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16 Jul 2014

TRABALHO DE MARQUETEIROS

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E, em vez de um simples resultado esportivo muito adverso, por mais dolo-roso que este seja para o orgulho popular, o custo social, econômico e político será grande.

 

Durante alguns meses fomos submetidos a intenso e eficiente trabalho de marqueteiros, regiamente subvencionados por grandes empresas patrocinadoras, que nos convenceu de que tínhamos uma das melhores seleções de futebol ja-mais reunida e que a Copa realizada no Brasil, a Copa das Copas, era nossa de direito.

Massacrados diariamente por intensa campanha publicitária, vimos o cam-peonato mundial se transformar num oba-oba, num já ganhou, num conosco nin-guém podemos, enquanto ouvíamos entrevistas com o vizinho, a professora, o amigo de infância, a periguete da vez na vida do craque e assistíamos a closes de sua unha encravada, do edema resultante da pancada que recebeu no treinamento, tudo isso transformado em problemas de importância nacional.

Assim, começou a competição e a equipe brasileira, aos trancos e barran-cos, foi passando pelos primeiros adversários com crescente dificuldade, o que é até natural nesse tipo de competição eliminatória.

Até que a realidade inescapável apresentou dois problemas: a suspensão por motivos disciplinares de um dos principais defensores e a lesão grave do prin-cipal atacante e astro de nossa equipe. Isso ocorreu exatamente quando a fase de brincadeiras acabava e restavam quatro equipes disputando as semifinais.

Qualquer que fosse o adversário, seria difícil enfrentá-lo. E coube-nos en-frentar a Alemanha, finalista ou semifinalista nas quatro últimas edições da competição, com uma equipe baseada em excelentes e vitoriosas equipes germânicas, uma delas a campeã europeia deste ano, séria candidata ao título de campeã mundial.

Na hora da verdade, as deficiências da equipe, ainda mais desfalcada, ficaram evidentes e nossa seleção foi derrotada por acachapantes 7 a 1.

Agora, não há mais nada que o marketing, por mais bem remunerado que seja, possa fazer. Diz o velho ditado, contra fatos não há argumentos.

A joia faiscante era vidro e se quebrou.

No cenário nacional algo semelhante acontece.

Há meses, ou mesmo há anos, somos bombardeados por eficiente campa-nha orquestrada pelos mestres da propaganda, regiamente pagos com verbas públicas para divulgar as realizações do governo, muitas vezes com informações deturpadas, meias verdades, números e dados mentirosos ou distorcidos, tudo com a finalidade de manter-nos maravilhados com o desempenho de nossos go-vernantes e dispostos a conceder-lhes a reeleição.

Os fatos que realmente importam, a queda do desempenho econômico; a ineficiência da gestão pública; as deficiências educacionais, de criatividade e de produtividade; a baixa qualidade e remuneração dos salários pagos; a desindustrialização; a maquiagem dos números de desempregados, tirando da amostragem os trinta milhões de dependentes das bolsas-esmola, pois eles não procuram emprego, muito pelo contrário; o gigantismo da máquina estatal, totalmente aparelhada por mais de 20.000 funcionários livremente nomeados pelos políticos; a corrupção desenfreada; a impunidade dos corruptos e dos corruptores; as fraudes nas licitações e contratos, o superfaturamento nas obras públicas etc, nada disso é devidamente informado ou discutido.

Escândalos se sobrepõem a escândalos, os mais recentes apagando os da semana passada, tornando-se banais pela repetição impune.

E nós, iludidos pelo marketing governamental, apreciando as unhas encra-vadas, as bolsas isso e bolsas aquilo, os PAC milagrosos e mentirosos, os números multiplicados ou diminuídos quando há interesse político, as promessas de sempre – que nunca serão cumpridas.
No entanto, um dia a realidade chegará.

E, em vez de um simples resultado esportivo muito adverso, por mais dolo-roso que este seja para o orgulho popular, o custo social, econômico e político será grande.

Os que se locupletam nas verbas públicas não entregarão com facilidade o acesso privilegiado às tetas estatais. Haverá reação, talvez mesmo violência nas ruas, em nome da “democracia”. E mais corrupção, compra de votos, distribuição de benesses aos eleitores.

Todavia, os fatos estão aparecendo. Não há como argumentar contra eles, não podem nem mesmo ser atribuídos à “herança maldita”, pois o partido corrupto e corruptor está no poder há doze anos.

E não haverá marketing capaz de esconder os crimes – e não simplesmen-te malfeitos – cometidos. Teremos que encarar a vergonha de vermos expostas e discutidas nossas mazelas, e teremos de enfrentá-las e pagar o preço para resgatá-las.

Não será fácil nem indolor, mas terá que ser feito.

As miçangas são de vidro e se quebrarão.

Mas a luz da verdade nos mostrará um mundo melhor, mais humano e mais justo. Sem necessidade de marqueteiros.

 

 

 

Clovis Puper Bandeira

Nascido em 28 Fev 45 em Pelotas - RS

General de Divisão da Reserva do Exército Brasileiro

Ex Vice-Presidente e atual Assessor Especial do Presidente do Clube Militar

Principais funções na carreira militar:

- Instrutor da AMAN e da ECEME

- Aluno do US Army War College - EUA

- Comandante do 10º BI - Juiz de Fora - MG

- 1º Subchefe do Estado-Maior do Exército - Brasília - DF

- Comandante da 17ª Brigada de Infantaria de Selva - Porto Velho - RO

- Chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazonia - Manaus - AM

- Diretor de Especialização e Extensão - Rio - RJ

- Comandante da 3ª Região Militar - Porto Alegre - RS

- Chefe do Departamento de Inteligência Estratégica do Ministério da Defesa - Brasília - DF

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