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16 Set 2011

Oceano de Sabedoria Inunda São Paulo

Escrito por 

Quando cultura é show-business, budismo também é espetáculo.

 

Em maio passado, eu saudava os 75 anos de Jampel Ngawang Lobsang Yeshe Tenzin Gyatso, vulgo Dalai-Lama (a palavrinha modestamente significa Oceano de Sabedoria) - que se pretende a 14ª reencarnação do príncipe Chenrezig, o Avalokitesvara, o portador do lótus branco, que representa o Buda da Compaixão. Naquela data, Sua Santidade – como prefere ser chamado – anunciou a intenção de ceder seu poder político a um líder "livremente eleito" pelos tibetanos, no 52º aniversário da fracassada revolta do Tibete contra a China.

Que poder político? O Oceano de Sabedoria fugiu da China em 1959, quando tinha 24 anos, e vive exilado na Índia há mais de 50 anos. Se em 1989 mereceu o Nobel da Paz, prêmio que é concedido aos mais ilustres vigaristas do planeta - remember Arafat, Martin Luther King, Rigoberta Menchú, madre Tereza de Calcutá – consta que hoje é financiado pelo ator americano Richard Gere. Sua Santidade vive correndo mundo envolto em seus parangolés, reivindicando a volta do Tibet a um regime teocrático. Isto é, reivindicando sua volta ao Tibet. Teocracia é palavra que arrepia o Ocidente. Menos quando se fala do Vaticano e do Oceano de Sabedoria.

Na ocasião, interrogada pelo Le Monde sobre o que a renúncia do Oceano de Sabedoria ao poder político implicava para sua reencarnação, disse a poetisa tibetana Tsering Woeser:

- O Dalai-Lama deteve por quinhentos anos o papel de um dirigente político e religioso na sociedade tibetana. Sua aposentadoria não diz respeito senão ao aspecto político. Portanto, isto não influenciará o processo de reencarnação, que é do plano religioso, um domínio do qual ele não se aposenta.

A 14ª reencarnação do portador do lótus branco, apesar de ter sido expulso de sua teocracia por Mao Tse Tung, ainda há pouco se declarou marxista:

- No que toca a crenças socio-políticas, eu considero-me um marxista... mas não um leninista. Marx não era contra a religião ou contra a filosofia religiosa em si, mas sim contra as instituições religiosos que, durante o tempo de Marx, estavam aliadas à classe governativa da Europa.

Pelo jeito, pouco ou nada leu do alemão que disse ser a religião o ópio do povo. Mas isto é o de menos. Sua Santidade chegou hoje a São Paulo para uma série de palestras dirigidas a empresários - "Nova Consciência nos Negócios - Valores para um Mundo Sustentável - Um Movimento de Transformação". Eram esperados 400 participantes na atividade, entre os quais vários presidentes de empresas, como a Nestlé, Nextel, Orsa, Boticário e Siemens. Hoje pela manhã, ainda havia ingressos disponíveis, à venda ao preço de R$ 500.

Ainda ontem, eu manifestava minha perplexidade ante os milhares de panacas siderados pelas bobagens proferidas pelos bispos evangélicos, que enriquecem a custas de suas insciências. São pobres de espíritos que vão atrás do primeiro vigarista bem falante que lhes prometa o paraíso, seja no além, seja aqui mesmo. Agora o caso é mais grave. É de supor-se que empresários da Nestlé, Nextel, Orsa, Boticário e Siemens não sejam exatamente analfabetos. Quando estes senhores se dispõem a pagar 500 reais para ouvir as sandices de um monge budista que se diz marxista, se pretende a 14ª reencarnação do Buda da Compaixão e além disto vive da caridade pública... bom, nada mais pode se esperar das elites deste país.

Amanhã, o Oceano de Sabedoria falará a uma platéia de cientistas e pesquisadores a respeito das práticas contemplativas, como a meditação. Confesso que não entendo isso de palestras ou aulas sobre meditação. Eu medito todos os dias, o tempo todo, diria que até medito dormindo. Há noites em que vou para a cama com um problema irresolvido e, ao acordar, voilà: a solução salta na hora. Isto deve ter ocorrido com o leitor. Quando dormimos, o bestunto continua trabalhando.

Para meditar, preciso de um contraponto. Um interlocutor, uma leitura. Não consigo extrair sabedoria de mim mesmo. Mesmo se não estou conversando ou lendo, tenho em mente leituras que fiz ou diálogos que tive. Agora se meditação é sentar-se em flor de lótus e contemplar o próprio umbigo, para isso tampouco precisa ensinamento. Não tenho idéia quais sejam tais cientistas e pesquisadores que ouvirão o Oceano falar sobre práticas contemplativas. Mas gente que pensa não é.

Em 1999, o Oceano de Sabedoria inundou Curitiba, capital que se gaba de ter características de Primeiro Mundo. Na Ópera de Arame, que não é de arame nem para óperas serve, Sua Santidade foi homenageada por importantes expressões “culturais” brasileiras, como Gilberto Gil, Rita Lee, Maitê Proença e Elba Ramalho. O líder espiritual do budismo, em sua visita ao Brasil, conseguiu fazer uma pontinha junto à troupe liderada pelo baiano. Nada de espantar neste país, onde João Paulo II disputa com padre Marcelo um lugar ao sol nas hit parades do mundo do disco. Terra abençoada esta nossa, que tudo se transmuda no colossal caldeirão da vulgaridade.

Quando cultura é show-business, budismo também é espetáculo.

Última modificação em Terça, 11 Março 2014 17:51
Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

1 Comentário

  • Link do comentário Flavio Levy Domingo, 18 Setembro 2011 16:59 postado por Flavio Levy

    Com certeza vc não entende nada de Dalai-Lama e muito menos de meditação.

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