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10 Jan 2014

A SATISFAÇÃO AMARELADA

Escrito por 

Por fim, somente o fato de estranharmos essas palavras, de não entendermos que há uma diferença cabal entre o que seja nossa satisfação pessoal e o que seja o bem comum, demonstra o quanto ignoramos e desconhecemos a natureza do bem.

 

J. R. R. Tolkien, em uma de suas epístolas, ensina-nos que devemos compreender o bem nas coisas para detectar o verdadeiro mal. Quem apenas conhece a face e o amargor do mal, de fato, não o conhece. Apenas o vive como sua segunda pele sem compreender com a devida clareza a real natureza de seus gestos e atos.

É a isso que F. Schuon se referiu quando afirmou que o mal é fruto da ignorância. O mal, em suas mais variadas formas e gradações advém do desconhecimento da natureza do bem. É no contraste de um com o outro que a verdade nos é revelada.

E evitamos o contraste porque a confrontação com a realidade nos deixa, inevitavelmente, desconfortável, arrancando-nos de nossas cômodas convicções que, por ignorância, acreditamos ser o bem, simplesmente porque sentimo-nos satisfeitos conosco mesmo.

Obviamente que tal falta de saber não nos exime da responsabilidade moral frente nossas obras diretas e indiretas, haja vista que em muitíssimas ocasiões preferimos ignorar o bem em nome do mal que satisfaz nossa fraqueza.

Vale lembrar que apenas idiotas vivem satisfeitos consigo. E idiotas são pessoas muito perigosas, principalmente por imaginarem que são inocentes. Perigosas porque os demais crêem que eles são apenas o que são: idiotas. E é justamente com uma massa dessa estirpe que são feitas as grandes tragédias da história. É com esse material amorfo que se dá forma às sangrentas revoluções paridas em nome do fugidio mundo melhor possível e sua etérea justiça social.

E não há nada mais volátil e facilmente manipulável que o desejo de sentir-se satisfeito. É fácil instigar a insatisfação. E assim o é por ignorarmos o bem que se faz presente em cada situação por enxergarmos apenas o que queremos que seja o bem.

No fundo não passamos de míseros interesseiros que acreditam que os nossos interesses miúdos sejam o sumo bem de toda nação.

Por fim, somente o fato de estranharmos essas palavras, de não entendermos que há uma diferença cabal entre o que seja nossa satisfação pessoal e o que seja o bem comum, demonstra o quanto ignoramos e desconhecemos a natureza do bem.

Pior! É com essa visão que participaremos de mais um ano eleitoral para escolhermos aqueles que irão zelar e cultivar o bem comum. Bem tão comumente ignorado por todos nós, eleitores e candidatos.

Pax et bonum

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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