Sáb07112020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

28 Set 2004

Caridade Global: Um Projeto do Poder

Escrito por 

De todo modo, o presidente Luiz Inácio não desiste de comandar uma nova ordem internacional, projeto de poder com jeito caritativo e altamente globalizador.

No discurso proferido na abertura da 59ª Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Luiz Inácio não apresentou grandes novidades. Ele verbalizou estratégias elaboradas pelos ideólogos do seu governo, voltadas para ampliação mundial do poder brasileiro a ser simbolizado por sua pessoa como condutor dos “povos silenciados pela fome”. Conforme a peça de oratória, a culpa da exclusão social seria da globalização “assimétrica e excludente”, idéia que está longe de ser verdadeira, mas que sempre impressiona por sua carga de nacionalismo estrepitoso.

Com palavras ardorosas, provavelmente redigidas por diplomata de linha terceiro-mundista, Sua Excelência, em que pese tropeçar em frases e trocar algumas palavras, deve ter feito o discurso soar como música aos ouvidos das lideranças dos países subdesenvolvidos. Ele pareceu querer ressuscitar aquele sentimento de colonizado ao falar em barreiras protecionistas dos países ricos, apesar do Brasil usar e abusar dessa prática. E logo de início sua fala adquiriu um tom de poesia revolucionária: carrego um “compromisso de vida com os silenciados pela desigualdade, a fome e a desesperança”. Com isso ficou no ar aquele toque de esquerda que não deixa de ter seu charme. De certo modo era como se o presidente revivesse a teoria marxista da luta de classes cultivada outrora pelos intelectuais de seu partido e bradasse aos quatro ventos o chamamento global do Manifesto do Partido Comunista: “Proletários de todo mundo, uni-vos”.

Além de criticar como de hábito o FMI, organização que vive seus grandes momentos de lua de mel com o governo brasileiro, o presidente Luiz Inácio voltou a um dos seus temas predileto: o combate à fome, que se no Brasil redundou até agora no mais perfeito fiasco, converteu-se em nosso maior produto de exportação em termos de marketing global.

Entretanto, a obsessão do presidente com relação à eliminação da pobreza e da fome perdeu um pouco de brilho desta vez por conta da concorrência francesa. Isso porque, o presidente Jacques Chirac se apresentou como dono da idéia de combater a miséria dos povos através da criação de uma taxa mundial proposta por ele há cinco anos. No projeto de Chirac não há menção à taxação de armas, como gostaria nossa diplomacia, pois tal coisa não convém aos interesses da França, mas a “taxa da solidariedade”, de autoria da comissão presidida por Jean Pierre Landau, e calculada em 50 bilhões de dólares anuais seria sustentada por contribuições voluntárias e globais, sendo as segundas pagas pelos que usam a Internet, consomem produtos de luxo ou produzem lixo nuclear. Segundo texto distribuído pela agência France-Presse, Chirac, “com uma filosofia de esquerda mais típica de um justiceiro tipo Robin Hood que de um mandatário de direita, convenceu a seu colega brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e juntos obtiveram o apoio dos governos do Chile e da Espanha” a nova taxa (O Estado de S. Paulo, 22/09/04). Se isso se confirmar os argentinos poderão nos chamar de novo de “macaquitos” que apenas copiam idéias alheiras.

De todo modo, o presidente Luiz Inácio não desiste de comandar uma nova ordem internacional, projeto de poder com jeito caritativo e altamente globalizador (em que pese suas críticas à globalização). Essa idéia fixa inclui o tão almejado assento no Conselho de Segurança da ONU e, a partir daí, a possibilidade de influenciar mudanças nesse organismo para torná-lo um poderio de controle real e efetivo sobre todos os países.

Dentro da mesma perspectiva sua excelência criticou a atual ordem mundial ao afirmar que, “poderosa e onipresente uma engrenagem invisível comanda à distância o novo sistema. Não raro, revoga decisões democráticas, desidrata a soberania dos Estados, sobrepõe-se a governos eleitos, exige a renúncia de legítimos projetos de desenvolvimento social”.

Note-se que anos atrás se usava o termo imperialismo ao invés de globalização, mas ninguém parece lembrar de que projetos globalizados sempre existiram através da história, sendo que no século passado estiveram presentes na ideologia e na ação dos sistemas totalitários, comunista e nazista. Curiosamente, estes nefastos impérios nunca são mencionados nos discursos brasileiros.

Enquanto o presidente Luiz Inácio pretende convencer o mundo a fazer caridade (que jamais resolveu o problema da pobreza, mas pelo contrário manteve os pobres cada vez mais pobres), seu governo, apesar dos excessivos ministérios e do aparelhamento do Estado pelos companheiros, não consegue implementar no País projetos sociais eficientes. Portanto, se a maior parte dos brasileiros está longe de encontrar reais oportunidades de melhoria de condições de vida, se nossa democracia tem levado constantes e fortes trancos, como seria a nova ordem mundial do PT? A quem de fato ela interessa? Mesmo quimérica essa idéia dá arrepios quando se pensa nela.

Última modificação em Quarta, 25 Setembro 2013 19:53
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.