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24 Abr 2004

Frutos do Relativismo Moral

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Os últimos dias parecem que levaram o caldeirão social brasileiro para o trágico desfecho, típico daqueles momentos históricos em que as regras morais da tradição foram substituídas, por inteiro, pelo relativismo moral.

Os últimos dias parecem que levaram o caldeirão social brasileiro para o trágico desfecho, típico daqueles momentos históricos em que as regras morais da tradição foram substituídas, por inteiro, pelo relativismo moral. O mesmo relativismo que foi o caldo de cultura em que mergulhou o século XX no mais nefando momento desde que começáramos registros da História. A vida humana perdeu completamente o valor; honra, família, moralidade pública, tudo isso foi sacrificado no altar hedonista dos aventureiros políticos. As Grandes Guerras mundiais, as pequenas guerras localizadas, o holocausto, o crime organizado como jamais houve, o império dos instintos desenfreados soltos, atendendo a todos os apetites, é isso que se tem visto desde então.

Dinheiro, poder e sexo formam o trinômio sobre o qual as grandes tragédias foram construídas. Em outros termos, à perda da consciência moral do legado judeu-cristão corresponde o circo de horror e sangue que tem se arrastado desde a virada dos 1900. A Revelação tem seu lado prático, servindo para a construção do caminho reto, além do qual haverá o inferno na Terra. Abandoná-la equivale a regredir milênios.

Uma das conseqüências políticas mais notáveis desse processo foi a crescente exorbitância estatal, não apenas regulando a vida privada - provou-se que a moral politizada é apenas um arremedo da verdadeira moral, residente no indivíduo - mas tornando-se ele mesmo um parasita de enormes proporções, a absorver crescente parcela da renda dos cidadãos produtivos, na suposição de que, assim, patrocinaria a distribuição da renda e melhora no bem-estar coletivo. Os EUA começaram o século XX arrecadando menos de 10% de seu PIB, número não muito diferente com que tínhamos por aqui. Os homens públicos de então tinham noção da imoralidade hedionda de se taxar os seus concidadãos além de um certo limite. Que diferença dos tempos de hoje!

Sob o discurso supostamente progressista, o que se viu foi à criação, em paralelo, de duas hidras mafélicas: a burocracia estatal e as legiões que fizeram do Estado a sua fonte de renda,  sob as diversas formas, especialmente a Previdência Social. Desde então os déficits públicos foram crescentes e nunca mais os recursos da arrecadação foram o bastante para cobrir as necessidades do Estado.

Essas reflexões vieram-me a propósito da manifestação do procurador-Geral da República, Cláudio Fontelles, sobre a suposta inconstitucionalidade da cobrança da contribuição dos inativos, instituída pela reforma que tentou dar alguma racionalidade ao maior de todos os problemas de financiamento do Estado. Onde estava o procurador - ou o seu antecessor no cargo -, quando instituíram as isonomias, os direitos adquiridos, a concessão, em profusão, de "direitos" sacados contra os que pagam impostos, a concessão de "anistia" para os supostos perseguidos pelos governos militares, em vergonhosa ação entre amigos, em prejuízo do Erário? Onde estava quando mudaram as regras da Cofins, que subtraiu - uso de propósito o jargão policial - valor considerável das rendas de quem trabalha? Onde estava quando inventaram a nefanda CPMF?

É lícito e justo aumentar, a cada período, a carga tributária? Onde está o limite para a sua expansão? Infelizmente, para gente como o procurador-Chefe não há limite moral algum, é um mero exercício do poder de Estado arbitrar o volume dos impostos contra os inermes cidadãos, que fazem do trabalho honesto o seu cotidiano, objetivando garantir os privilégios das corporações. Alimentam os parasitas sociais.

A manifestação de Fontelles não casualmente coincidiu com a matança dos garimpeiros pelos índios em Mato Grosso, dos presos pelos amotinados em Rondônia, dos inocentes pelos traficantes em confronto com policiais no Rio de Janeiro, dos inocentes pelo agigantamento dos indicadores de criminalidade pelo País afora. Coincidiu também com a divulgação dos números do morticínio calamitoso dos jovens do sexo masculino em todo o Brasil, em montante muito além do que se vê nas guerras em curso, um sacrifício que clama aos céus. A crise de autoridade está ao olhar de todos. Se os homens públicos armam-se do relativismo moral, fazendo das leis um baluarte para criar e manter os nojentos privilégios, é uma mera questão de tempo que as massas possam fazer o mesmo e também passem a se rebelar contra esse estado de coisas. A sensação de que trouxa é quem trabalha espalhou-se por toda a gente. O gado trabalhador está cansando de ser ordenhado. É Beemoth, aquela primitiva fera sanguinária devoradora de homens, levantando-se, no apogeu de sua anarquia. Já se pode ouvir o roncar do Leviatã acordando, seu oponente natural e único capaz de enquadrar a fera assassina.

Anomia e injustiça não servem de base para longevidade das instituições democráticas.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:32
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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