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08 Jun 2011

Prometeu Chora e o Povo Acha Graça

Escrito por 

O filosofar é uma atividade inevitável e quem afirma abominar tal empreitada, sem o saber já se encontra a trilhar pelas vias abertas junto aos umbrais de Delfos, porém, pela mais vil e estúpida das vias abertas a par deste augusto templo.

 

O filosofar é uma atividade inevitável e quem afirma abominar tal empreitada, sem o saber já se encontra a trilhar pelas vias abertas junto aos umbrais de Delfos, porém, pela mais vil e estúpida das vias abertas a par deste augusto templo.

Sim, negar-se a conhecer-se a si mesmo é um legítimo atestado de estultice orgulhosa cultivada em meio aos campos da vaidade e nada mais. Entretanto, a idolatria do filosofar também é algo temeroso. Aliás, idolatria essa que se faz reinante nos hodiernos dias.

Uma coisa, meu caro Horácio, é o filosofar, outra bem distinta é o culto desmedido feito à palavra filosofia e desta disciplina mal formatada que leva esse nome e que ocupa um significativo espaço dentro do sistema educacional. Como todo idolatrar, este acaba por confundir a representação com o representado, atribuindo a esse uma força desmedida que acaba por, retroativamente, exercer uma influência hipnótica no indivíduo e, neste caso, auto-hipnótica, submergindo a alma desarmada em uma atmosfera de auto-engano que pode, muitas das vezes, levar o sujeito a um estado de demência.

Os dois caminhos apontados são possibilidades humanamente possíveis de serem trilhadas, porém, ambas são vias que distanciam o indivíduo da plena realização de sua humanidade. Sim, nascemos dotados de faculdades e de dons, porém, todos esses dons e faculdades são potências da alma que não foram realizadas plenamente e que só o serão por um ato volitivo apropriadamente cultivado.

Por um ato volitivo, muitas das vezes, podemos nos afastar significativamente da plenitude de nossa humanidade, não é mesmo? E o mais interessante nisso tudo é que tanto a negação do filosofar como a idolatria deste, são feitos sob o julgo de que tais atitudes seriam o supra-sumo da sabedoria. No primeiro caso temos o desdém, e mesmo a cegueira, da tensão que há em nossa alma, tensão entre a procura pela plenitude e a aceitação orgulhosa da mediocridade. Já no segundo, impera a vaidade nascida do culto da imagem do caminho idolatrado, mas que não é seguido devido a uma cavalar dose de covardia advinda de uma desmedida porção de auto-piedade.

Tanto num como no outro, temos realidades humanamente concretas ciosas por serem refletidas e transformadas em algo que seja muito mais que uma casca putrefaz de humanidade degradada pelo medo à verdade que se esconde atrás de seu amor à vacuidade por suas tolas opiniões sobre si e sobre tudo. Há muito mais em nosso íntimo do que costumamos ver e não vemos por tanto prestar atenção em nossas palavras vazias e nas imagens toscas que compramos de um mundo sem sentido que quer nos arrastar para sua fétida cova com ele. Muito mais mesmo.

Pax et bonum

Última modificação em Segunda, 10 Março 2014 21:48
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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