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17 Jun 2014

QUEM TEM MEDO

Escrito por 

Lula, raposa velha, preferiu assistir ao jogo longe das “elites”. O jogo Brasil/Croácia marca um momento histórico no século. A partir de então, quem tem tem medo.

 

Em 2010, contei episódio de minha chegada a Paris. Voei com uma chusma de colorados, com aquele uniforme do Banrisul, alguns enrolados na bandeira. E entrei no Charles de Gaulle com aquela canalha gritando em unissono: "atirei um pau no Grêmio e mandei tomar no cu."

Eram animais que iam para um jogo em Abu Dabi. Não é que devam ser proibidos de entrar na França. Deveriam ser proibidos de entrar na Europa. Interessante observar que constituem uma elite econômica, de alto poder aquisitivo. Não é qualquer brasileiro que banca uma viagem a Abu Dabi para ver um jogo de seu time. Se esta elite se comporta assim, que sobra para o povão?

Naquele dia, senti vergonha de ser brasileiro. Vontade de declarar ao guardinha de fronteiras que era paraguaio, haitiano, ugandense. Mas futebol é isso mesmo. O início da guerra civil, como dizia Orwell. Quem não quiser ouvir impropérios, que não vá a estádios. De minha parte, nunca fui. O problema é que a chusma me atocaiava onde menos esperava encontrá-la, na chegada a Paris.

Está causando celeuma na imprensa a vaia levada por dona Dilma, que foi mandada ao mesmo lugar que o Grêmio. Pelo que sei, é a primeira vez na história do país que um presidente é submetido a tal vexame. Alguns jornais querem dourar a pílula, estabelecendo distinções entre o que deva ser crítica e o que é insulto. Mas quem disse que a turba queria criticar o regime?

Queriam mesmo é insultar. E insultar não o regime, mas especificamente a presidente. Óbvio que tal gesto não foi gratuito. Dona Dilma, ao pretender apoderar-se da Copa em proveito de sua reeleição, fez por merecer. Dia seguinte, a presidente passou recibo da vaia.

"Na minha vida pessoal, enfrentei situações do mais alto grau de dificuldade. Situações que chegaram ao limite físico. Suportei não agressões verbais, mas agressões físicas", disse a uma platéia de operários e trabalhadores do sistema de trânsito do Distrito Federal, governado pelo petista Agnelo Queiroz.

Com a falta de lógica que lhe é peculiar, a presidente trocou as bolas. Uma coisa é estar na condição de prisioneira de uma ditadura, em local onde bons tratos não são de esperar-se, e cercada por funcionários que têm por função humilhar suas vítimas. Outra, e bem distinta, é ir a um estádio onde a multidão festeja um evento e ninguém tem por profissão vaiar. A vaia é sempre espontânea. Vaia-se quem soa antipático, repulsivo. Talvez isto fosse até digerível em outras circunstâncias. Ocorre que estamos a poucos meses das eleições e dona Dilma é o dauphin de Lula.

"Não vou me deixar atemorizar por xingamentos que não podem ser escutados pelas crianças e pelas famílias", acrescentou Dilma, que falava em meio a gritos de apoio dos operários. A presidente falava sobre a Copa quando os ouvintes entoaram: "a taça do mundo é nossa, com a Dilma não há quem possa". 

Discurso chocho, como o de todos os políticos. A presidenta falava a seus acólitos, àqueles aos quais não é preciso convencer porque convencidos já estão. Nem a taça do mundo é nossa, nem com a Dilma não há quem possa. É claro que o governador petista não iria reunir os ‘negativistas profissionais” – como se dizia durante a ditadura – para ouvir a donzela ofendida.

Só pode ser ódio ao PT. Se a mais leve crítica ao partido é tida como ódio, imagine um “vai tomar no cu” transmitido urbi et orbi.

"Quem perdoa ganha. Perdoar não é esquecer, perdoar não é discutir, perdoar não é aceitar que isso se repita ou compactuar com isso. Perdoar é não deixar que entre no seu coração o veneno do ódio", afirmou. Lula não poderia deixar por menos. Segundo ele, esta será "uma campanha violenta" e a elite brasileira "está conseguindo despertar o ódio de classes".

Voltamos à época pré-queda do Muro, quando o ódio era o motor da história. Para amenizar o fiasco universal e insólito, Lula desvia o insulto para um outro alvo:

"Foi um ato de cretinice com o povo brasileiro, que está cansado de ser pisado e escanteado", disse a sexta-feira em Recife. O ex-presidente afirmou que a imprensa "incentivou o tempo inteiro essa reação da sociedade" e atribuiu os xingamentos à "elite" brasileira.

Apesar de Dilma ter sido nominada com todas as letras, o insulto foi dirigido ao povo brasileiro. Então tá! Se foi um ato contra o povo brasileiro, então a dignidade da presidenta está preservada. Por que, então, tanta indignação?

Lula, raposa velha, preferiu assistir ao jogo longe das “elites”. O jogo Brasil/Croácia marca um momento histórico no século. A partir de então, quem tem tem medo.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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