração?” Resposta: Nada! Absolutamente nada de bom!

O autor menciona “os males do analfabetismo funcional”. Mas quais são eles? O indivíduo sabe ler as palavras de um texto simples – digamos: uma reportagem de jornal sobre a seca em São Paulo – mas não consegue entender o que leu.

Eu sou capaz de ler um texto em finlandês e/ou em turco. Mas se me perguntarem o que entendi do que li, eu responderei imediatamente: “Bulufas, neca de pitibiriba”.

Simples assim: tanto uma língua como a outra são escritas em alfabeto romano e eu sei ler palavras escritas nesse alfabeto.

Assim são os analfabetos funcionais brasileiros que elegeram seu semelhante com 1.400.000 votos para deputado federal por S. Paulo.

Justifica-se, desse modo, o velho provérbio inglês: Birds of a feather will gather together.

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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