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25 Mai 2011

Polícia Proíbe Passeata Mas Permite a Maconha

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Se o governador acha que tanto polícia como manifestantes agiram errado, eu acho que ambos estão sendo ridículos. Primeiro os manifestantes, que querem legalizar o que há muito está legalizado. Quando você viu alguém ser preso por fumar maconha? Se viu, foi lá no século passado.

A chamada Marcha da Maconha, que reuniu sábado passado cerca de 700 gatos pingados na avenida Paulista, foi reprimida pela polícia, com bombas de efeito moral e balas de borracha. É o que leio na Folha de São Paulo. Ainda segundo o jornal, Geraldo Alckmin, o governador de São Paulo, disse que os participantes da marcha de sábado erraram ao prejudicar o trânsito, mas que a polícia também errou ao usar violência.

"Um erro não justifica o outro. A polícia tem competência para lidar com essas questões sem cometer violência. Não compactuamos com isso. Vai ser averiguado se houve excesso", afirmou Alckmin. A PM diz que houve apologia ao uso de drogas e princípio de tumulto entre grupos contrários e, por isso, agiu "de forma enérgica".

Se o governador acha que tanto polícia como manifestantes agiram errado, eu acho que ambos estão sendo ridículos. Primeiro os manifestantes, que querem legalizar o que há muito está legalizado. Quando você viu alguém ser preso por fumar maconha? Se viu, foi lá no século passado. Há exatamente um mês, eu afirmava que isso de defender a legalização da maconha no Brasil era bandeira sem causa. Algo como defender a legalização do amanhecer. Quando falo nisto, me sinto como João clamando no deserto. Parece que até hoje ninguém percebeu que a droga está há muito permitida.

Em segundo lugar, a polícia. A cerca de um quilômetro aqui de casa, centenas de zumbis vagam pelas ruas fumando crack e maconha a céu aberto, na chamada Cracolância. Numa movimentada travessinha próxima à praça da República, no centro da cidade, dezenas de vagabundos jogados na calçada acendem seus cachimbos, em plena luz do dia. A polícia faz que não vê.

Ainda em fevereiro deste ano, Dona Dilma, que se diz tão preocupada com o problema das drogas, trocava beijinhos com o ex-presidente Fernando Henrique, em pleno auditório da imponente Sala São Paulo. Que está cercada pela Cracolândia. A cem metros da presidente, a droga corria solta nas calçadas. Como a droga mais consumida é o crack, convencionou-se chamar aquele espaço de Cracolândia. Mas lá você encontra o que quiser, desde a canabis até a cocaína.

Não imagine o leitor que este comércio é operado na clandestinidade. Nada disso. Ocorre à luz do dia, na frente de viaturas de policiais. Não gosto muito da palavra dantesco, me parece um lugar comum, mas é a única que encontro para definir o local. Dante ilustrado por Doré. Há uns dois anos, passei de táxi por uma extremidade da rua Guaianases, a que mais concentra drogados. Dantesco e assustador. Centenas de zumbis, crianças e adultos, homens e mulheres, enrolados em cobertores e capuzes, cachimbando crack, coalhavam a rua. Nenhum taxista ousa entrar no pedaço. A rua toda foi tomada pela droga. Tudo isto no centro da mais importante capital do continente.

Já apologia da droga não pode. (Exceto quando feita por roqueiros do Primeiro Mundo, que recebem então toda segurança e proteção da polícia). Segundo o coronel reformado da PM José Vicente da Silva Filho, consultor em segurança pública, “a maconha é proibida. Enquanto for assim, não outra interpretação a não ser proibir qualquer forma de apologia a ela”.

Em que mundo vive este senhor? Pelo que sei vive em São Paulo, onde o consumo de crack e maconha é feito nas ruas em plena luz do dia. Será que o coronel não sabe que Cracolândia está se espalhando como mancha de óleo pela região central da cidade? Será que nunca passou por aquela travessa junto à praça da República, onde dezenas de quase-cadáveres, fedendo à urina e fezes, jazem na calçada?

Em julho de 2009, vinte órgãos públicos e mais de 250 policiais não foram suficientes para acabar com a cena que se vê há 20 anos na Cracolândia. Seis horas após o início de uma nova operação destinada a revitalizar uma das áreas mais degradadas da capital, centenas de viciados voltaram às ruas, com cachimbos em mãos e cobertas nas costas, nos pontos tradicionais de consumo da droga.

Em vez de atacar o problema com o rigor devido, autoridades fornecem cachimbos aos pobres diabos para que se droguem sem maiores problemas. Enquanto isso, fazem Blitze contra os fumantes nos restaurantes. Já chegamos, ao que tudo indica, à condição das coffee shops da Holanda, onde você recebe um cardápio para escolher maconha ou cogumelos alucinógenos. Mas está proibido de fumar cigarros.

Última modificação em Segunda, 10 Março 2014 21:51
Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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