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23 Abr 2004

Desordem e Atraso

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O emblema da bandeira nacional, “Ordem e Progresso”, vai sendo aos poucos eliminado enquanto um lema é disseminado por toda parte do País, desordem e atraso, e o vermelho toma o lugar do verde e do amarelo.

O emblema da bandeira nacional, “Ordem e Progresso”, vai sendo aos poucos eliminado enquanto um lema é disseminado por toda parte do País, desordem e atraso, e o vermelho toma o lugar do verde e do amarelo.

De vermelho se tinge o mês de abril e rubras são as estrelas plantadas em jardins palacianos que viraram quintais particulares. Vermelhas são as labaredas de fogo ateado em propriedades rurais pelos seguidores de João Pedro Stédile. Vermelho o sangue dos garimpeiros mutilados e mortos por índios de celular e metralhadora que praticam o capitalismo selvagem dos diamantes proibidos, e dos que tombam na guerra da Rocinha onde vigora a lei do cão dos narcotraficantes, senhores da cidade, das balas perdidas, dos cidadãos indefesos. Vermelho é o horror sangrento da rebelião de presos que arremessam cabeças e pedaços de corpos do alto da penitenciária como nos melhores filmes de terror, sem que se fale mais na construção de presídios de segurança máxima.

Vai, portanto, se instalando um clima de Deus dará, uma sensação de desgoverno, de insegurança nacional. Mas se essa situação não pode ser aceita como normal, por outro lado não é difícil explicá-la. É que muito foi prometido por Lula e muito foi esperado pelo povo, agora defrontado com o presidente Luiz Inácio da Silva que não consegue realizar o que prometeu. E não conseguindo, ele tenta agradar sendo complacente, se omitindo diante dos desmandos, estimulando com sua atitude e a de seu governo a generalização da baderna que tem como álibi o nome de movimentos sociais, a maioria originados no próprio PT que no poder prova do seu próprio veneno.

Além disso, o PT sempre repudiou a lei como imposição burguesa, sendo que o atual presidente em uma de suas campanhas disse ser defensor da justiça e não da lei, como se fosse possível fazer justiça sem lei.
De fato, temos leis excessivamente numerosas, anacrônicas e, sobretudo, mal aplicadas, e nosso povo em sua maioria padece de toda a sorte de subs do subdesenvolvimento: subeducação, subemprego, subsaúde, submoradia, subjustiça.  Há muito que conquistar, muitos desafios a serem superados no Brasil, mas a maneira com que o governo age, praticamente referendando as violentas invasões do MST ou fazendo vista grossa com relação a episódios como o do massacre dos garimpeiros pelos índios Cinta-larga, leva ao desgaste de sua autoridade, amplia os conflitos em vez de solucioná-los através de políticas publicas competentes e falha no que justamente deve ser a função mais importante do Estado: propiciar segurança a todos através da lei.

Na onda vermelha de abril que promete continuar varrendo o país, inclusive através das crescentes greves do funcionalismo frustrado em suas expectativas ou do inconformismo sindical diante do salário mínimo, vai se esfumaçando a figura de Waldomiro Diniz, o qual permanece são e salvo como um cidadão acima de qualquer suspeita, enquanto o caso Celso Daniel continua relegado à obscuridade como se não fosse conveniente esclarecê-lo.

Tamanha dubiedade só foi presenciada na época de João Goulart, em que pese o fato de que hoje as circunstâncias históricas são outras, o que torna difícil um desfecho semelhante ao havido naquela ocasião.
Em todo caso, já vai ficando enjoativa a cantilena que põe a culpa de tudo no governo anterior ou que pede paciência. Impressiona também o fato de que, ao invés de tentar governar, o presidente parta de novo para uma ofensiva da propaganda. Já recomeçaram com redobrado ímpeto o anuncio de programas que não funcionam, os gracejos através de matáforas, a ênfase numa liderança mundial tipo “alô Chirac”. Para culminar, o presidente vai aparecer na TV junto com ídolos populares. Já  está gravado o programa onde ele irá ao ar ao lado do apresentador de TV, Ratinho, que significativamente apoiou também o ex-presidente Collor. Para o publico de classe média, o intuito é tentar remediar o desgaste de sua popularidade no programa do Jô Soares.

E quem sabe os marqueteiros não estarão pensando num ida do presidente ao programa do Faustão?  Ali ele poderia participar do quadro em que aparecem parentes e amigos do entrevistado através de breves entrevistas que o levam, e a todo grande público de telespectadores, às lágrimas.

Nesse governo que se move no mundo de ficção da propaganda enganosa, bem que o presidente Luiz Inácio poderia se lembrar das palavras do personagem Odorico Paraguaçu, mas no sentido de tentar transformá-las em realidade: “sair dos entretanto e chegar aos finalmente”. Só isso poderá impedir que continuemos mergulhados no atraso e na desordem.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:33
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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