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07 Ago 2014

FALTA DE VERGONHA NÃO TEM PARTIDO

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Se templo é dinheiro, também é votos. Para remediar a situação e inaugurar o templo, o prefeito Fernando Haddad, do PT, emitiu um exótico alvará de evento. Ao qual não faltaram a presidente Dilma Rousseff, o vice Michel Temer (PMDB) e o governador Geraldo Alckmin, do PSDB.

 

O bispo Edir Macedo é um personagem no mínimo admirável. Filho de católicos praticantes, começou sua carreira em 63, aos 18 anos, como um funcionário público na Loteria do Estado do Rio de Janeiro, a Loterj e trabalhou no IBGE como pesquisador no censo econômico de 1970. Aos 19 anos, abandonou a igreja de Roma e tornou-se cristão evangélico, ingressando na Igreja de Nova Vida. Próximo a completar 16 anos de carreira como funcionário público, deixou o cargo para se dedicar à obra de Deus, o que na época foi considerado uma loucura.

Que Deus? Há dois anos, perambulando por Lisboa e com vontade de ler algo divertido, comprei o primeiro volume de sua biografia, Nada a Perder, na época liderando a lista dos mais vendidos em Portugal. Em mais de 200 páginas, não especifica de qual deus se trata. É mais ou menos aquele do Antigo Testamento, mas Macedo não o define com precisão. É mais um deus à la carte, uma espécie de máximo divisor comum, para agradar gregos e troianos, evangélicos e romanos.

Começou sua carreira de homem de deus como começa todo camelô, pregando ao ar livre, em um coreto em uma praça do Méier, no Rio. Em 1977, decidiu fundar sua própria igreja, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), cuja primeira sede funcionava no prédio de uma antiga funerária, na Zona Norte do Rio.

Hoje, 37 anos depois de sua arrancada evangélica, tem mais de seis mil templos e 1,8 milhão de fiéis no Brasil, segundo o IBGE, e quase 10 mil pastores. Está presente em mais de 200 países, sendo mais disseminada nas nações de língua portuguesa. É a quinta maior instituição no Brasil, sendo a quarta maior igreja protestante e a 29ª maior denominação religiosa no mundo, com seis milhões de pessoas. A loucura vingou.

No século XI a. C., o rei Salomão construíu o primeiro templo de Jerusalém, para a adoração de Javé, deus de Israel, onde se ofereciam os sacrifícios conhecidos como kornabot, para agradar o Eterno. A julgar-se pela natureza dos sacrifícios, o templo deveria cheirar como um açougue.

Destruído por Nabucodonosor II da Babilônia, em 586 a. C., após dois anos de cerco a Jerusalém. Em 516 a. C., após o regresso de mais de 40.000 judeus do Cativeiro Babilônico foi iniciada a construção no mesmo local do Segundo Templo, que foi destruído pelo general romano Tito em 70 d.C. Não tendo mais local físico para cultuar Javé, os judeus se refugiaram na Tanak, a bíblia hebraica, que tornou-se, de certa forma, um lar para os judeus dispersos pelo mundo todo.

Neste ano da graça de 2014 d. C. – quase dois milênios após a destruição de Tito – o templo de Salomão ressurge triunfante nesta São Paulo, o maior semental de religiões do país. Mas com nova direção, a do bispo Edir Macedo.

O bispo judaizou sua religião particular. Passou a usar quipá e barba de patriarca veterotestamentário, e distribuiu menorás pelas colunas do novo templo. Não faltou nem mesmo a Arca da Aliança e o hino de Israel. As vestes talares têm as cores da bandeira israelita. O custo estimado da obra é de mais de 680 milhões de reais. Sua capacidade é de mais de dez mil pessoas sentadas na nave principal, o que o torna o maior templo do País, deixando atrás a Basílica de Aparecida. O altar e a fachada do templo foram feitos com pedras nativas de Israel. Para Macedo completar sua obra, só estão lhe faltando as 700 esposas e 300 concubinas do sábio rei Salomão.

Como todo homem de Deus, Edir Macedo teve seus percalços com a justiça do homens. Em 1992, foi preso sob acusações de charlatanismo e curandeirismo. Inocentado das acusações, foi liberado após onze dias. Apontado pela revista Forbes como o pastor mais rico do Brasil, teve seu patrimônio avaliado, em janeiro do ano passado, em quase 2 bilhões de reais. Nada mal para quem na juventude foi um modesto funcionário público. Templo é dinheiro.

Em 2006, foi denunciado pelo Ministério Público por importação fraudulenta de equipamentos e uso de documento público falso e um processo foi aberto pela Justiça Federal. Em 1998 a Receita Federal concluiu procedimento de fiscalização em um lote de equipamentos para TV e rádio importados pela Record e apreendeu uma carga de 1,7 toneladas de aparelhos para radiodifusão cujas notas não foram devidamente comprovadas.

Com base nos documentos enviados pela Receita, o procurador da República André Libonati ofereceu em 2000 denúncia contra Macedo e mais seis diretores da Record. Segundo o Ministério Público, Macedo alega que não tem participação direta no dia-a-dia da Record e que não tinha conhecimento da importação dos equipamentos.

Em 2009, em ação criminal aberta pelo juiz Gláucio de Araujo, da 9ª vara criminal de São Paulo, o bispo e mais nove pessoas ligadas a ele foram acusados pelos crimes de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Segundo a denúncia da promotoria, Macedo e os outros acusados teriam feito desvio de dinheiro de doações de fiéis, também se aproveitando da isenção de impostos oferecida a igrejas de qualquer culto.

Para esconder a origem do dinheiro, o bispo e os outros acusados teriam usado um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo empresas de fachada, no Brasil e no exterior. Os recursos então, voltavam ao Brasil, na forma de empréstimos feitos pelos laranjas de Edir Macedo, sendo usados para comprar empresas. Em alguns casos, Macedo teria fraudado procurações assinadas por estes laranjas para, posteriormente, transferir as ações das emissoras para seu próprio nome ou de pessoas acusadas de participar da quadrilha. Macedo seria o chefe de uma quadrilha que usava empresas de fachada para desviar recursos provenientes de doações dos fiéis da Universal e praticar uma série de fraudes.

Estas denúncias, divulgadas por todos os grandes jornais do país, foram também veiculadas pela Rede Globo e consideradas pela Rede Record, de Edir Macedo, como "desespero da concorrência".

Mais sujo que pau de galinheiro, Edir Macedo inaugurou hoje, impertérrito, seu templo salomônico. Segundo filme exibido, a história bíblica começa com Abraão, Moisés, Davi, Salomão, Cristo e culmina, em 1977, dois milênios depois, com Edir Macedo. A construção do templo está repleta de irregularidades. Segundo editorial do Estadão, o Ministério Público Estadual (MPE) constatou que o templo foi construído com base num alvará de reforma expedido em 2008.

Reforma adicional de 64.519 m², em terreno que tinha área construída de 2.687,32 m², parece inconcebível. Não é preciso ser técnico para perceber o absurdo de considerar o Templo de Salomão uma simples reforma, pois isso desafia o mais elementar bom senso.

Mesmo assim, a Igreja Universal conseguiu na Secretaria Municipal de Habitação o tal alvará, emitido pelo setor responsável, à época dirigido por Hussain Aref Saab, demitido em 2012 por suspeita de enriquecimento ilícito. O certo, para construções de mais de 5 mil m² e 499 vagas de estacionamento, como era o caso - o templo tem dimensões muito maiores e 1,2 mil vagas -, é alvará de obra nova, conforme determina a lei dos polos geradores de tráfego, de 2010. Com isso, a Igreja Universal se livrou do pagamento de 5% do valor da obra - R$ 34 milhões - em contrapartidas e melhorias para o sistema viário no entorno do templo.

Coniventes com o escroque contumaz e com o flagrante desrespeito às leis, comparecem à cerimônia altas autoridades do Judiciário (do STF, inclusive), do Congresso e dos governos federal, estadual e municipal. Com toda pompa e circunstância, hoje foi sacramentada a desimportância da lei.

Se templo é dinheiro, também é votos. Para remediar a situação e inaugurar o templo, o prefeito Fernando Haddad, do PT, emitiu um exótico alvará de evento. Ao qual não faltaram a presidente Dilma Rousseff, o vice Michel Temer (PMDB) e o governador Geraldo Alckmin, do PSDB. As mais altas autoridades da República não hesitaram um segundo em prestigiar o escroque. Mas constrangido mesmo deve ter ficado Fernando Haddad. Enquanto financia o consumo do crack na Cracolândia, teve de ouvir uma longa e mentirosa arenga de um pastor contra a droga.

Edir Macedo rende votos e falta de vergonha não tem partido.

 

 

 

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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