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24 Abr 2004

Quem Tem Olhos Para Ver?

Escrito por 

Durante as últimas décadas foi-se tornando explícita a desastrosa ideologização e politização de extensos setores da Igreja Católica (...)

Durante as últimas décadas foi-se tornando explícita a desastrosa ideologização e politização de extensos setores da Igreja Católica, numa seqüência que começou com a preparação do terreno pelos Cristãos para o Socialismo (CpS), avançou com a concepção de uma Igreja Popular, ganhou suposta base filosófica através de uma certa Teologia da Libertação (TL) e se ramificou com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).  No fundo, era tudo biscoito marxista molhado em água benta e servido segundo a estratégia de Gramsci (embora tenha determinado, inclusive, diversas formas de militância revolucionária armada na América Latina).

Essas idéias ganharam os seminários, encantaram certos segmentos da hierarquia, coincidiram com a ostpolitik do Vaticano nos anos 60 e 70, influenciaram o Concílio Vaticano II, fizeram adeptos em expressivos segmentos da intelectualidade leiga e cativaram a tal ponto a maioria das editoras religiosas que por volta dos anos 80 era quase impossível encontrar um livro católico que não estivesse contaminado pela TL. Foi terrível a influência dessas idéias sobre a nossa CNBB. As assessorias da entidade editavam textos e documentos que funcionavam como esponjas do credo marxista dos autores da moda, cujos nomes necessariamente enfeitavam as notas de rodapé: Leonardo Boff, Frei Betto, Jon Sobrino, Pablo Richards, Gustavo Gutierrez, entre outros. As próprias assembléias da entidade ganhavam destaque pelo conteúdo político dos depoimentos dos participantes (embora deva reconhecer que as resoluções finais, sem muita divulgação, vinham sob o resguardo de certa moderação e de alguma espiritualidade).

Em seus depoimentos pessoais, contudo, muitos de nossos bispos e a maioria dos dirigentes da instituição que os congrega juntavam-se aos mais contundentes críticos de todos os governos, em afinada sintonia com o discurso demagógico, utópico, voluntarista, esquerdista, oposicionista e oportunista do Partido dos Trabalhadores.

Sempre apontei o desvio em que incorriam. Sempre identifiquei essa distorção e perda de foco entre as causas da deserção de muitos fiéis que fluíam para outros credos em busca da espiritualidade que a minha Igreja estava se omitindo em lhes proporcionar. Sempre esclareci que o amor cristão aos pobres não se pode confundir com o ódio comunista aos ricos. Sempre sustentei a importância das autonomias. Sempre disse que a política é um espaço dos leigos e não dos seus pastores nem dos documentos eclesiais.

Ajudaram a construir e saudaram a vitória petista em 2002 como a concretização do Reino de Deus. Lá estava Frei Betto, primum inter paris, ao pé da orelha de seu messias de Garanhuns. O humilde metalúrgico do ABC arribava, enfim, à Brasília terrestre, montado no burrico de sua simplicidade. Com a diferença de que Lula chegava melhor do que Jesus em Jerusalém. O marido da dona Marisa vinha para instaurar o reino definitivo. A estrela de Belém avermelhou-se e se instalou nos jardins do Alvorada. Hosana!

No entanto, o homem das promessas desembarcou na terra prometida para não cumprir qualquer delas, fazendo com que a fração esquerdista da CNBB se escabele e abandone o barco no meio da tempestade. O barbudo em quem depositaram suas esperanças precipitou-se do trono de nuvens desde o qual julgava, dedo em riste, os bons e os maus, caiu com sua incompetência sobre o banco duro das realidades, e não faz milagre algum. Não acalma as águas, não multiplica os pães, não põe a correr os vendilhões. Deixou o burro a pastar e adquiriu um avião novinho em folha. Uniu-se aos fariseus, aos doutores da lei, aos trocadores de moeda e virou, ele mesmo, cobrador de impostos.

E lá estão nossos bispos, ao tempo em que escrevo estas linhas, na Assembléia de Itaici. Os que dão declarações à imprensa desancam o governo e insistem nos mesmos e velhos erros de desrespeitarem as autonomias e de enveredarem no terreno escorregadio das opiniões. Impossível não concluir, então, que sua harmonização com o PT era afinada especialmente pelo diapasão ideológico e demagógico, vale dizer, pela ignorância e pela bravata. Quem tem olhos para ver, vê.

Mas minha tristeza tem razões ainda mais graves. Enquanto, desde Itaici, apontam o rabo do governo, percebo um esforço em minimizar a triste realidade revelada por pesquisa encomendada pela instituição, na qual foram incluídos quesitos sobre a conduta sexual do clero. E aí, os mesmos que palpitam a respeito de todos os governos, falando sobre o que não entendem nem está em sua alçada, descuidam, com conseqüências gravíssimas, do que permanece sob sua inequívoca e direta responsabilidade pastoral. Atrapalham-se na gestão dos seminários e na formação de seus quadros sacerdotais, mas se julgam autorizados a dar receitas à administração pública, aos governos, à economia e às finanças nacionais e internacionais.

Não, não sou católico por causa dos que assim procedem, nem deixarei de ser pelo que fazem. Felizmente ainda há muitas e santas exceções. Não me farão perder a fé.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:32
Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

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