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02 Nov 2004

O Homem Massa e o Terceiro Milênio

Escrito por 

Em poucas palavras, poderíamos nós atrevermo-nos a afirmar que o homem massa nada mais seria que um ser sem identidade, uma criatura amorfa, uma planta com suas raízes descobertas firmadas no vento, destituída de um bom solo que a nutra.

A sociedade adora, ama de paixão eleger um bode expiatório para responsabilizá-lo pelos seus males e chagas. Vira e meche acaba-se por criar um responsável hipotético para os problemas sociais que tem suas raízes profundamente calcadas em nosso devir histórico enquanto nação, enquanto experiência civilizacional.

O uso obsessivo por esse tipo de recurso erístico para mascarar a realidade pode ser explicado de várias formas, através de várias perspectivas, mas, creio eu, que não haja viés mais interessante do que os que nos são fornecidos pelo antropólogo René Girard e pelo filósofo/sociólogo José Ortega y Gasset. Neste libelo, procuraremos apenas nos ater a algumas reflexões que a obra deste segundo nos suscita sobre a nossa sociedade hodierna e que aqui passamos a compartilhar.

Um dos conceitos centrais na obra deste pensador espanhol é o de HOMEM MASSA, largamente discutido em sua obra A REBELIÃO DAS MASSAS. Segundo esse, seria o assim referido homem massa um ser mediano. Não seria ele o que há de mais ignóbil neste mundo e muito menos o que haveria de mais virtuoso. Apenas seria um ponto médio no tecido social. Deste modo, como existem apenas nas revistas em quadrinhos heróis e vilões, na sociedade real, na vida humana edificada no dia a dia, o que prevaleceria seriam as figuras desses tipos às quais acabariam por determinar o devir da vida coletiva.

Em poucas palavras, poderíamos nós atrevermo-nos a afirmar que o homem massa nada mais seria que um ser sem identidade, uma criatura amorfa, uma planta com suas raízes descobertas firmadas no vento, destituída de um bom solo que a nutra. E assim seria a massa humana que tanto é confundida com o que deveria ser um povo, uma nação, uma CIVITAS.

Por ter sua alma imersa no vácuo, por não saber ao certo quem é quem em meio ao mosaico psicodélico de nosso mundo, as pessoas se vêem a deriva como barquinhos de papel surrado em um córrego imundo e mal cheiroso a procura de um porto seguro sem ao menos ter uma carta de navegação ou mesmo a mais leve noção de direção.

A dita carta de navegação a que nos referimos nada mais seria que a capacidade de nos auto-conhecermos, de sabermos quem somos e qual o nosso lugar mundo e no dever-ser do mundo. Quando tais noções nos escapam, encontramo-nos com um grande vazio dentro de nós, uma lacuna que nos deixa inundado de angustia, desespero, sem norte frente as perplexidades da vida.

E, como ficamos inundados por esses sentimentos, a última das virtudes que nos propomos a cultivar é a paciente procura pela Verdade, pela Sabedoria e, desta maneira, nos entregamos por inteiro a primeira pseudo-explicação que nos é apresentada como sendo “A VERDADE”. Essas visões rasas, sem a menor profundidade e nulas de conteúdo se encontram com fartura nas pseudo-tradições religiosas filhas da modernidade e nas inúmeras ideologias políticas coletivistas que se encontram tanto a destra como a sinistra.

Essa massa disforme a se identifica com o primeiro palavrório proferido por um demagogo qualquer é o que acaba por dar forma a nossa democracia, que de longe é um governo do povo, pelo povo e para o povo, mas sim, um governo de poucos, pelas massas, para alguns.

E, como as massas são voláteis, essas acabam por se identificarem hora com fulano por ser socialista, com cicrano por ser nacionalista, mas dificilmente com beltrano por ser coerente e realmente apto para desempenhar as prerrogativas da função que ele se dispôs a exercer. Esse cidadão massa é como uma folha seca disposta ao vento: dança na direção em que o ar em movimento soprar, sem se preocupar em saber de qual ramo caiu ou para qual leiva a brisa (ou ventania) a levará. Isso pouco importa, pois para esses basta-lhes uma visão do agora que lhes pareça boa como uma festa enlouquecida das baladas de sábado à noite.

Um povo é reconhecido pelos valores com os quais ele se identifica, com os valores que ele molda a sua vida cotidiana. E, nesse caso, estamos longe de sermos gigantes. De sermos uma grande nação. Alias, como sermos uma nação de gigantes se a noção de grandeza que temos mais decantada, é a imagem de um comício na forma de show ou a figura de um pop star, bonitinho de rosto, ordinário de alma e, para infelicidade dos “cidadãos” que estão por vir, celebrado como exemplo de boa conduta. Vazio de conteúdo e significado, como tudo, em uma nação massificada e que pateticamente idolatra a sua mediocridade.

Esse é meu Brasil brasileiro.

Última modificação em Quarta, 25 Setembro 2013 19:44
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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