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21 Mai 2014

GIGOLÔS DAS ANGÚSTIAS HUMANAS TÊM TUDO DOMINADO

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Há horas venho denunciando os gigolôs das angústias humanas, isto é, os psicoterapeutas, psicólogos e psicanalistas, Há não muito tempo, surgiu uma nova vigarice no mercado, a terapia do luto.

 

Há horas venho denunciando os gigolôs das angústias humanas, isto é, os psicoterapeutas, psicólogos e psicanalistas, Há não muito tempo, surgiu uma nova vigarice no mercado, a terapia do luto.

Quando minha mulher morreu, coincidiu que na semana seguinte eu tinha consulta marcada com uma nefrologista. Ainda abalado, falei do acontecido e, inevitavelmente, chorei. “Quem sabe tu procuras um terapeuta?” – me sugeriu a médica. Quase perdeu o cliente. Eu passara minha vida toda denunciando essa malta de exploradores da fé dos incultos que, sem terem bem gerido suas vidas, dão-se ainda ao desplante de cobrar caro para gerir vidas alheias. No meu luto ninguém mexe.

Neste ano, completo cinco anos de luta contra um câncer renitente, e nunca falta um médico que me pergunte se não tenho o suporte de um psicólogo. Parece que a moda invadiu até o campo da medicina. Ora, que vão me dizer estes senhores para atenuar a dor que sofri com a partida de minha companheira ou com as consequências de um tumor? Já surgiram inclusive o que chamei de gigolôs de dekasseguis. O caminho de volta pode gerar depressão.. É a "síndrome do regresso", termo cunhado pelo neuropsiquiatra Décio Nakagawa para designar certo "jet lag espiritual" que aflige ex-imigrantes.

Morto em 2011, Nakagawa estudava a frustração de brasileiros que voltavam ao país após uma temporada de trabalho em fábricas japonesas.Psicanalista neles. Ora, se toda pessoa que perde um ente querido, se todo doente grave, se todo migrante que volta precisa de tratamento psiquiátrico, os psiquiatras, psicólogos e psicanalistas têm um mercado inexaurível e eterno a explorar.

Mas a situação é mais grave do que se possa imaginar. Nos conta a Veja São Paulo:

"Na sala de aula do 4o e do 5o ano do ensino fundamental, a professora pergunta: “Quem faz terapia?”. Metade dos alunos, por volta dos 10 anos, levanta a mão. A cena, ocorrida na semana passada no Colégio Nossa Senhora do Morumbi, ilustra o recente aumento na procura por atendimento psicológico infantil na capital".

Segundo levantamento da revista realizado em dez dos consultórios que mais atendem pessoas dessa faixa de idade, o número de pacientes abaixo dos 13 anos dobrou nos últimos dez anos.

"Entre os menores, até 3 anos, o índice triplicou. Pipocam até casais grávidos: quando o rebento vem ao mundo, é incluído nas sessões. A corrida em busca do tratamento, que custa a partir de 120 reais por sessão, aumenta nesta época do ano, devido à divulgação do boletim do primeiro trimestre. Pais e professores queimam neurônios em reuniões, e o psicólogo entra na pauta. Em alguns casos, nem é preciso ir ao consultório, ele vai à casa da criança".

Ou seja, dos psi só escapa quem não pode pagar. Pode-se imaginar um recém-nascido participando de sessões de análise? Do ventre para o divã. A moda parece ter contaminado a classe média e hoje já constitui uma caput diminutio ter um filho que não faça psicoterapia. O aluno é vagabundo, não estuda e tira más notas? Nada que a psicoterapia não resolva.

"Virou sinal de status: tenho paciente de 9 anos que só vem à terapia porque as amigas fazem“, conta Ander- son Mariano. formado em psicomotricidade.

A reportagem lista os casos em que uma criança precisa de apoio psicológico. Começa pela separação dos pais. Aqui o mercado já é vasto. Provavelmente uma boa metade da população infantil já está na mira dos gigolôs. Em segundo lugar, hiperatividade. Segue-se o isolamento pela vida digital. Medo da violência urbana e de sequestros, problemas de adaptação escolar, dificuldade de integrar-se com os colegas. Frustrações, dificuldades dos pais em dizer não, mimos excessivos. Isto é, a criança só escapa se for bruxo.

Costumo afirmar que há vigarices, como a psicanálise e o marxismo, que só atingem as classes minimamente cultas. Isto é, minimamente endinheiradas, pois educação, por menos que custe, sempre custa algo. Os psicólogos e psicos outros tomaram conta do pedaço e hoje, por definição, toda criança ou adolescente, é doente se não contar com uma muleta psicológica.

E adultos também. Você não tem apoio terapêutico? Só pode ser doente. Ou um pobre diabo que nem sequer tem recursos para curar-se.

 

 

 

 

 

 

 

Última modificação em Quarta, 21 Maio 2014 15:08
Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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