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26 Jul 2011

Psi Reincide no Besteirol

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Como já vai longe a época em que os jornalistas tinham alguma cultura geral, estas bobagens saltam na imprensa como pipocas numa panela. Que um jornalista pouco afeito à grande leitura profira tal asneira, até que se entende. Para um acadêmico com tantos títulos, fica feio, muito feio.

 

A imprensa não passa semana sem publicar certas bobagens recorrentes ao longo da História. Uma delas é achar que Picasso teve a intenção de pintar o bombardeio de Guernica em sua tela Guernica. Outra é debitar a Nietzsche e sua idéia de Übermensch a origem do nazismo. Uma terceira, que se repete a toda hora, é atribuir a Dostoievski a frase “se Deus não existe, tudo é permitido”.

Ainda na quarta-feira passada, eu dizia não lembrar, em meu mais de meio século de vida, de ter ouvido algo inteligente da boca de um psicólogo ou psicanalista. São profissionais que se munem de teorias para explicar o que nenhuma teoria explica, o ser humano. Até pode ser que algum psi, em algum momento, tenha feito alguma afirmação pertinente. É a chispa da ferradura quando bate na calçada. Desta vez, não transcorreu sequer uma semana para os psis reincidirem na mesma bobagem, no mesmo jornal.

Na crônica passada, eu me referia ao psicólogo Paul Bloom, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Yale (EUA) que, entrevistado pela Folha de São Paulo, repetia a eterna sandice sobre Dostoievski. Hoje, no mesmo jornal, o psicanalista Luiz Felipe Pondé faz eco ao besteirol. Não por acaso, Pondé comenta a “excelente entrevista com um psicólogo professor de Yale na página de Ciência desta Folha da última terça”.

- Mas voltando ao erro na leitura de Dostoiévski. Do fato que religião não deixa ninguém melhor, o professor conclui que Dostoiévski estava errado quando afirmou que "se Deus não existe, tudo é permitido". Erro clássico. Essa afirmação de Dostoiévski não discute sua crença, nem o consequente comportamento moral decorrente dela (como parece à primeira vista). Ela discute o fato de que, pouco importando sua crença, se Deus não existe, não há cobrança final sobre seus atos. O "tudo é permitido" significa que não haveria "um dono do Universo" para castigá-lo (ou não), dependendo do que você fizesse.

Só tem um pequeno detalhe: Dostoievski jamais escreveu isso. Ao corrigir o suposto erro de Paul Bloom, Pondé reincide no verdadeiro erro de Bloom. Foi Sartre quem divulgou, urbi et orbi, esta bobagem, repetida até por dona Dilma, quando pretendeu demonstrar erudição. Quem menciona esta frase são geralmente pessoas que nunca leram Dostoievski e o citam de ouvir falar. Pelo que se lê nos jornais, apesar de sua vasta obra, Dostoievski é autor desta única frase. Não tenho lembrança de ter ouvido a citação de qualquer outros topoi do escritor russo.

Há alguns anos, me dei ao trabalho de reler Os Irmãos Karamazov para ver se Dostoievski havia realmente escrito tal bobagem. Não encontrei. O russo refere-se a Deus, é verdade, mas também à imortalidade. Ou seja, o tudo é permitido depende de castigo ou recompensa no Além. A simples idéia de Deus não é suficiente como sanção. Sem a referência à imortalidade, Dostoievski está deturpado.

Psicanalista e sedizente filósofo, doutorado em Filosofia pela USP/Universidade de Paris e pós-doutorado em Epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor convidado nas universidades de Marburg e de Sevilha, Pondé tem em sua bibliografia um ensaio intitulado Filosofia da Religião em Dostoievski. Só parece não ter lido Dostoievski atentamente.

Como já vai longe a época em que os jornalistas tinham alguma cultura geral, estas bobagens saltam na imprensa como pipocas numa panela. Que um jornalista pouco afeito à grande leitura profira tal asneira, até que se entende. Para um acadêmico com tantos títulos, fica feio, muito feio.

Última modificação em Terça, 11 Março 2014 17:26
Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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