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12 Nov 2004

Civitas Mallum

Escrito por 

[...] pela nossa cultura política, ser adulto, maduro, um legítimo cidadão, o indivíduo tem que ser “safo”, “saber se dar bem”...

Deveríamos sempre nos perguntar sobre a causa prima de nossos males. Mas não o fazemos, nos recusamos ao exercício da reflexão. Achamos mais conveniente meramente o desprezo pela profundidade das raízes e da repercussão das ações humanos e, em um gesto desesperado de tapar o sol com a peneira, deixamos seguir a boiada com a corda e tudo para o brejo respondendo quando diante das verdades sobre nossas faltas com afirmações pacóvias como: “faz parte do jogo”, ou “é assim mesmo” ou, a campeã de todas: “tem neguinho que faz pior que a gente”.

Bem, e depois dizem que a sociedade brasileira é composta por pessoas adultas. Creio que mais provavelmente que sejam em sua maioria adulteras, mas não adultas. Não no sentido que talvez eu esteja a me referir, que provavelmente de longe se aproxime do que esses denominem como tal. Segundo a tradição, remontando as obras do Estagirita, maturidade consistiria simplesmente em aprender as diferenças entre o bem e o mal através da experiência e assim aprimorar-se com vistas a perfeição. Tal acepção também encontra-se nas Sagradas Escrituras Cristãs e mesmo nas Hindus, Budistas e Islâmicas.

Bem, tal aprendizado, era ponto fundamental para se adentrar na vida adulta pelo simples fato de que após ter-se noção do certo e do errado o indivíduo passaria a se responsabilizar pelos seus atos e pelas conseqüências que esse viesse a gerar. Alias, para pensarmos esse dito, basta que reflitamos sobre o significado dos rituais de iniciação nas inúmeras tradições mencionadas acima. Quando um jovem é iniciado ele passa a seu “um igual” e como tal, ciente de sua condição dentro de sua comunidade.

Tal percepção também se encontrava nos grupos tribais onde o processo de passagem da condição de criança para a de homem era marcada por um ritual onde o garoto era morto simbolicamente para dar a luz ao homem. Tal rito servia não apenas como uma um meio para dar forças para o indivíduo assumir a sua nova condição na comunidade, mas também como um símbolo para os demais para apontar-lhes a grandeza da responsabilidade que estavam sendo assumida por eles.

Nos dias de hoje, nas sociedades modernas do Ocidente, em especial a nossa, temos o total esvaziamento deste significado de pertença e de responsabilidade pela comunidade. Alias, desde a ocupação luza podemos nos questionar se algum dia tivemos tal estado de consciência na comuna brasilis, visto que, pela nossa cultura política, ser adulto, maduro, um legítimo cidadão, o indivíduo tem que ser “safo”, “saber se dar bem”, pois tudo isso “faz parte”.

Bem, com toda certeza haverá aqueles que dirão que nunca ensinaram isso para os seus filhos. Provavelmente nenhum de nós fez isso mesmo, diretamente. Mas, indiretamente, o tempo todo. Quando achamos que os infantes não estão a nos ver, lá estão eles a imitar as nossas ações, a assimilar os nossos valores e a moldarem-se tal qual as nossas condutas mais corriqueiras. Alias, nem mesmo nós muitas das vezes nos damos conta disso.

Como não? Poderão outras se manifestar de maneira profundamente indignada. Ora, meu caro João, você acha que a realidade pode ser explicada com formulas rasas e fúteis aprendidas nos bares e nos caminhos turvos da saciedade? Com toda certeza lhe ensinam a sobreviver e a “se dar bem” no final das paradas, mas de modo algum lhe ensinam o significado da grandeza da vida.

Fazer o que. Para esses, estes parágrafos esguios não passam de conversa fiada de guri borra-botas. E ainda não se entende o porque de quando se pede uma definição essencial (não acidental) de cidadania, raras são as pessoas que conseguem construir o que muito bem explica o universo social em que nós vivemos, deprimente, decaído e perdido, como o olhar que cada um de nós em meio a soturna multidão que nos acompanha no dia a dia.

Última modificação em Domingo, 22 Setembro 2013 17:48
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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