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24 Jun 2014

AS LIÇÕES DO IRAQUE

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Obama está diante de uma situação delicada. Diante de fracassos estratégicos no Iraque, o país se tornou novamente uma peça sensível no tabuleiro de forças do Oriente Médio. Os fatos são claros.

 

Obama está diante de uma situação delicada. Diante de fracassos estratégicos no Iraque, o país se tornou novamente uma peça sensível no tabuleiro de forças do Oriente Médio. Os fatos são claros. A intervenção que retirou Saddam Hussein do poder acabou levando os xiitas ao comando do país, mudando a balança de forças que até então governava Bagdá. Com a eleição do atual Primeiro-Ministro, Nouri al-Malaki em 2006, saiu a minoria sunita e chegou a maioria xiita.

A estratégia dos Estados Unidos era retirar suas forças do Iraque aos poucos, deixando um contingente residual até a consolidação das instituições, impedindo assim um levante contra o novo governo. George W. Bush iniciou a retirada em 2008, com fim previsto para 2011. O processo ocorreu normalmente, mas quando chegou o momento de Obama negociar a permanência de forças residuais, não houve acordo com Maliki. O Iraque, agora xiita, preferia equilibrar a balança de poder na região, aproximando-se do Irã, também xiita, e distanciando-se do Ocidente. Muitos dizem que faltou vontade ou habilidade política da Casa Branca para fazer a negociação avançar.

O fato de Obama não ter conseguido chegar a um acordo com Maliki resultou na retirada total das forças americanas. O país passou a cuidar de si mesmo, sendo o único responsável por sua própria segurança. Mas os erros de Obama se ampliaram. Houve a desastrada intervenção na Líbia, que jogou o país no caos da guerra civil, onde tribos se enfrentam até hoje para ocupar o poder. Depois veio a questão síria, com o desejo de intervir para retirar Assad do comando, o que poderia ter jogado Damasco na mesma situação perigosa onde está a Líbia atualmente.

O que estes exemplos deixam claro é que não pode haver, de parte das forças ocidentais, intervenções sem qualquer planejamento estratégico de futuro. Iraque e Líbia são a prova mais cabal disso. No Egito, onde houve apoio para a destituição de Mubarak, em pouco tempo ficou claro que não havia confiança na figura de Morsi, abrindo-se espaço para chegada de Sissi, que reeditará o governo militar anterior. O Egito, entretanto, ao contrário da Síria, Líbia ou Iraque, possui uma força militar independente e institucional. O mesmo acontece na Turquia, que tem conseguido blindar suas instituições com a força dos militares.

O avanço dos grupos rebeldes sunitas no Iraque, associados a outras milícias radicais que chegam da Síria, era apenas uma questão de tempo, pois sem as tropas americanas o país tornou-se muito vulnerável. Hoje, para manter Maliki no poder e evitar a chegada de um governo islâmico radical liderado pelo ISIS, os xiitas contam com o apoio dos aiatolás iranianos e dos Estados Unidos, curiosamente unidos do mesmo lado contra um inimigo comum.

A questão do Iraque também divide opiniões nos Estados Unidos. Enquanto o libertário Rand Paul diz que a intervenção não foi bem calculada, o conservador Dick Cheney diz que foi a opção correta, mas mal coordenada por Obama em seus momentos finais. De uma forma ou de outra, a situação atual deixa muito claro que intervenções desastradas como na Líbia, ou como estava se desenhando na Síria, precisam ser evitadas e um erro de cálculo como no Iraque, pode colocar tudo a perder. Cada vez fica mais claro que o conceito de democracia ocidental tem dificuldade para se instalar na região e forçar esta situação torna estes países mais vulneráveis e suscetíveis a movimentos insurgentes.

A Primavera Árabe é um grande alerta neste sentido. Os resultados do Egito deveriam pautar os movimentos do Ocidente na região. Criar novas Líbias somente tornará a situação mais insegura. Ajudar rebeldes radicais contra Assad na Síria somente levará insegurança para as portas da Turquia. No Iraque, agora é preciso arrumar a casa e evitar o caos. Uma brutal guerra civil já começou e logo pode chegar até Bagdá.

 

 

 

Márcio Coimbra

Márcio Chalegre Coimbra, é advogado, sócio da Governale - Políticas Públicas e Relações Institucionais (www.governale.com.br). Habilitado em Direito Mercantil pela Unisinos. Professor de Direito Constitucional e Internacional do UniCEUB – Centro Universitário de Brasília. PIL pela Harvard Law School. MBA em Direito Econômico pela Fundação Getúlio Vargas. Especialista em Direito Internacional pela UFRGS. Vice-Presidente do Conil-Conselho Nacional dos Institutos Liberais pelo Distrito Federal. Sócio do IEE - Instituto de Estudos Empresariais. É editor do site Parlata (www.parlata.com.br) articulista semanal do site www.diegocasagrande.com.br e www.direito.com.br. Tem artigos e entrevistas publicadas em diversos sites nacionais e estrangeiros (www.urgente24.tv e www.hacer.org) e jornais brasileiros como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Zero Hora, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, O Estado do Maranhão, Diário Catarinense, Gazeta do Paraná, O Tempo (MG), Hoje em Dia, Jornal do Tocantins, Correio da Paraíba e A Gazeta do Acre. É autor do livro “A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos brasileiro e norte-americano”, Ed. Síntese - IOB Thomson (www.sintese.com).

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