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15 Abr 2004

Ecos de Bandung

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O que vemos no Brasil de hoje, a saber, desordem social, ativismo político, política econômica esquizofrênica, baderna no campo, diplomacia “alinhada”, tudo isso são ainda os ecos do encontro de Bandung, ocorrido em abril de 1955.

O que vemos no Brasil de hoje, a saber, desordem social, ativismo político, política econômica esquizofrênica, baderna no campo, diplomacia “alinhada”, tudo isso são ainda os ecos do encontro de Bandung, ocorrido em abril de 1955. Como se sabe, naquela cidade encontraram-se os líderes dos países chamados não alinhados, que propunham uma mudança na ação política dos governantes, fazendo-a alavanca para “desenvolver” as economias atrasadas. Esses países constituíram o que os franceses passaram a chamar de Terceiro Mundo, denominação que ficou consagrada.

Na verdade, esses homens eram caudatários das idéias marxistas-leininistas, que viam o atraso econômico não como resultado das condições objetivas de cada sociedade, como o estoque de capital, a capacitação da sua força de trabalho, a existência de um número considerável de empreendedores, os recursos naturais. Não. Viam o atraso como sendo o resultado de uma conspiração, como se houvesse um acerto entre os chamados países do Primeiro Mundo para tornar essas nações pobres permanentes. Sua base teórica estava na teoria do imperialismo de Lênin, refinada por Hilferdind no seu livro “O Capitalismo Tardio”. Claro que essa teoria é falsa, mas quem queria saber disso? Ela fornecia um excelente mote para a nova classe política em busca do poder. A realidade e a verdade – e as pessoas – não importavam.

Essas teorias do imperialismo são a base para as ideologias nacionalistas de cunho autárquico, que vê no capital estrangeiro um mal em si, quando na verdade ocorre exatamente o contrário.

No Brasil o mais consagrado autor a dar um envelope verde-e-amarelo para essas baboseiras foi Celso Furtado, o pai teórico de todas as esquerdas, da mais vermelha à mais cor-de-rosa, em seu trabalho sobre a suposta deterioração dos termos de trocas internacionais. A idéia é que haveria uma conspiração, dada pelo arranjo do comércio internacional, para que os preços das mercadorias exportadas pelo Terceiro Mundo, basicamente do setor primário, caíssem sistematicamente, dessa forma impedindo a apropriação de um excedente maior pelos residentes nesses países. A solução, para essa gente, seria a intervenção estatal, dando mais e mais poder para que o Estado pudesse interferir na vida econômica, eliminando com isso o livre mercado. O surto de estatização, inflação e supertributação que vimos acontecer desde então é resultado de falsa teorização. A apologia que Furtado fez ao intervencionismo da Era Vargas virou verdade absoluta para as gerações que se sucederam desde então.

É claro que haveria toda uma implicação de política externa, de confronto, que só fazia sentido no contexto da Guerra Fria, tornando o Terceiro Mundo não alinhado como força auxiliar do bloco soviético, contra as democracias ocidentais. Tanto é assim que, uma vez removido o império soviético, essa linguagem e essas teses foram deixadas de lado, tendo ressurgido agora com toda força com Lula e seu grupo no poder, eles todos tributários de Celso Furtado. Esse momento histórico internacional está muito bem relatado no livro de Paul Johnson, TEMPOS MODERNOS, disponível para quem quiser ler na tradução brasileira, editada pelo Instituto Liberal do Rio de Janeiro (www.institutoliberal.org.br ), especialmente em seu capítulo número 14.

A dinâmica do governo Lula é dada pela disputa entre os “realistas”, aqueles que tiveram a capacidade de perceber como certas coisas precisam  acontecer para que as riquezas possam ser produzidas, e aqueles declarados herdeiros dos ecos de Bandung. Até agora esse segundo grupo esteve na periferia no centro decisório, mas até quando? Como os problemas da sociedade brasileira, especialmente na sua dimensão econômica, são insolúveis se o argumento liberal não for abraçado, mais e mais essa gente fica ansiosa para pôr a mão no manche de comando. Seu programa de governo se resume a gerar mais inflação, mais impostos e mais dívida pública, em ímpeto destrutivo até o limite da exaustão. É claro que, além de não resolverem problema nenhum, pessoas com essas idéias, tomando decisões, irão produzir um desastre apocalíptico. A crítica à taxa de juros, a proposta de elevação do salário mínimo, de elevação dos salários em geral do setor público, a revisão da dívida externa, a reforma agrária, enfim, as sandices habituais, estão com energia renovada.

É o Brasil namorando o fundo do abismo.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:33
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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