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20 Mar 2014

UMA MEDIDA QUE POUCO MENSURA

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O fato de sermos capazes de constatar o quão restrito é a categoria teórica em questão, não significa que se está negando a existência das desigualdades sociais e a multitude de injustiças que abundam mundo a fora. Uma coisa não tem nada que ver com a outra.

 

Em que medida é apropriado afirmar que a história da humanidade é, e sempre foi, uma luta de classes? Levantamos essa pergunta, pois, tal afirmação, praticamente tornou-se um lugar comum tão constante no imaginário contemporâneo que se converte toda e qualquer tensão inter-humana num gérmen da referida categoria. Por isso mesmo, perguntamos: em que medida pode-se atribuir a essa categoria o status dum princípio categórico onipresente?

Sobre esse ponto, o filósofo italiano Benedetto Croce, diz-nos que se pode falar em luta de classes quando temos algumas condições específicas, as quais seriam: (i) que existam classes, (ii) que essas tenham interesses antagônicos e, finalmente, (iii) que elas tenham consciência desse antagonismo. Quando esses pré-requisitos são preenchidos inegavelmente pode-se falar em luta de classes. Fora disso, o que temos é o alargamento dum instrumento político-conceitual para abarcar uma gama multiforme de ações humanas, esvaziando o sentido originário da categoria citada ao mesmo tempo em que mutila as realidades humanas que foram forçosamente enquadradas nela.

O fato de sermos capazes de constatar o quão restrito é a categoria teórica em questão, não significa que se está negando a existência das desigualdades sociais e a multitude de injustiças que abundam mundo a fora. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. Aliás, qualquer pessoa razoavelmente sensata sabe muito bem que as desigualdades e injustiças abundam abaixo do sol e que elas têm múltiplas causas que vão muito além dessa vã categoria.

Doravante, não podemos também perder de vista que em muitíssimas ocasiões onde não há os pré-requisitos necessários para caracterizar a existência de conflitos de classe, fomenta-se qualquer ordem de conflito que, posteriormente, será qualificado (de modo impróprio) como se fosse um conflito dessa natureza. Conflitos esses que, inegavelmente, na maioria das vezes, apenas geram mais desigualdades e novas formas de injustiças do que qualquer outra coisa.

A devoção hipnótica que se tem a esse dogma materialista cega o indivíduo para as imensas possibilidades que podem ser ventiladas pelas ações humanas. Ações que se fossem explicadas, à luz desse limitado cânone materialista, apenas geraria distorções ao invés duma razoável compreensão.

Por exemplo: expliquemos, a partir da noção de luta de classes, a existência de um convento de Carmelitas descalças. Por que essas senhoras abdicaram do mundo para viver uma dura vida de reclusão? E a obra de Johann Sebastian Bach? Suas composições seriam apenas um instrumento ideológico? E a vida dum Santo Padre Pio de Pietrelcina? Melhor não dizermos nada.

Por fim, é claro que não serão poucas as almas de Procusto que irão mutilar esses feitos humanos para enquadrá-los melhor em seu limitado olhar e baterão no peito, dizendo que seu dogma materialista é sim uma pedra angular que explica tudo, mesmo que a tudo deturpe. E como deturpa.

Pax et bonum

 

 

 

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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