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07 Dez 2010

Sejamos Francos

Escrito por 

Neste ínterim, vem-me a mente uma sentença do professor Confúcio que nos diz que quem diz a verdade perde amizades. Mas, e quem disse que alguém realmente deseja encarar a verdade e agir a partir dela?

 

"Foge por um instante do homem irado, mas foge sempre do hipócrita". (Confúcio)

Já estamos chegando na reta final de mais um ano letivo e com o seu término temos mais uma safra dos frutos desta lavoura de [des]ilusões. Produzimos e vivemos em uma ilusão que chamamos pela alcunha de “educação crítica” ao mesmo tempo em que nos desiludimos com a cepa desta que, de fato, tem apenas como crítico os seus resultados que estatisticamente e qualitativamente são os piores do mundo, conforme os resultados consecutivos dos exames do PISA e constatáveis através de uma observação direta.

Mas poucos querem realmente enxergar a realidade e muito menos tomar a atitude necessária. Estamos tão imersos e tomados pelo fingimento que não mais somos capazes de enxergar os problemas tais e quais eles se apresentam às nossas vistas e muito menos de atuar de maneira ativa em relação aos mesmos. Apegamo-nos teimosamente a inúmeras ilusões literalmente diabólicas que nos impelem a crer que nosso universo subjetivo, ideológico, é mais importante que a realidade da pessoa humana.

Sei que o tacho deste angu é grande e que os caroços não são poucos. Por essa razão que nos detemos apenas neste que, em si, é o ponto nevrálgico da contenda, que é o fingimento histriônico diante da realidade patente que se apresenta diante de nossas vistas.

No fundo, o que a maioria das pessoas deseja não é educar os mancebos, mas sim, posar de bons moços politicamente corretos como paizões e mãezonas caricatos. No fundo, não deseja-se corrigir os erros, mas apenas justificá-los vendo no desleixo e na desídia a presença da mão invisível do sistema jogando-se na lata de lixo o fator volitivo que determina as ações humanas perante si mesmo, diante da sociedade, frente ao sistema ou estando diante do raio que o parta.

Lembro-me aqui de uma passagem de minha vida onde em meio a uma acalorada discussão foi-se indagado: Qual é a função da escola? A resposta, simples e direta: transmitir para a geração atual o legado civilizacional (cultural, moral, espiritual, técnico e científico) que foi edificado e preservado pelas gerações (inumeráveis gerações) que nos antecederam para que assim possam, ativamente, agir no mundo. Bem, mas é agora que a porca torce o rabo porque tivemos uma contra-resposta no seguinte tom: “sim, mas antes disso é fundamental que tornemos os nossos alunos críticos, capazes de mudar esse sistema...” e o resto da patacoada todos nós já conhecemos bem.

Indo direto ao ponto do conto, para este e bem como para muitos, mais importante que munir a tenra geração com os instrumentos básicos para que ela possa agir de maneira relativamente independente e ativa é doutriná-lo de acordo com os ditames de uma ideologia materialista e alienante que o faz sentir-se desvencilhado da responsabilidade pela sua vida passando e desprezar e mesmo odiar a realidade desejando apenas transformá-la de acordo com a sua imagem e semelhança, mesmo que não saiba o quão torpe é a sua imagem e substância.

Trocando por miúdos, é esse o objetivo de toda a dita educação crítica que em sua ânsia de tudo transformar sem nada compreender acaba por destruir a alma que se aferra pela via da crítica vazia que a ela mesma esvazia, tornando-a impaciente, prepotente e inoperante diante da vida. Nos dias de hoje, desde muito cedo se aprende a apontar para todos os erros presentes no mundo e a gritar contra eles ao mesmo tempo em que somos adestrados a fechar as portas de nossa consciência para os nossos erros e faltas projetando sempre a responsabilidade por esses em algum elemento externo.

Neste ínterim, vem-me a mente uma sentença do professor Confúcio que nos diz que quem diz a verdade perde amizades. Mas, e quem disse que alguém realmente deseja encarar a verdade e agir a partir dela? Quem? Quem realmente está disposto a enfrentar os dissabores de desagradar os tolos no esforço de corrigi-los? Quem? Não é à toa que nossa educação em suas safras tem apresentado os frutos que colhemos, visto que, não estamos plantando algo diverso disso.

Pax et bonum

Última modificação em Segunda, 10 Março 2014 20:34
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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