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21 Nov 2013

C’ERA UMA NAVE CHI NON POTEVA NAVIGARE *

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Feita uma avaliação das mazelas da nau, foram detectadas soldas defeituosas, tubulações que não se encaixavam, além de um rombo no casco maior que o rombo financeiro da OBX de Eike Batista!

 

Ah! Lembro-me bem! Coisa inesquecível! No ano 2000, quando o Brasil fazia 500 anos de sua descoberta, o governo brasileiro promoveu várias comemorações.

Entre elas, resolveu realizar a grande proeza de Pedro Álvares Cabral, só que seguindo a rota inversa.

Navegar numa caravela partindo da Bahia, atravessando o Atlântico e aportando em Lisboa.

Para poder fazer tal coisa, mandou construir uma réplica da nau cabralina num estaleiro nacional. Nada melhor do que prestigiar a prata da casa!

Ora,  se o Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi uma perfeita réplica da Ópera Cômica de Paris, por que não podemos fazer uma réplica perfeita da Nau Capitânea do navegador português?!

Construída a nave, uma comitiva governamental e toda a mídia aguardavam ansiosamente o lançamento ao mar da caravela brasileira. Grande expectativa!

Mas não sem aqueles discursos patrióticos policarpocaresmescos que costumam acompanhar grandes solenidades e efemérides em Terra Brasilis, a Terra dos Papagaios.

Passando dos “entretanto “ aos “finalmente” – como dizia o saudoso Odorico Paraguaçu, insigne Prefeito de Sucupira - chegou o tão aguardado momento:

Ouviu-se o brado varonil do capitão da nau: “Içar âncoras!” E nave começou a se mover em direção ao mar aberto!

Apenas se movimentou na direção do mesmo. Mal chegou a sair do cais e a caravela brasileira começou a adernar, correndo sério risco de ser tragada pelas águas, antes mesmo de chegar ao alto-mar!

Já podiam ser ouvidas estrondosas gargalhadas em Lisboa. “Estes gajos brasileiros sabem ser pândegos! Pensam que construir uma caravela é tão fácil quanto construir o raio de uma piroga [i.e. canoa, para quem não sabia e agora já sabe]”.

Qual o destino da caravela fajuta é algo que ninguém sabe. Podemos apenas aventar hipóteses. 

Quem sabe não foi desmontada e sua madeira vendida para algum grande forno? Ou então colocada num local em Porto Seguro (BA) como grande atração turística?

Em quaisquer das hipóteses ou mesmo noutras assemelhadas, a coisa não teria sido tão má assim, caso - fora o grande vexame! - não tivesse dado a despesa de alguns milhões de reais para os cofres da Viúva!

De ao menos uma coisa, porém, Karl Marx estava certo: “A História se repete, só que a primeira vez é tragédia e a segunda, farsa”.

Dez anos depois, em 7 de maio de 2010, ao lado da disléxica Dilma e de Eduardo Campos, o neto do usineiro comunista Miguel Arraes, Luiz Inácio participou de um comício no Porto de Suape (PE).

Momento festivo em que se comemorava a ressurreição da fabulosa indústria naval brasileira e o emblema da mesma: o petroleiro João Candido. Acho que era o primeiro, mas não o último, a ser construído no Brasil. 

Para quem não sabe, trata-se do nome de uma personagem histórica. Quando era Presidente Nilo Peçanha, em 1910, houve a Revolta da Chibata e seu líder era o marujo João Cândido.

Ele liderou o protesto dos marinheiros contra os terríveis castigos físicos aplicados pela rígida disciplina dos oficiais da Marinha de Guerra. 

 Mas jamais teria imaginado que, cem anos depois, seria nome de um petroleiro brasileiro da PETROBRAS.  Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá!

Construído pelo Estaleiro Atlântico, o João Cândido tinha 274m de comprimento e a capacidade para transportar um 1.000.000 de barris de petróleo! 

Custou a bagatela de R$ 336.000.000, o dobro do valor de mercado internacional.

Após Luiz Inácio brindar a platéia com sua poderosa verve de Cícero de Garanhuns e da disléxica Dilma balbuciar algumas palavras, terminado o comício João Cândido teve que ser recolhido ao estaleiro.

Isto para que não fosse a um encontro com Netuno no fundo do verde mar do Nordeste. “Verdes mares bravios da minha terra natal”, já cantava o bardo nordestino...

Feita uma avaliação das mazelas da nau, foram detectadas soldas defeituosas, tubulações que não se encaixavam, além de um rombo no casco maior que o rombo financeiro da OBX de Eike Batista!

Dizem que se ele permanecesse por mais algum tempo no mar, Luiz Inácio teria sido o primeiro Presidente a inaugurar um naufrágio com pompa e circunstância. 

Mesmo assim, isso não teria impedido sua canonização como São Luiz Inácio de Garanhuns! Padim Ciço que se cuide, ô xente!

De acordo com a assessoria da TRANSPETRO, uma das empresas da PETROBRAS, não se sabe quando o João Cândido poderá singrar os mares. 

Ele apresenta defeitos estruturais de construção só podendo ser consertados em empresas especializadas no exterior. Será que mezinha será pior do que a mazela?

Como havia dito Karl Marx, “A História se repete, só que a primeira vez é tragédia e a segunda, farsa”

E caso haja uma terceira - coisa bastante provável! – será comédia pastelão dos Três Patetas. 

A “Nau da República” –a expressão é de Horácio –está fazendo água  e corre o sério risco de naufragar...

 

* OBS. A conhecida musiquinha “Um elefante incomoda muita gente / Dois elefantes incomodam muito mais” (Bis)... é cantada em italiano assim: “C’era uma nave chi non poteva navigare” (Bis)...

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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