Ter11192019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

21 Abr 2004

Triste Quadro

Escrito por 

Na década de 50, as favelas correspondiam a 10% do perímetro urbano da cidade do Rio de Janeiro. Na década de 70 já correspondiam a 30%. Creio que neste quarto ano do século XXI, os números se inverteram: 30% é o que resta de cidade.

Na década de 50, as favelas correspondiam a 10% do perímetro urbano da cidade do Rio de Janeiro. Na década de 70 já correspondiam a 30%. Creio que neste quarto ano do século XXI, os números se inverteram: 30% é o que resta de cidade. Seria despropositado dizer que o Rio é um favelão em que uma pequena parte ainda é ocupada pela cidade? Ora bolas! Se numa mistura há 70% de milho torrado e 30% de café tem propriedade dizer que se trata de cofea arabicas? Só se for café fajuto.

E desde o momento em que 53% da atividade econômica estão na informalidade, por acaso seria despropositado dizer que o Brasil está se transformando num grande camelôdromo em que a economia formal perde gradativamente terreno para o avanço progressivo da informalidade?!

A esta altura alguém poderia indagar: Mas o que tem a ver o processo de favelização com o de informalização, além da constatação de que ambos crescem, ainda que em ritmos diferentes? Fosse o caso do desmatamento, a relação seria demasiadamente óbvia, pois à medida que se alastram favelas encurta-se a área verde.

Todavia, a outra relação torna-se bastante palpável quando considera-mos que ambos são índices confiáveis de um processo de empobrecimento de um país que na década de 70 era a oitava economia do mundo e hoje é a décima-quinta.

Recentemente, o Brasil foi ultrapassado por ninguém mais que a Índia, terra da vaca sagrada, dos párias e da confusão das línguas. E do jeito que o país está correndo na maratona da prosperidade brevemente será ultrapassado pela Austrália.

Porém não são somente a economia informal e a favelização que crescem assustadoramente, pois há um setor especial da informalidade cujo crescimento supera de longe qualquer outro: o toxiconegócio. Obviamente, não se pode dizer que haja uma relação causal entre a favelização e a cocainização da cidade, pois esta não depende daquela, nem aquela depende desta para se alastrar. Cabe apenas dizer que a favela é o lugar em que se instalaram as diversas gerências do toxiconegócio, juntamente com seus poderosos bunkers.

E agora cabe falar em metástase, pois umas poucas células cancerosas que não receberam eficaz combate médico se multiplicaram contaminando todo o corpo. Mas de nada adianta matar este ou aquele chefete ou gerente regional do tráfico, pois outro já está preparado para assumir o comando. E não cabe falar do toxiconegócio como se fosse um monopólio, pois há disputas de ponto por quadrilhas rivais. Este o quadro desalentador de uma cidade sitiada pela violência endêmica.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:33
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.