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25 Abr 2004

Sísifo, as Danaides e a Política Econômica

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É tempo de se saber que não existe, a rigor, uma “crise econômica”, mas sim uma grave crise social, que é, ao mesmo tempo, econômica, política e moral.

Duas das lendas mais fascinantes da riquíssima mitologia grega e que retratam castigos para toda a eternidade são a de Sísifo que, por ter ludibriado a morte, foi condenado por Júpiter a empurrar morro acima uma enorme e pesada pedra que, sempre que o infeliz estava alcançando o topo, escapava-lhe das mãos e rolava ladeira abaixo e a lenda das Danaides, condenadas ao castigo de encher um barril furado.

Muita gente tida como boa nos meios supostamente acadêmicos e intelectuais sofre da síndrome de Sísifo-Danaides: enquanto empurram as suas pedras ou pensam estarem enchendo os seus barris, acreditam que sua impossível tarefa chegará a bom termo, porque pensam apenas no curto prazo ou, para usarmos a linguagem mais popular de Bastiat, só conseguem enxergar os efeitos que podem ser vistos a olho nu. Mas, como o longo prazo não é tão longo assim – aquela famosa frase de lord Keynes de que no longo prazo estaremos todos mortos não passa de um truísmo de longo prazo e, no curto prazo, de uma apologia ao modo de viver das cigarras! – assim que suas pedras escapam às suas previsões e descem a ladeira, ou que seus barris fazem água por todos os furos, terminam confirmando, com seu lamentável exemplo, a sábia afirmativa de Bastiat de que os bons economistas, além dos efeitos que se vêem, devem concentrar suas análises naquelas conseqüências que, embora difíceis de enxergar a olho nu, podem ser qualitativamente previstas pela boa Teoria Econômica.

Avançando da encantadora tradição helênica e da França do século XIX para o Brasil de hoje, os Sísifos e as Danaides tupiniquins são os que pensam que a política econômica pode resolver todos os problemas do país e que, portanto, se a economia vai indo de mal a pior, com altas taxas de desemprego e baixíssimas taxas de crescimento, é porque a política econômica – especialmente a política monetária – está errada, que é recessiva e que, portanto, deve ser mudada. As pedras que, com esforço, carregam e os barris que, com sofreguidão, tentam encher são as mudanças nos rumos da política econômica, conjunto de intenções tão vago de objetividade quanto vazio de fundamentação e de ligações causais entre si, tais como: redução drástica da taxa de juros, redução da dependência externa, controles sobre os capitais que entram e saem do país, aumento do nível de emprego, retomada do crescimento, redistribuição da renda, redução das desigualdades e outras palavras e expressões mágicas do vocabulário das doninhas politicamente corretas.

Os Sísifos do keynesianismo e as Danaides do socialismo têm o mesmo defeito: usam antolhos e sofrem de astigmatismo, só enxergam o curto prazo, os efeitos imediatos do que propõem. Não conseguem estabelecer relações de causa e efeito que, quase sempre, levam a que, na ausência de coordenação entre as áreas política e econômica e na falta de instituições confiáveis, fazem com que os resultados de longo prazo de suas propostas sejam exatamente os opostos aos pretendidos. Comportam-se como insensatos que, atingindo a euforia após uma ou duas taças de vinho, continuam a beber indefinidamente, até que lhes sobrevém a ressaca ou, após muitas reincidências, coisa pior.

É tempo de se saber que não existe, a rigor, uma “crise econômica”, mas sim uma grave crise social, que é, ao mesmo tempo, econômica, política e moral.  Atacá-la isoladamente – mesmo que usando remédios recomendáveis, como soe ser a atual política de Palocci e Meirelles -, sem coordenação com o que se faz na área política e, sobretudo, sem o enfrentamento da verdadeira causa dos males, que é o relativismo moral instalado em todos os órgãos, ossos, artérias e demais integrantes do organismo social, é como carregar pedras pesadas ladeira acima, ou como encher barris que mais parecem peneiras.

Para que possa libertar Sísifo e as Danaides de seus castigos – o que podemos entender como a libertação dos cidadãos brasileiros da aparentemente eterna crise social - a política econômica corrente, que busca assegurar a estabilidade de preços e a responsabilidade nas contas públicas, precisa ancorar-se em instituições políticas opostas às que existem no Brasil, vale dizer, em um sistema político que coopere – e não que entre em confronto - com a responsabilidade fiscal.  E ambas, a política e a política econômica, devem refletir valores éticos e morais sólidos, há muito abandonados, na medida em que, paulatinamente, tanto os formuladores quanto os agentes econômicos, jurídicos e políticos foram se afastando dos princípios milenares e consolidados da tradição judaico cristã, acreditando na morte de Deus e na pretensa liberdade do super-homem de Nietzsche e seguindo os passos do relativismo moral, caminho certo para o precipício.

A política econômica só – mesmo que esteja correta – não faz verão!

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:32
Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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