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16 Abr 2004

Sinal Vermelho em Abril

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Nas pesquisas o governo é avaliado separadamente do presidente, o qual aparece sempre bem melhor situado perante a opinião pública como se nada tivesse a ver com o que acontecesse no país.

Nas pesquisas o governo é avaliado separadamente do presidente, o qual aparece sempre bem melhor situado perante a opinião pública como se nada tivesse a ver com o que acontecesse no país. E quando se comenta que a paralisia está tomando conta da nação, afirma-se que tal coisa se deve ao governo, em que pese o ministro da Casa Civil, José Dirceu – que continua manobrando as engrenagens da máquina política – sempre fazer questão de dizer que quem decide é o presidente.

É verdade que um presidente não governa sozinho, mas no sistema presidencialista ele é a figura que se destaca como líder aos olhos do povo. E num país com nossa formação histórica, onde o Estado sempre assumiu condutas paternalistas, clientelistas e o poder personalizado se concentra nas principais figuras do Executivo, destas costuma-se esperar ações voltadas para o bem comum, fim último da política na concepção aristotélica. Desse modo, se um presidente da República não governa sozinho, precisa, no mínimo, ser visto como líder e no máximo como estadista.

O presidente Luiz Inácio, apesar da intensa propaganda que o envolveu durante a campanha eleitoral e que continua tentando protegê-lo do descrédito popular, começa a produzir em seus milhões de eleitores a desconfortável sensação de que ele também faz parte do governo, mas não governa, não lidera e vem tendo a autoridade inerente a seu cargo erodida. Esse sentimento é mais acentuado em grupos de interesse que sempre lhe foram fiéis (setor da Igreja chamado de progressista, funcionários públicos, MST, CUT, professores universitários, jornalistas) e nos novos grupos que o apoiaram (empresários, militares, evangélicos).

A questão que poucos parecem entender, é que o presidente Luiz Inácio não foi eleito para governar, pelo simples fato de que não acumulou ao longo de 24 anos de PT a mínima experiência administrativa que o habilitasse a assumir o complexo cargo da presidência da República num país com os desafios como os nossos. Isso não tem a ver com diploma, mas relaciona-se com o aprendizado que se adquire através da prática. A experiência do atual presidente foi de cunho político-sindical e, depois, durante 12 anos desenvolvida em campanhas eleitorais. Por conta disso, Lula apenas aprendeu a ser o ídolo que emociona com discursos toscos, ornamentados com críticas contundentes e plenos de promessas irrealizáveis, mas vazios de conteúdo. Por conta disso e da inexperiência dos quadros que dão sustentação ao governo do PT, o ano da campanha foi o da esperança, o ano passado foi o da paciência, mas 2004 está sendo o ano da desilusão e do desgoverno.

Na verdade, 2004 começou mal. O escândalo Waldomiro Diniz, por mais abafado que siga, conspurcou o partido que se supunha imaculado. E a ocultação dos fatos, sob o sorriso debochado do ex-assessor que privava da intimidade do ministro José Dirceu, e que sempre conviveu com próceres da República, como o ministro Palocci e o ministro Gushiken, faz supor que Waldomiro sempre foi bom companheiro e isso ninguém pode negar.

Na esfera social, o abril vermelho é ruptura do Estado de Direito que o mentor do MST, João Pedro Stédile, esfrega na cara do presidente da Republica, do seu governo e de toda sociedade. Em vão, na CPI da terra, alertou o presidente da UDR, Luiz Antonio Nabahn, que os produtores rurais são responsáveis por um terço do Produto Interno Bruto (PIB) e por 42% da balança comercial. Portanto, à medida que o presidente e seu governo seguem premiando as ações do MST com mais recursos e ignorando a lei no caso das invasões das propriedades e dos esbulhos praticados pelos sem-terra, não apenas não fazem a reforma agrária que deveria ser feita, como atrapalham um dos raros setores que está funcionando, o do agronegócio.

No abril vermelho de Stédile, somam-se aos desmandos do MST as greves que vão se multiplicando, enquanto em meio à crise política e social a recuperação industrial perde fôlego e o rendimento em queda dos trabalhadores continua impedindo a recuperação da produção de bens e serviços. Prossegue o desemprego e a taxa de inadimplência no comércio atingiu 13% em março, a maior desde 1991. Nesse cenário, não é de se admirar que a confiança dos investidores comece a ser abalada e o risco Brasil aumente.
Lula prometeu demais, mas Luís Inácio da Silva não consegue governar e, assim, acendeu-se no país um sinal vermelho, do qual o abril de Stédile é apenas um reflexo.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:33
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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