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16 Mai 2014

O CENTRO E A POLÍTICA

Escrito por 

 

 

Os americanos ressentem-se de não possuir um centro político, um partido que acomode os moderados de ambas agremiações e que pudesse ser o fiel da balança no parlamento.

 

Um dos maiores problemas enfrentados pela política norte-americana atualmente é o fosso que separa republicanos e democratas. Com uma agenda sequestrada pelas alas mais radicais em ambos os lados, a antiga convergência, inclusive para uma agenda mínima, entre os dois partidos, praticamente sumiu. Os movimentos vão além. Qualquer moderação ou construção de ponte de entendimento entre os lados passou a ser considerada uma traição pelos seus pares. Isto contaminou a política partidária de tal forma que hoje o país está com a agenda paralisada e quem sai perdendo é a sociedade norte-americana.

O debate político é salutar, mas os radicalismos somente geram desgastes desnecessários que atrasam a agenda legislativa. O Brasil infelizmente foi contaminado também por este pensamento. Aqueles que se encontram a favor das reformas e das inovações trazidas pelo governo FHC são considerados contra os governos petistas. Da mesma forma, qualquer análise feita que valorize as realizações dos governos de Lula e Dilma, transforma o interlocutor em socialista. Na verdade, o radicalismo presente hoje somente contribui para enfraquecer o debate de idéias e para o afastamento do jogo político daqueles que realmente desejam construir pontes e canais de entendimento.

Além disso, o debate é raso. As acusações e desqualificações pessoais somente deixam claro como nosso país vai mal, como nossa educação é precária e o nível de discussão política é baixo. Faltam espaços para análises mais profundas, que são classificadas de bate-pronto como partidárias ou panfletárias. A política transformou-se em um debate de futebol onde reinam as paixões e excluí-se a razão, afinal de contas, descobrimos que nossas convicções enviesadas e ódios cegos valem mais do que a ciência política. Pobre de nosso país.

A história política do Brasil mostra que existe uma tendência centrista em nosso povo. Os brasileiros tendem a escolher invariavelmente o caminho do meio. Nossos grandes Presidentes governaram assim, foram conciliadores, como JK, por exemplo. Não é surpresa que aquele partido que recebe mais votos no país hoje, comanda o maior número de prefeituras, elege mais vereadores, dirige a Câmara e o Senado, é o centrista PMDB. Não é por acaso que Gilberto Kassab soube ler de forma inteligente a política e criou o PSD, outro partido de centro. Juntos, possuem 133 deputados e dominam a Câmara dos Deputados.

Conta-se a seguinte história nos corredores do Congresso: Não importa quem vença as eleições, Romero Jucá será o líder do governo. Foi assim com FHC, Lula e Dilma. Isto quer dizer que independente de sermos governados pelo PSDB ou PT (ou talvez PSB), quem manterá a governabilidade é o PMDB e agora também o PSD. Quem evita arroubos totalitários e segura a estabilidade institucional é o centro político. Felizmente no Brasil ainda existe esta ponte. E você, que adora malhar os caciques do PMDB e a astúcia política de Kassab, lembre-se: são eles que garantem seu sono tranquilo.

Os americanos ressentem-se de não possuir um centro político, um partido que acomode os moderados de ambas agremiações e que pudesse ser o fiel da balança no parlamento. Nos países europeus, o sistema parlamentarista pouco a pouco está criando a figura de uma terceira força moderada. É preciso um vetor político que apare arestas, chame os líderes ao entendimento, construa pontes e uma agenda mínima convergente.

Mas não faltará alguém que diga que estou recebendo algo dos centristas para escrever este artigo. Política é uma ciência, não uma paixão, mas é preciso mais que uma mesa de bar ou o corajoso ativismo em redes sociais, geralmente conduzido do confortável sofá da sala de casa, para fazer diferença. Vociferar sua posição política é fácil. Difícil é estudar e tratar do assunto com sobriedade e racionalidade. Política não é torcida de futebol, não faz com paixão, mas com razão. Pense nisso antes de votar.

 

 

 

Márcio Coimbra

Márcio Chalegre Coimbra, é advogado, sócio da Governale - Políticas Públicas e Relações Institucionais (www.governale.com.br). Habilitado em Direito Mercantil pela Unisinos. Professor de Direito Constitucional e Internacional do UniCEUB – Centro Universitário de Brasília. PIL pela Harvard Law School. MBA em Direito Econômico pela Fundação Getúlio Vargas. Especialista em Direito Internacional pela UFRGS. Vice-Presidente do Conil-Conselho Nacional dos Institutos Liberais pelo Distrito Federal. Sócio do IEE - Instituto de Estudos Empresariais. É editor do site Parlata (www.parlata.com.br) articulista semanal do site www.diegocasagrande.com.br e www.direito.com.br. Tem artigos e entrevistas publicadas em diversos sites nacionais e estrangeiros (www.urgente24.tv e www.hacer.org) e jornais brasileiros como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Zero Hora, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, O Estado do Maranhão, Diário Catarinense, Gazeta do Paraná, O Tempo (MG), Hoje em Dia, Jornal do Tocantins, Correio da Paraíba e A Gazeta do Acre. É autor do livro “A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos brasileiro e norte-americano”, Ed. Síntese - IOB Thomson (www.sintese.com).

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