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26 Jan 2015

NEM OITO NEM OITENTA

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Como quase sempre acontece, o recurso à violência só parece ser bom no curtíssimo prazo, mas pode provocar reações poderosas e até desproporcionais por parte dos atingidos, acabando por enfraquecer a posição de simpatia ou neutralidade que porventura eram dirigidas à causa dos imigrantes islâmicos.

 

Por oito, entendamos os acontecimentos recentes do brutal ataque terrorista que resultou na morte de vários jornalistas do semanário satírico francês Charlie Hebdo, além de mortes e ferimentos em policiais e reféns de sequestros por fundamentalistas islâmicos, durante a operação sinistra e na caçada policial que se seguiu à mesma.

Os argumentos são poderosos: liberdade de imprensa, respeito aos valores democráticos do mundo ocidental, rejeição por extremistas religiosos a uma crítica “ácida e sagaz”.  Acrescenta-se, ainda, que os islâmicos deveriam aceitar as críticas mordazes a Maomé da mesma maneira que os cristãos aceitam as que são dirigidas a Jesus pelo mesmo jornal.

Ainda mais, alega-se que os imigrantes devem adaptar seus hábitos, costumes e vestimentas aos do país que os acolhe, não tendo direito de exigir que os costumes que trazem de outras terras sejam adotados ou tolerados no país hospedeiro.

Por oitenta, a visão dos muçulmanos como cidadãos de segunda classe, reclusos a guetos nas cidades francesas, sem oportunidade de empregos decentes e reprimidos no seu modo de vida, como no caso da proibição do uso do hijab, o véu feminino, nas escolas francesas. Além disso, a generalização de termos como árabes, islâmicos, fundamentalistas, é sempre feita da maneira mais prejudicial aos estrangeiros, como se todos fossem iguais aos piores representantes desses grupos, cuja conduta violenta, aliás, é veementemente condenada pela grande maioria dos mesmos.

Alegam ainda, que não se trata de atacar a liberdade de imprensa, mas, sim, de reagir contra a irresponsabilidade da imprensa xenófoba e racista, que dirige a seus alvos não europeus caricaturas extremamente grosseiras, desrespeitosas e sacrílegas, não tolerando o que é considerado sagrado pelos imigrantes.

O argumento de que os cristãos aceitam as caricaturas ofensivas a seu Deus não pode ser generalizado para todos os crentes, pois embute uma ideia de superioridade da conduta e do pensamento ocidentais sobre os demais, que deveriam imitá-los.  A sensibilidade a ofensas também é relativa: se chamarmos um branco de “albino” e um negro de “macaco”, a ofensa será apenas aparentemente igual para ambos.

Entre o oito e o oitenta, contudo, existem dezenas de algarismos, para ficarmos apenas no terreno do que a matemática chama de números inteiros.

Com toda a certeza, a faixa justa de relacionamento entre os dois campos fica em algum lugar no meio do caminho, em alguns casos mais próxima do oito, em outros, do oitenta.

As reações ao massacre injustificado dos jornalistas têm ficado perigosamente próximas da zona vermelha do espectro dos conflitos. Se a passeata de milhões de pessoas em Paris, com a presença de dezenas de Chefes de Estado solidários ao sentimento de dor dos franceses ficou dentro dos limites do razoável e civilizado, mesquitas muçulmanas foram alvos de atentados, apedrejamentos, incêndios e outras manifestações violentas.

Na Alemanha, ganharam força as passeatas xenófobas e neonazistas.

A extrema direita francesa, representada principalmente pela Frente Nacional, saiu fortalecida, alegando que os acontecimentos funestos confirmam suas denúncias e bandeiras de luta. Sua principal representante, Marine Le Pen, dona de um discurso islamofóbico e defensora de políticas antiimigração, é forte candidata nas próximas eleições presidenciais francesas.

Quanto aos terroristas, não me parece que tenham tido muita vantagem.

Se, por um lado, mostraram sua audácia, destemor suicida, preparo militar e capacidade de amedrontar um país inteiro por algum tempo, por outro deram munição aos que os combatem, geraram um movimento mundial de solidariedade aos franceses, aumentaram as desconfianças europeias quanto aos islâmicos em geral, provocaram uma caça às bruxas que já resultou em dezenas de prisões de líderes muçulmanos por incitação à violência, e, por certo, acabarão em controles muito mais rígidos sobre a movimentação de pessoas entre a Europa e o Oriente Médio.

Como quase sempre acontece, o recurso à violência só parece ser bom no curtíssimo prazo, mas pode provocar reações poderosas e até desproporcionais por parte dos atingidos, acabando por enfraquecer a posição de simpatia ou neutralidade que porventura eram dirigidas à causa dos imigrantes islâmicos.

Clovis Puper Bandeira

Nascido em 28 Fev 45 em Pelotas - RS

General de Divisão da Reserva do Exército Brasileiro

Ex Vice-Presidente e atual Assessor Especial do Presidente do Clube Militar

Principais funções na carreira militar:

- Instrutor da AMAN e da ECEME

- Aluno do US Army War College - EUA

- Comandante do 10º BI - Juiz de Fora - MG

- 1º Subchefe do Estado-Maior do Exército - Brasília - DF

- Comandante da 17ª Brigada de Infantaria de Selva - Porto Velho - RO

- Chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazonia - Manaus - AM

- Diretor de Especialização e Extensão - Rio - RJ

- Comandante da 3ª Região Militar - Porto Alegre - RS

- Chefe do Departamento de Inteligência Estratégica do Ministério da Defesa - Brasília - DF

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