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09 Mai 2014

A EDUCAÇÃO LIBERAL COMO PILAR DA SOCIEDADE CIVIL

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Nos colóquios do Liberty Fund não há amigos e inimigos, aliados e rivais, e ninguém precisa “vencer” o debate. O que existe é um ambiente propício a essa incrível experiência comum, de trocas mutuamente benéficas, desinteressadas, para que cada participante possa extrair o máximo possível de aprendizado para si.

 

Como muitos já sabem, estou em Indianapolis, para mais um colóquio patrocinado pelo Liberty Fund. Já devo ter ido a uns 12 em minha vida. Toda essa experiência me leva a pensar sobre como a esquerda desvirtua a essência do liberalismo. Ao retratar os empreendedores como egoístas gananciosos e depositar no estado a tábua da salvação altruísta, acaba por inverter tudo.

Esses colóquios ocorrem sempre em ótimos hotéis, com uma lista de debatedores bem diferenciada. Empresários e intelectuais interessados em um puro debate de ideias. Não é preciso sair com nenhum tipo de conclusão, de panfleto oficial, de ata convergente. É o debate pelo debate. E tudo isso bancado pelo Liberty Fund, que ainda paga pela participação dos debatedores. Não é incrível?

Como pode isso? Eis algo que os brasileiros em geral e a esquerda em especial têm dificuldade de compreender. Pierre Goodrich foi um empreendedor de sucesso em Indianapolis, e tinha grande interesse pelo lado intelectual da vida. Era um liberal no melhor sentido do termo. Quando morreu, deixou quase toda a sua fortuna para o Liberty Fund, que havia fundado em 1960. É com esse endowment que vários eventos, entre eles esses colóquios, são organizados todo ano.

Há ainda a venda de livros clássicos por preços subsidiados, não pelo governo, mas pela iniciativa privada. Já comprei vários para a minha biblioteca. Os clássicos estão quase todos lá. No Brasil, uma parceria com a TopBooks colocou vários desses livros à venda também. Recomendo.

E por que tudo isso? Mr. Goodrich acreditava que uma formação liberal, no velho e bom sentido do termo, era crucial para criar e preservar uma sociedade livre e próspera. Ele depositava muita fé na promoção da excelência, na educação das pessoas, mas de forma voluntária, não por meio do governo.

Para o empresário, a sociedade civil seria não apenas o produto da educação, mas ela mesma um reflexo do próprio processo e da natureza da educação. E esse processo, ao contrário do simples acúmulo de informação, requer uma atitude de abertura às ideias abstratas e um foco nos princípios básicos. Criar um corpo amplo de conhecimento, buscado por seu próprio valor, e não para alguma outra finalidade qualquer imediata, essa era a meta da verdadeira educação para Goodrich.

O estudo dos clássicos, a leitura de grandes livros e, acima de tudo, os colóquios para um debate aberto, cujo único objetivo seria o engrandecimento pessoal de cada um, tais eram os instrumentos que Goodrich considerava relevantes para uma boa educação, e que, por sua vez, ajudariam a criar ou manter uma sociedade livre.

Sua visão do ser humano era a de um animal limitado, ainda que racional, mas sempre fadado à ignorância, ao conhecimento incompleto. Também desconfiava, como todo liberal, da concentração de poder e dos riscos das paixões humanas sob certas influências. Por tal crença em nossas limitações, Goodrich desenhou este formato de conferências abertas, estruturadas não para chegar a alguma conclusão definitiva, mas para estimular sempre mais debates e busca por novos conhecimentos.

Em muitos aspectos essa postura se assemelha ao que Michael Oakeshott descreveu como uma longa e infindável conversação, quando os homens tentam filtrar da Torre de Babel algum sentido maior e universal, comum a todos em todas as épocas. Esse seria o grande aprendizado humano proveniente de uma educação liberal.

Nos colóquios do Liberty Fund não há amigos e inimigos, aliados e rivais, e ninguém precisa “vencer” o debate. O que existe é um ambiente propício a essa incrível experiência comum, de trocas mutuamente benéficas, desinteressadas, para que cada participante possa extrair o máximo possível de aprendizado para si.

Esse tipo de educação clama por civilidade, por respeito ao outro, pelo foco nos argumentos. Isso tudo estaria ligado ao próprio conceito de liberdade, de vida civilizada em sociedade. Era essa a grande visão de Goodrich, na qual ele apostou sua fortuna e deixou seu legado. Ideias têm consequências, e Goodrich colocou em prática seu credo. Como não reconhecer o grande mérito deste benfeitor?

Sendo um dos tantos que já tiveram a sorte de participar desses eventos e viver esta enriquecedora experiência, só posso agradecer e prestar aqui minha singela homenagem. Se mais empreendedores tivessem a visão e a fé no livre debate de ideias que tinha Mr. Goodrich, o mundo sem dúvida seria um lugar mais liberal e, portanto, mais civilizado e melhor.

 

 

 

Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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