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12 Ago 2011

Inglaterra, Ontem, Hoje, e Até Quando Mais?

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As coisas nunca são tão simples assim; raramente a realidade coincide com nossa visão. Certamente não se há de aprovar a violência por parte de quem quer que seja, polícia ou manifestantes, e a resposta para pôr um fim nisso é ouvir, ouvir, mas não com ouvidos de mercador.

 

Estes tumultos de já quase uma semana na Grã Bretanha não são, certamente, resultado de uma economia em queda; fosse assim, elas se estariam espalhando por outros países, os que estão em pior situação que a da Inglaterra.

Olhemos para o passado, não para 1981, Reino Unido, mas para Paris, 2005, ou mais recentemente, 2010. A economia não estava em crise em 2005, e nem tão mal em 2010 quanto está hoje, e não obstante, os tumultos ocorreram. Milhares de automóveis foram incendiados, depois da morte de dois jovens, eletrocutados quando fugiam da polícia.

Aquilo foi somente a faísca que causou a explosão do barril de pólvora de ressentimento acumulado ao longo de anos, uma onda de violência que se espalhou pelo país, exatamente como ocorre hoje na Grã Bretanha. O mesmo tipo de gente, na maioria, pobres, sem voz, expostos às agruras e falta de perspectivas de taxas de desemprego por volta de 40%.

A Polícia Metropolitana de Londres não é exatamente um exemplo de virtude, e a execução do brasileiro Jean Charles, em 2005, foi um fato, imperdoável. Os tiras que o fuzilaram com cerca de oito tiros não foram incriminados. Se o Estado viola a lei – Não matarás – pelas mãos de seus agentes e legitima tais ações, o que mais se há de esperar?

O Brasil é conhecido por sua violência urbana, embora haja outra, mais sutil, "diplomática", digamos, mas muito mais devastadora que um crime de rua, exatamente aquela praticada pelo Estado; no nosso caso, a corrupção disseminada, desviando dinheiro público que poderia ser utilizado na saúde, educação, melhores salários para policiais civis e militares dos Estados - os federais ganham muitíssimo bem, comparados aos demais. Nós teríamos, portanto, todos os ingredientes para emular os tumultos da Inglaterra e França, mas, surpreendentemente, nada disso ocorre por aqui.

Talvez, em parte, por termos leis duras e eficazes antirracismo - que, paradoxalmente, não combinam com a política de "igualdade racial" promovida pelo governo Lula, que exclui dessa "igualdade" os pobres que não são negros. Ora, igualdade, também paradoxalmente, é reconhecer as diferenças e aceitá-las, sem tentar dividir a sociedade em grupos disso ou daquilo.

Então, não, não é a economia, mas, sim, o povo ignorado, dizendo “basta!”. Que tal ouvi-lo, em vez de cogitar o absurdo de silenciar as redes sociais – censura pura, desavergonhada –, que tal pensar e agir no sentido de reduzir o hiato de desigualdade entre ricos e pobres?

Gastar bem o dinheiro público, definindo prioridades e combater a corrupção  é o meio legítimo para esse fim, seja no Brasil ou na Europa, onde o Reino Unido gasta 15 bilhões com as olimpíadas, uma fortuna, quer denominada em libras, dólares, euros ou reais.

Leis mais duras jamais foram a resposta adequada no Brasil, então, por que haveriam de sê-lo na Inglaterra?

As coisas nunca são tão simples assim; raramente a realidade coincide com nossa visão. Certamente não se há de aprovar a violência por parte de quem quer que seja, polícia ou manifestantes, e a resposta para pôr um fim nisso é ouvir, ouvir, mas não com ouvidos de mercador.

Última modificação em Terça, 11 Março 2014 17:31
Luiz Leitão

Luiz Leitão da Cunha é administrador e consultor de investimentos, sendo articulista e colunista internacional, especialmente para países lusófonos. É colaborador do Jornal de Brasília, Folha do Tocantisn, Jornal da Amazônia, Diário de Cuiabá, Publico (Portugal), entre outros.

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