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23 Mai 2011

Lukács Não Compreendeu Goethe

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Lukács não revelou apenas ignorância em seu Posfácio, expôs também a limitação do método marxista para análise literária. A grande obra de arte trata sobretudo das questões da alma.

Ao concluir a leitura do livro OS ANOS DE APRENDIZADO DE WILHELM MEISTER, de Goethe, na excelente edição da Editora 34, deparei-me com um Posfácio escrito por Georg Lukács em 1936. Eu havia lido outros textos do autor húngaro sobre a peça FAUSTO e rapidamente dei-me conta da pobreza de sua interpretação, um reducionismo marxista incompatível com a grandeza do alemão. Compreender a obra goethiana é sobretudo compreender sua metafísica, seus símbolos. Nada aparece lá fora de lugar.

Faço esse comentário a propósito de uma afirmação de Lukács sobre o Wilhelm Meister: “O problema do teatro e do drama domina, portanto, completamente a primeira versão. Na verdade, o teatro significa aqui a libertação de uma alma poética da indigente e prosaica estreiteza do mundo burguês. Assim fala Goethe de seu herói: ‘Não havia de ser um palco para ele um porto seguro, já que, comodamente abrigado, sem se importar com intempéries, poderia admirar o mundo como numa redoma, como num espelho seus sentimentos e suas futuras ações, as figuras de seus amigos e irmãos, dos heróis, e o abrangente esplendor da natureza?’ Na versão posterior, o problema se amplia para a relação entre a formação humanista da personalidade total e o mundo da sociedade burguesa. Quando, em Os Anos de Aprendizado, o herói se decide finalmente a entrar para o teatro, formula a questão da seguinte forma: ‘De que me serve fabricar o ferro, se meu próprio interior está cheio de escória? E de que me serve também colocar em ordem uma propriedade rural, se comigo mesmo me desavim?’ O motivo de sua decisão provém de sua compreensão, à época, de que o teatro lhe poderia proporcionar o perfeito desenvolvimento de suas capacidades humanas. O teatro, a poesia dramática são aqui somente meios para o livre e pleno desenvolvimento da personalidade humana.”

Em artigo anterior (O teatro como símbolo em Goethe) procurei argumentar que o teatro é símbolo, não mera diversão e nem mesmo instrumento pedagógico. Os artistas da arte de encenar procuram tão somente reviver o que é o elemento vital. Teatro é a própria vida e dela os artistas, em analogia, produzem seus textos e fazem as representações. Lukács jamais compreendeu isso, portanto jamais compreendeu o autor que tanto estudou. Ignorou que Goethe tomou de empréstimo a visão do espanhol Calderon de la Barca, especialmente da peça El Gran Teatro Del Mundo, para compor o FAUSTO e o resto da obra. Goethe praticava e acreditava em astrologia, sendo o tema (mapa) natal a peça que caberia a cada um representar. Sua visão era próxima à de Sófocles, em que os deuses (a Natureza) agiam e que o curso das estrelas determinava as decisões, que selavam os destinos, como Édipo selou o seu.

A admiração de Goethe pelo espanhol vai além. No WERTHER podemos ler, na carta datada de 22 de maio: “Que a vida do ser humano não passe de um sonho, eis uma impressão que muitas pessoas já tiveram, e também eu vivo permanentemente com esta sensação.” Não preciso lembrar que a peça mais famosa de Calderon é precisamente LA VIDA ES SUEÑO, onde a idéia foi originalmente exposta.

Lukács não revelou apenas ignorância em seu Posfácio, expôs também a limitação do método marxista para análise literária. A grande obra de arte trata sobretudo das questões da alma. O FAUSTO, por exemplo, é a radiografia do drama do descenso espiritual da modernidade, que tem no marxismo um epítome. O marxismo deriva também de Goethe, de um leitura simplória e unilateral do próprio Marx do grande poeta alemão. Evidentemente o menor não pode conter o maior. O marxismo não tem resposta nem para a obra de Goethe e nem para nenhum grande autor da alta literatura.

Última modificação em Segunda, 10 Março 2014 21:51
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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