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24 Nov 2004

O Mito da Discriminação Ao Imigrante nos EUA

Escrito por 

Mas, discriminação intelectual de verdade é aquela na qual falsários são pagos com dinheiro público para espalhar mentiras.

“A melhor maneira de aprender a ser tolerante é conviver todos os dias com gente de outras culturas.”
Aluno da escola secundária J.E.B. Stuart, Virgínia, EE.UU.
(National Geographic Brasil, setembro de 2001).

Os suplementos culturais dos jornais, geralmente são relegados a segundo plano. O caso do Valor Econômico, por exemplo, é bastante sintomático, já que o jornal trata de economia e da política quando estreitamente relacionada à própria economia. Mas depois da dança das cotações das ações da bolsa, da crítica aos subsídios externos e ao clamor dos mais sensatos por juros e carga tributária menores, o que resta? A análise da política passa de modo rasteiro. Muitas vezes, sem dar nome aos bois ou revelar interesses, lobbies etc. Já, o que pode se chamar de “análise cultural”, sintomaticamente tem sido um espaço para auto-afirmação terceiro-mundista e antiamericanismo inconseqüente. Principalmente, se levarmos em consideração que em ano eleitoral americano, o discurso anti-Bush, em parte por razões ideológicas, em parte por ignorância mesmo, aproveitou o momento para esvaziar seu bolsão de veneno e desinformações a respeito dos EE.UU.

Dia 13 de agosto passado, o suplemento Eu& do Valor trouxe matéria criticando a expansão econômica norte-americana. Nada de novo no front ideológico socialista, não fosse a matéria, um alerta sobre a supressão das identidades culturais das minorias nos EE.UU. Impressiona esta crítica ao país, uma vez que o mesmo é consagrado internacionalmente, mesmo por quem não o admira nem um pouco, como o mais internacionalizado, inclusive no plano cultural. Como é amplamente sabido, a taxa de migração líquida anual nos EE.UU. é a maior do planeta(1).  Isto deveria dizer muito sobre o caráter multinacional do país. A maioria, latino-americana que formam seus guetos, barrios nas grandes metrópoles americanas. Como se isto não bastasse, Nova York, que abarca cerca de 100 comunidades diferentes, existem 50 jornais publicados em idiomas diferentes e o espanhol já é o segundo idioma mais falado no país. E para que não reste dúvidas sobre a suposta discriminação que recebem os imigrantes por parte do governo, desse 1.000.000 de recém-chegados, segundo o Censo de 1998, 660.477 obtiveram visto de residência permanente no país(2).  Estranho este país que “discrimina” tanto assim os imigrantes, mas fornece visto permanente para a maioria dos que vêm provar as delícias do capitalismo...

Mas como um editor de um veículo de comunicação especializado em economia consegue publicar uma matéria tão ridiculamente maniqueísta como a que me referi? Na verdade, se olharmos bem, isto faz parte de um amplo espectro cultural que se moldou no país há décadas. Tomemos a educação básica como referencia, os livros didáticos no Brasil têm grande cota da responsabilidade da desinformação e/ou de meias-verdades que coalham nosso ideário político-cultural. Estão permeados de informações tendenciosas. Só para reforçar nosso exemplo, muito se fala sobre a lei de migração dos anos 30 que previa cotas para migrantes não anglo-saxões (num contexto de crise econômica brutal), mas nada se diz sobre sua extinção em 1965(3) , bem como a lei que admitia o apoio a refugiados políticos(4).

Vocês devem estar que estou exagerando? Então, vejamos isto aqui

“A legislação atual (sic) dos Estados Unidos é extremamente restritiva à entrada de imigrantes. Os consulados têm sido mais rigorosos na concessão de vistos de entrada aos turistas latino-americanos, africanos e asiáticos(5)".

Não, o livro não é posterior a 2001, a qualquer atentado de terroristas islâmicos, não. É de 1998...

Vejamos aqui que interessante seria comparar a estapafúrdia afirmação do professor de geografia do ensino médio acima(6) com informações do Censo americano do mesmo ano:
- Em 1998 entraram 17.649 vietnamitas, quase 70% por motivos de “reencontro familiar”;
- 34.466 filipinos, 57% para o Havaí;
- 14.268 sul-coreanos, dos quais, um em cada três foi trazido diretamente por empresas americanas;
- 42.159 chineses sendo 5.275 de Hong Kong. Nada mais nada menos que o segundo maior contingente depois dos mexicanos;
- 36.482 indianos, dos quais 20% já se encontram nos EE.UU. com visto temporário de trabalho;
- 13.094 paquistaneses, dos quais quase 4.000 foram para Nova York e mais de 1.700 para a Califórnia;
- 10.190 do Canadá(7);
- 11.529 russos, sendo que mais de 1/3 foi de crianças adotadas;
- 7.448 ucranianos, cuja metade foi de refugiados ou asilados;
- 8.469 de poloneses, fluxo que se intensificou com o fim da Guerra Fria;
- 9.018 britânicos. O Reino Unido, como se sabe, já foi a principal fonte de imigrantes, hoje só responde por 1,3%. Graças ao Plano Marshall no Pós-Guerra e a thatchernomics nos anos 80, o próprio país se constitui em pólo de atração;
- 7.746 nigerianos, o primeiro fluxo de africanos, seguidos pelo Egito com 4.831. (E eu que pensava que o principal desejo da maioria deles era viajar para Meca...);
- 17.375 cubanos, a maioria de refugiados com permissão para sair da ilha-presídio. (Cansaram de “construir o socialismo”);
- 48.982 de caribenhos, dentre os quais se destaca a Jamaica, o Haiti e a República Dominicana que formam 20% dos novos imigrantes em Nova York;
- 131.575 mexicanos que é de longe o maior número, mesmo sem incluir os ilegais. (E tem professor de geografia que jura de pés juntos que eles são explorados assim que chegam do outro lado do Rio Grande);
- 11.836 colombianos onde 70% já eram parentes próximos de cidadãos americanos;
- 10.154 peruanos sendo Nova Jersey o principal destino;
- E, at last but not least, 4.401 brasileiros dos quais sabe-se que o número de imigrantes ilegais é bem maior(8).
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  <P><font color="#FF0000" size="2"><strong>Abaixo vemos um flagrante de “discriminação” a monges budistas em Los Angeles:</strong></font></P>
  <p><img src="/img/mito.jpg" width="300" height="207"></p>
</div>
Nos anos 90, a população dos EE.UU. aumentou em 33 milhões de pessoas, e os imigrantes constituem 1/3 desse número. Hoje, os brancos de origem européia são da ordem de 69,2%. A previsão para 2050 é que sejam de 52,8% devido a maior natalidade dos grupos imigrantes. Eu gostaria imensamente de saber que “legislação extremamente restritiva à entrada de imigrantes” vê aí, o professor Elian Alabi Lucci ou que “anulação da identidade das minorias” vê aí o professor Naoki Sakai da Universidade Cornell na supracitada matéria do Valor? É fácil ser um ideólogo, difícil é saber se ater aos dados e fatos.

Portanto, o que há de factual na afirmação de “supressão” ou “anulação de identidades culturais” nos EE.UU.? Confunde-se isto, muitas vezes propositalmente, com uma certa diluição cultural, sincretismo de uma sociedade avançada economicamente. Mas, “supressão”, pelo contrário, é um termo preciso. Algo como ensinar o russo como idioma único numa “comunidade” de 15 repúblicas com mais de 100 idiomas... “Condição necessária” para que todos os povos circunscritos pudessem criar o “novo homem do comunismo”. Isto é um fato mensurável e não um simples insight tendencioso de quem quer ver “pêlo em ovo”. Uma vez perguntei a um russo aqui no Brasil o porquê desta prática de unificar o idioma, ao que o sujeito, professor de física me respondeu que “era pra criar um povo único”. Sim, claro que sim, à imagem e semelhança da 3a Roma. Engraçado que, assim que puderam, emigraram rapidinho de lá...

Mas, voltando ao “supressor de identidades culturais”:

“(...) devido às conquistas do movimento pelos direitos civis e ao Ato de Imigração e Nacionalidade de 1965 (...) os americanos vêem seu país como uma sociedade multiétnica e multirracial e endossam esses valores” (Samuel P. Huntington)(9).

Qual a diferença desta análise para a do professor/autor brasileiro e para a de Sakai? É que esta vê História, vê Evolução, vê Mudança. Já aquelas, apenas mantém uma tosca visão preconceituosa e interessada em disseminar uma coisa: a mentira. Conscientemente ou inconscientemente, não importa, o resultado é desprezível da mesma forma.

Embora o principal fluxo em meados do século XIX tenha sido anglófono, a maior carga de imigrantes antes da I Guerra Mundial incluía idiomas como iídiche, italiano, polonês, alemão, russo, sueco e outras. Como pode haver discriminação aí, especialmente se levarmos em consideração que já naquela época, mais da metade daquelas pessoas não falava inglês. Hoje em dia, por outro lado, com o grande fluxo latino-americano, mexicano especialmente, temos uma concentração espacial (nos estados do sudoeste) que dificulta sua própria assimilação.

Em 2003, mais de 40% da população de Hartfort, Connecticut, era composta de hispânicos. A própria cidade já teve seu prefeito hispânico e o espanhol vem sendo usado como língua oficial no comércio, bem como no governo ao lado do inglês. Para que não se diga que este é um “caso isolado” de uma “cidadezinha”, 46,5% dos habitantes de Los Angeles em 2000 eram também hispânicos e a projeção para 2010 é de que seja mais da metade.

O problema potencial analisado por Huntington é que o sudoeste (do Texas à Califórnia) pode virar o “Quebec dos EE.UU.”, pois diferentemente das imigrações anteriores, a relutância dos novos cidadãos americanos em abandonar alguns dos traços culturais de origem, os coloca em situação de inferioridade nas salas de aula, mesmo sendo da terceira ou quarta geração no país. Isto tende a se refletir no nível educacional, na renda familiar e nos casamentos interétnicos. Claro que não reflete discriminação, pois é justamente devido à permanência da cultura imigrante que tal defasagem se mantém. Coisa que Lucci e Sakai ignoram é que existe um lobby hispânico no Congresso americano que ajuda a manter o ensino bilíngüe no país. O foco de análise das causas das diferenças interétnicas por parte de nossos professores é que está errado.

Outro critério para avaliarmos como o imigrante é tratado é ver a folha salarial do funcionário público. Policiais e bombeiros bilíngües em cidades como Las Vegas e Phoenix ganham mais do que os que só falam inglês. Em Miami, as famílias que só falam espanhol tem uma renda média de US$ 18.000; as que só falam inglês, US$ 32.000; e as que falam os dois idiomas, mais de US$ 50.000.

Boa “discriminação” essa, não?

Mas, discriminação intelectual de verdade é aquela na qual falsários são pagos com dinheiro público para espalhar mentiras.

Se estivermos tratando de conceitos abstratos como “supressão”, até se admite o debate. No entanto, quando se fala em “discriminação” que tem conceito legal preciso, o caso dos professores mencionados é de estelionato pedagógico.


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Referências:

1. Segundo o censo de 2000 só na década de 90, o fluxo de imigrantes – legais e ilegais – alcançou o número recorde de 1.000.000 de pessoas por ano. Hoje, 10% dos 281 milhões de habitantes dos EE.UU. nasceu em outros países.

2. National Geographic Brasil (NGB). A nova cara dos EUA. Setembro de 2001, p. 78.

3. Em 1965, as cotas foram abolidas pelo Congresso, informação que, dentre tantas outras, é sistematicamente omitida pelos nossos professores/autores de livros didáticos. Como conseqüência, de 1965 até os dias atuais, 60% dos imigrantes vieram da Ásia, África e América Latina. Como diz o ex-diretor do censo, Kenneth Prewitt, “estamos na iminência de sermos o primeiro país da história que é literalmente formado por gente de todo o mundo” (NGB, op.cit., p. 72).

4. Nem interessa aos críticos dos EE.UU. que no inicio dos anos 80, Washington D.C. tenha acolhido refugiados de guerra afegãos e que em 2001 essa comunidade, por sua vez, tenha apoiado outra leva de imigrantes que chegava (idem, p. 84).

5. LUCCI, Elian Alabi. Geografia: O Homem no Espaço Global. Editora Saraiva : São Paulo, 1998, 3a edição, p. 240.

6. Não estou sendo irônico, pois este tipo de ignorância, costumo encontrar com freqüência, sobretudo, na academia. Para dizer a verdade, na maioria dos casos...

7. No mesmo ano 4.140 americanos foram para o Canadá. Ainda assim o saldo permanece positivo para os EE.UU., em que pese o fato do sicofanta Michael Moore afirmar que o Canadá é um país bem melhor que os EE.UU. Ainda assisti um dia desses, no canal GNT, após as eleições que deram vitória a George Walker Bush que a emigração para o Canadá havia se intensificado justamente devido ao resultado do pleito... Obviamente, o canal delimita e prioriza a informação que acha mais conveniente. E eles chamam isto de “jornalismo”!

8. NGB, op. cit., p. 78.

9. HUNTINGTON, Samuel P. “O desafio hispânico” in: Política Externa. USP/IEEI, Volume 13, número 1, 2004, p. 39.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:44
Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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