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17 Out 2004

Espetáculo do Crescimento

Escrito por 

E aos que ainda não imiscuíram seus pensamentos ao descrito até o presente instante, faço questão de esclarecer: no primeiro ano do governo Luis Inácio houve um crescimento da miséria no país.

E finalmente podemos dizer que o presidente Luis Inácio conseguiu acertar um de seus prognósticos. Estamos tratando do famoso espetáculo do crescimento. Após meses de incertezas, de expectativas e muitos despistamentos oficiais, eis que, hoje, podemos encher o peito e bradar que o Brasil está assistindo a um verdadeiro show espetacular de crescimento. Afinal, diante de tantas expectativas criadas em torno da quase messiânica figura do Sr. Luis Inácio e de seu regimento político, o povo brasileiro aguardava esta notícia. E esse crescimento, bastante espetaculoso, não se limita aos quatro cantos desta porção de terra descoberta por Cabral. Na verdade, a notícia do nosso espetáculo do crescimento atravessa oceanos e invade os mais sisudos e tradicionais Parlamentos do mundo.

Afinal, não é sempre que tomamos ciência de que um governo democrático e popular como é o governo Luis Inácio, que se fez e cresceu politicamente, na intransigente defesa dos mais necessitados, criticando ardorosamente a classe burguesa e a nefasta submissão nacional à especulação financeira internacional, consegue alcançar um significativo espetáculo do crescimento.

E aos que ainda não imiscuíram seus pensamentos ao descrito até o presente instante, faço questão de esclarecer: no primeiro ano do governo Luis Inácio houve um crescimento da miséria no país. Eis o espetáculo do crescimento petista. Deixando a jocosidade de lado, é de se lamentar tal notícia.

Segundo a Fundação Getúlio Vargas, através de seu Centro de Políticas Sociais, parcela de brasileiros que não ganham o bastante para comer o mínimo necessário, aumentou de 26,23% em 2002 para 27,26% em 2003 e já somam 47,4 milhões de brasileiros abaixo da linha da miséria, da dignidade. Assim, para cada quatro brasileiros, um é miserável. São brasileiros que não conseguem recursos para adquirir uma simples cesta básica. São brasileiros que não conseguem ingerir, ao menos, 2888 calorias por dia, mínimo estabelecido pela Organização Mundial de Saúde. E o Sr Luis Inácio havia dito que, se ao final de seu mandato, cada brasileiro carente conseguisse ter três refeições ao dia, ele teria cumprido sua missão de vida. E agora? Da mesma maneira que, os tais 10 milhões de empregos são meros números em nossas memórias, eis que aquele que tinha por objetivo de vida alimentar por três vezes, diariamente, “seu” sofrido povo brasileiro, não cumpre o próprio destino fatal, como pior, aumenta o número de bocas na miséria.

E não apenas quando na oposição, o Sr Luis Inácio defendeu a necessidade de implementar meios para possibilitar o acesso do povo à alimentação básica. Já na condição de presidente da República, verbalizou: “Não está escrito em lugar algum, nem mesmo na Bíblia, que alguém precisa ficar dias sem comer”. Como não, se o jejum é uma das premissas do cristianismo e o tema fome está espalhado por todo o texto bíblico? É possível compreender esse comentário absurdo como conseqüência da falta de instrução do presidente da República. Não satisfeito, em reunião promovida pela organização internacional “Cidades e Governos Locais Unidos” (CGLU), no Hotel Blue Tree Ibirapuera, em São Paulo, em outubro do corrente ano, afirmou ser preciso “garantir o direito bíblico e constitucional" de comer três vezes ao dia. Aqui, mais sensato, ouvir as palavras do jornalista e escritor Janer Cristaldo: “Não satisfeito em posar de especialista em assuntos bíblicos, o Supremo Apedeuta ataca de constitucionalista, e qualifica as três refeições por dia de dever constitucional. Pego a bendita Constituição-cidadã de 88, tão precisa a ponto de especificar que o Colégio Pedro II, localizado na cidade do Rio de Janeiro, será mantido na órbita federal (sic!). Só uma única vez, no artigo 93, aventa-se uma tríplice obrigação: a promoção do juiz que figure por três vezes consecutivas ou cinco alternadas em lista de merecimento. E mais não diz”.

Assim vê-se o compromisso do Sr Luis Inácio em combater a fome e a miséria. Ainda que deixando de lado algumas questões culturais. Mas ninguém é perfeito. A despeito deste compromisso, o governo Luis Inácio não apenas não conseguiu manter sua proposta como gerou mais miséria.

O aspecto que ressalta na pesquisa da CPS-FGV foi o aumento da miséria nos centros urbanos, de 16.6% para 19,14% e a pífia redução da mesma, na zona rural, de 51,4% para 51%. E esse resultado, esse espetáculo do crescimento da miséria é conseqüência da recessão experimentada pelo país e da queda do poder aquisitivo do trabalhador. Seria cômico não fosse trágico. Aquele que surgiu para a política nacional defendendo seus pares, os trabalhadores, hoje, na instancia máxima do poder, gera recessão e perda do poder aquisitivo. O que estariam falando hoje, os novos “Lulas”? “Fora, Lula?”. “Fora, FMI?”.

Desde modo, verificando o crescimento da miséria nos centros urbanos e, uma lenta e insigficante redução na área rural, pode-se chegar à conclusão de que o atual governo não está conseguindo agregar nenhum valor à sociedade em matéria de políticas sociais. Se no campo há uma ínfima redução de miseráveis, isso se deve não aos programas estatais de políticas públicas (leia-se Bolsa-Família e Fome-Zero), mas a simples transferência de renda. Assim, cria-se a fantasiosa sensação de que o trabalhador do campo está conseguindo gerar subsídios próprios para melhorar suas condições de vida dentro da sociedade brasileira. Na verdade, são os trabalhadores rurais indivíduos que, se tiverem à suprema e divina felicidade de ser cadastrados em um dos programinhas de transferência de renda, estes passarão a condicionar suas vidas a vida do Estado, assim como era na antiga União Soviética. Os programas estatais que, até poderiam, em um exíguo e limitado espaço de tempo, auxiliar o homem do campo a melhorar sua qualidade de vida, estão se revelando totalmente descabidos, sem sentido técnico e, pior, falseando a idéia de que estaria havendo uma melhor distribuição das riquezas do país.

Assim é que os números do PIB (soma de todas as riquezas produzidas no país), tão alardeados pelo governo petista para demonstrar o aquecimento da economia e, portanto, a retomada do crescimento, apenas revelam dados sobre o verdadeiro crescimento: da miséria. As ações governamentais de buscar glorificar os resultados atuais da economia, apontando para fatos como superávit maior, menos investimentos e mais juros não afetariam o povo, desaparecem nas incontrastáveis conclusões do relatório da CPS-FGV, conduzindo nossas análises a um posicionamento diametralmente oposto. Na verdade, como o governo Luis Inácio conseguiu a proeza de, em 2003, diminuir o PIB brasileiro (no segundo trimestre daquele ano a queda chegou a 1,5%), o que vemos agora, em 2004, é apenas e tão-somente, a reposição do que foi perdido no ano passado. Logo não estamos crescendo. Estamos apenas repondo. Somente a miséria cresce.

E dois fatos interessantes a ressaltar.

Pode-se dizer que o Sr Luis Inácio, em suas andanças pelo mundo (e como ele gostou de andar pelo mundo!), tem afirmado, de maneira até enjoativa, que é preciso criar um fundo internacional de combate à fome. Eis, pois o primeiro e pitoresco fato interessante. Enquanto o Sr Luis Inácio e senhora vagueiam pelos mais suntuosos hotéis, palácios e parlamentos do mundo, a difundir a nobilíssima missão de salvar a humanidade da fome, seu povo cada vez mais empobrece e afunda na miserabilidade. Como pretender salvar o mundo, se não consegue sequer, ajudar o seu próprio povo? Como falar em Fome-Zero Mundial, se por terras tupiniquins, temos apenas o incremento do número de esfaimados, sendo que a Fome-Zero brasileiro nada mais é do que a entrega, por parte do Estado, de uns trocados para a camada carente do povo? Como defender um fundo mundial de combate à fome, enquanto que no Brasil, o trabalhador somente tem acesso aos trocados oficiais, se portar um cartãozinho magnético e restringir suas comprar àquilo que o Estado entende como necessário a sua alimentação, cerceando por completo o livre arbítrio do cidadão? Felizmente ainda não existem eleições para presidente do mundo.

E um segundo aspecto pitoresco desse “show de crescimento” patrocinado pelo governo Luis Inácio. Se houvesse um mínimo de seriedade no desenvolvimento e efetivação de políticas públicas por parte do governo federal, este deveria lançar seus olhos sobre a Declaração do Milênio das Nações Unidas, que foi o resultado da Cúpula do Milênio que, em setembro de 2000, definiu uma lista dos principais componentes da agenda global para o século 21. E em referido documento, o item número um, de maior destaque e tido por todos os participantes da Cúpula como sendo o mais importante é justamente aquele em que o governo Luis Inácio conseguiu seguir em sentido contrário.

A erradicação a extrema pobreza e a fome. Esse é o aspecto fundamental da Declaração. Assim, enquanto o Sr Luis Inácio passeia mundo afora desenhando um cenário mundial para o “seu” Fome-Zero global, ele mesmo se esquece de atentar para o aspecto mais importante e destacado com relevância por todos os países da Cúpula de 2000.

Assim, o nosso “espetáculo do crescimento” está em total desacordo com as propostas eleitoreiras do Sr Luis Inácio, quando em campanha para a Presidência da República, de ofertar, no mínimo, três refeições ao dia para o povo carente deste país, bem como está em desacordo com sua delirante proposta de criação de um programa mundial de combate a fome.

Da mesma maneira que o governo Luis Inácio criou o espetáculo do crescimento da miséria e “colocou” Napoleão Bonaparte na China, que Deus se apiede do povo brasileiro a cada novo pronunciamento ufanista de presidente.

Última modificação em Quarta, 25 Setembro 2013 19:48
Alexandre Seixas

O Prof. Alexandre M. Seixas é formado em Direito pela PUC de Campinas, tendo realizado o curso de Aperfeiçoamento em Ciências Sociais, e Mestrado em Ciência Política na Unicamp. Realizou ainda os cursos de inglês, na Surrey Heath Adult Education Center, em Camberley, Inglaterra. É professor universitário com vinculação em Teoria Geral do Estado e Ciência Política.

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