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02 Ago 2011

Sete Bilhões de Habitantes

Escrito por 

Nenhum ser humano tem o direito de consumir para sempre mais do que qualquer outro. Ainda que nós pudéssemos de alguma maneira reduzir lacuna do consume global, a importâncias dos nossos números seria ainda mais óbvia do que os limites dos sistemas naturais que ultrapassamos.

 

Com a expectativa de a população mundial ultrapassar os sete bilhões este ano, o tamanho do impacto no meio ambiente é difícil de ignorar.

Os 13,4 bilhões de habitantes da China estão causando um crescente impacto ambiental – e, sejamos honestos,  os dos demais países, inclusive o Brasil, também.

Demógrafos  fizeram piada com a tragédia, dizendo os que trabalham para a ONU que população mundial deverá atingir os 7 bilhões no dia do Halloween deste ano (31 de outubro). Como censos e outras pesquisas dificilmente justificariam tão preciso cálculo, é tentador imaginar que Divisão de População da ONU, o centro de dados que apontou o Dia dos Sete Bilhões, está sugerindo que nós devemos ter medo, muito medo.

Temos razões para isso. O século 21ainda não tem doze anos de existência, e já há um bilhão a mais de pessoas do que em outubro de 1999 —  com a perspectiva de os suprimentos futuros de energia e alimentos (que também são energia) se tornando mais sombrias do que o foram por décadas. A humanidade levou todo o século 19 para alcançar seu primeiro bilhão de pessoas; depois mais 1,5 bilhão foram acrescidos no século e meio seguinte. Somente nos últimos 60 anos a população mundial ganhou outros  4,5 bilhões, o que é escandalosamente alarmante. Nunca antes tantos animais de uma só espécie do tamanho da nossa habitaram o planeta.

E essa espécie interage com suas circunvizinhanças muito mais intensamente do que quaisquer outras. O planeta Terra se tornou o Planeta Humanidade, já que cooptamos ciclos de carbono, água, e nitrogênio de maneira tão completa à qual nenhuma outra força se compara. Pela primeira vez na vida há história em mais de três bilhões de anos, uma forma de vida — a nossa — condena à extinção proporções significativas de plantas e animais que são nossa única companhia no universo - até onde a ciência sabe.

Alguém alguma vez observou que tais impactos não resultam de nossa grande população, mas de nosso exagerado e desnecessário consumo?

Provavelmente, pois essa assertiva aparece constantemente em várias publicações, livros, e na blogosfera. É como se um texto sobre geometria fosse a proposição do axioma que não é o comprimento que determina  a área de um retângulo, mas a largura. Acaso nos preocuparíamos com o nosso consumo individual de energia e recursos naturais se a humanidade ainda tivesse a população estável de quase 300 milhões de pessoas — menos que a população atual dos Estados Unidos — que a espécie manteve por todo o primeiro milênio da atual era?

É exatamente devido ao exagerado tamanho de nossa população e seu rápido crescimento que nós devemos nos acautelar mais ainda a cada geração (20-25 anos) sobre quantos indivíduos temos fora de sincronia com a tão apregoada sustentabilidade ambiental. Nossa dieta, nossos meios de transporte, e nossa insistência em manter as temperaturas interiores próximas a 21 graus Celsius, a chamada temperatura de conforto, não importando o que ocorre do lado de fora — nada disso nos torna um povo medonho. É apenas que, coletivamente, tais comportamentos estão deslocando os sistemas planetários básicos para zonas de perigo.

O branqueamento dos corais, a acidificação dos mares, a desertificação na África, China e algures. Fatores importantíssimos, que aparecem diariamente nos jornais, mas é como se a humanidade estivesse anestesiada – ou por demais presa a vícios de consumo – para levar tudo isso realmente a sério.

Mais um argumento frequentemente utilizado para defender o aumento populacional é afirmação que todos nós caberíamos na cidade de Los Angeles, Califórnia, com espaço para mexer nossos ombros. A ideia pode ser confortadora para alguns. Mas espaço, é claro, nunca foi a questão. O impacto de nossas necessidades, ambições e desejos é que o são. Nós deveríamos lamentar — e lidar ativamente — com a  iniquidade generalizada que caracteriza o consumo individual mundo afora.

Mas nós deveríamos também reconhecer que o aumento ao longo de décadas  de boa parte do tempo de vida das pessoas,  a maioria de nós com tendência a consumir uma quantidade razoável, não obstante onde e como vivamos; nenhum ser humano, não importa quão pobre, pode  deixar de interagir com o meio ambiente, uma razão pela qual a população importa tanto. E dada a escala do sistema econômico global e o desenvolvimento otimisticamente antecipado em todas as regiões do mundo, cada um de nós tem uma tendência a consumir mais do que a duração do tempo de vida. Um pai de sete crianças pobres pode vir a ser avô de  10 a 15 muito mais afluentes subindo a escada de consumo da classe média.

Esta, na verdade, é a história da China, frequentemente vista não como um exemplo do impacto da população no meio ambiente, mas da rápida industrialização em si, apenas. Ainda que esse país, tendo crescido demograficamente por milênios, abrigue 1,34 bilhão de pessoas.

Uma razão pela qual o crescimento de populações de consumo ainda baixo é perigoso é que a explosão do consume per capita historicamente se seguiu a décadas de rápido crescimento demográfico que ocorreu enquanto as taxas de consumo per capita eram baixas. Exemplos incluem os Estados Unidos nos séculos 19 e 20, a China na virada do século 21, e a Índia, possivelmente na próxima década.

Mais imediatamente preocupado com a perspectiva ambiental, é claro, os Estados Unidos e o mundo industrializado como um todo ainda têm populações em crescimento, apesar dos recentes declínios nas taxas de crescimento, enquanto já convivendo com um decréscimo no consumo per capita.

Muitos dos impactos desta ubíqua multiplicação do consumo per capita dos recursos pelo número de indivíduos estão agora bem documentados. A humanidade começou a saturar a atmosfera com gases do efeito estufa pouco depois do início da Revolução Industrial, um processo que se acelerou com o crescimento populacional e do consumo no século 20.

A água fresca é agora compartilhada tão escassamente que os projetos do Programa do Meio Ambiente da ONU (UNEP) contemplam a previsão de que em apenas 14 anos dois terços da população mundial estará vivendo em países que enfrentam escassez de água, ou dificuldade em obtê-la.

Metade das florestas originais do mundo foram derrubadas para uso humano da terra, e o UNEP alerta que os peixes do planeta estarão efetivamente esgotados na metade deste século.

A área mundial de terras cultivadas se expandiu em cerca de 13 por cento, desde o início de sua medição, em 1961, mas a duplicação da população mundial desde então significa que cada um de nós só pode contar com a metade de terras com que contava em 1961 para  produzir o alimento que consumimos.

Pelo resto da vida na terra, as implicações disso tudo são óbvias. Aonde nós formos a natureza recuará. Estamos entrando em uma época que os cientistas começaram a chamar o Antropoceno, uma ruptura com o passado geológico, marcada pela alteração de longo prazo do mundo natural da humanidade e sua biota. Nós estamos inadvertidamente causando a sexta extinção em massa não apenas porque nosso apetite é grande e nossas tecnologias poderosas, mas porque ocupamos ou manipulamos a maior parte da terra em todos os continentes, à exceção (por ora) da Antártica. Nós nos apropriamos onde quer que seja de entre 24 por cento a cerca de 40 por cento da produção fossintética do planeta para nossos alimentos (e agora combustíveis, também) e outros propósitos, e de mais da metade de suas fontes renováveis de água fresca acessíveis.

Considerando esses fatos, é duramente surpreendente que a conservação da natureza enfrente uma batalha global ladeira acima, e em todas as nações, enquanto conceitos ambiciosos como a criação de corredores de natureza para ajudar as espécies a escapar da devastação causada pelo desenvolvimento e mudanças climáticas proliferam a despeito de sua impraticabilidade em um mundo de crescentes impactos causados pelo crescimento humano.

Então, devemos recear o dia em que nascer o sétimo bilionésimo ser humano, especialmente considerando que os demógrafos da ONU estão agora projetando algo entre 6,2 bilhões e 15,8 bilhões de pessoas no final do século? Temor não é particularmente uma resposta produtiva — coragem e a determinação de agir em  face do risco são a resposta. E nesse caso, há tanto a ser feito para curar e sustentar um mundo de sete bilhões de seres humanos respirantes que a covardia não seria apenas fatalista, mas estúpida.

Agir significa fazer várias coisas diferentes agora mesmo. Não podemos parar o crescimento de nossos números de nenhuma maneira aceitável imediatamente.

Mas podemos criar condições que apoiarão um rápido fim do crescimento, possivelmente fazendo deste ano o último com a marca de mais um bilhão na população mundial. Podemos aumentar a autonomia das mulheres para tomar decisões de mudanças em suas vidas. Podemos baixas as taxas de nascimentos assegurando às mulheres que engravidem apenas quando elas próprias decidirem ter uma criança.

Simultaneamente, necessitamos de uma rápida transformação no consumo de energia, água, e materiais através da conservação, eficiência, e tecnologias (realmente) verdes. Não devemos pensar nessas coisas como uma sequência de esforços — lidar com o consume primeiro, porque a dinâmica da população demora a mudar — mas como frentes de trabalho simultâneas ou múltiplas. Seria ingênuo acreditar que alcançaremos a tal sustentabilidade lutando contra tecnologias em constante mudança e estilos de vida enquanto a população humana cresce indefinidamente e as pessoas se esforçam para viver tão confortavelmente quanto os americanos.

Nem devemos nos confortar com a ilusão de que o crescimento populacional logo esteja realmente num caminho descendente. Demógrafos não podem mais nos dizer quando isso ocorrerá (ou através de qual combinação de menores taxas de nascimento ou taxas de mortalidade mais altas) do que os economistas podem prever qual robusta será a retomada do crescimento global. Ambos os grupos de especialistas estão sendo ridicularizados pelas várias surpresas que o futuro guarda no bolso do colete.

Mais do que (tentar) prever o futuro, nós devemos trabalhar para assegurá-lo. Mais de duas em cinco gravidezes em todo o mundo são indesejadas e não pretendidas pelas mulheres que as contraem, e metade ou mais dessas gravidezes resultam em nascimentos que induzem o crescimento contínuo da população. Há claramente um vasto potencial para reduzir esse crescimento através de algo que as mulheres querem e de que necessitam: a capacidade de decide por elas mesmas quando engravidar. Se todas essas mulheres tivessem essa capacidade, dados de pesquisas asseguram, a média global de nascimento de crianças cairia imediatamente abaixo do valor de "fertilidade de reposição" valor pouco acima de duas crianças por mulher. A população iria imediatamente tomar um curso que levaria a um pico seguido de um declínio gradual decline, possivelmente bem antes de 2050.

Apesar das óbvias barreiras aos direitos das mulheres no mundo hodierno, tal visão se baseia em um conjunto de condições simples e alcançáveis: As mulheres devem poder fazer suas escolhas livres de medo, coação ou pressões dos parceiros, família e sociedade. Elas não devem depender de uma maternidade abundante para obter aprovação social e autoestima. E elas devem ter fácil acesso a uma gama de métodos contraceptivos seguros, eficazes, e baratos, e às informações e aconselhamento necessários para usá-los.

Para os que se importam com o meio ambiente, o future da civilização humana, ou ambos, o Dia dos Sete Bilhões deveria nos estimular a enfrentar e tratar os ricos do contínuo crescimento populacional. Pela simples escalada nossa presença e atividades nós estamos colocando em risco nós mesmos e todos os tipos de vida.

Nenhum ser humano tem o direito de consumir para sempre mais do que qualquer outro. Ainda que nós pudéssemos de alguma maneira reduzir lacuna do consume global, a importâncias dos nossos números seria ainda mais óbvia do que os limites dos sistemas naturais que ultrapassamos.

Isso mal reduz a importância de diminuir ambos, consumo e desigualdade para comemorar o fato de que o crescimento populacional pode ser refreado sem a necessidade de políticas que restrinjam nascimentos, sem coerção de qualquer tipo, sem o julgamento daqueles que decidem ter grandes famílias. Não estamos longe de um mundo no qual o número de nascimentos praticamente se equilibre com as taxas de mortalidade, baseado em gravidezes universalmente bem vindas, desejadas, pelas mulheres e seus parceiros.

A transição para este mundo pode não ser totalmente indolor. Nações terão de se ajustar a taxas crescentes de idade da população enquanto caem as de nascimento. Na China e na Índia, famílias menores  poderão contribuir para proporções artificialmente altas de bebês meninos, com possíveis riscos de futura instabilidade social.

Mas esses problemas são do tipo com que as sociedades e instituições geralmente lidam bem. Estancar as mudanças climáticas, reduzir a escassez de água, ou manter a integridade dos ecossistemas, em contraste, ainda não parecem fazer parte do nosso conjunto de habilidades.

Trabalhar agora para estancar o crescimento populacional através de nascimentos planejados, intencionais, não resolverá tais problemas por si só, mas ajudarão — e muito. E esse esforço, baseado em direitos humanos e a dignidade e liberdade das mulheres que têm filhos no mundo, é do interesse de todos os que se preocupam com um meio ambiente realmente  sustentável e o futuro da humanidade.

Última modificação em Terça, 11 Março 2014 17:28
Luiz Leitão

Luiz Leitão da Cunha é administrador e consultor de investimentos, sendo articulista e colunista internacional, especialmente para países lusófonos. É colaborador do Jornal de Brasília, Folha do Tocantisn, Jornal da Amazônia, Diário de Cuiabá, Publico (Portugal), entre outros.

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